Você já esteve em um dos lados de conversas semelhantes a esta:
Quer um? Não, obrigado. Pegaí! Não, tô sem fome. Pode pegar! Acabei de tomar café. Toma, toma! Não não não, valeu. Unzinho só!
Reconhece? E é chato, não é? Então vamos ver juntos a melhor maneira deste diálogo acontecer.
Se alguém está consumindo algo por perto, não cabe a você começar o diálogo e pedir. A não ser, é claro, que seja uma amiga íntima. Ou quando você está faminta, desesperada. Às vezes, nem isso. Mas se é você que está comendo quando alguém chega ou vai começar a comer na presença de outras pessoas, é questão de educação oferecer. A não ser que você queira ser chamada de egoísta.
Sabendo da regra acima, você pode assumir que quando alguém te oferecer algo, está fazendo por educação, e seu dever de cidadã educada é agradecer e recusar. A pessoa pode estar com fome, pode ser o último biscoito e, principalmente, você não sabe se ela realmente quer compartilhar ou se ela está sendo apenas educada.
Numa situação em que todas estão sendo apenas educadas, a conversa pode acabar por aqui, mas há mais etapas que podem surgir.
Se é você que está comendo, eis a sua chance de mostrar que realmente quer compartilhar. Um oferecimento duplo é uma outra forma de dizer olha, eu realmente não me importo de dividir minha garrafa contigo.
Logo, se é você que está recebendo a segunda oferta, eis o momento de poder provar daquele doce curioso e exótico que a Bruna comprou na confeitaria da esquina. Porque agora ficou claro que ela não está sendo apenas educada. E também, se você realmente não quer nada, uma segunda negativa é um sinal claro de que você, enfim, não quer nada mesmo.
Este é o segundo momento onde este tipo de conversa deveria terminar. Você que está curtindo sua bebida favorita já mostrou sua educação e boa vontade em dividir. E você que assiste também mostrou que é bem-educada e negou duas vezes ou então pôde saborear o novo quitute sem dor na consciência.
Se a conversa passa deste ponto, já descobrimos a mala da situação: a moça que não cansa de oferecer as balas. Caso ela conhecesse estas regras jamais faria isso. Mas não conhece. E insiste.
Pega, pode pegar, tem um monte, é bom, pega, experimenta, não fica com vergonha não, pega!
Não passa pela cabeça dela que a outra pessoa realmente não queria o que ela está oferecendo. Ela, em seu mundinho, só quer provar que é uma pessoa boa e desapegada.
Daí, ou você segue negando ou encara e pega um pouco só pra satisfazê-la. Nem precisa beber. Deixa ali num canto da mesa e finge que esqueceu.
Conto: Passageira Inconveniente
A cada dia me surpreendo mais e mais com as coisas que as pessoas aprontam por aí, sem a mínima preocupação com o incômodo que causam a quem está por perto. Dia desses, estava eu em um ônibus atravessando a Rio-Niterói quando a sujeita começou a aprontar a dela.
A moça atrás de mim logo comentou. Essa gente não tem noção mesmo, né?. A Advogada em pé do meu lado julgou rápido. Dava pra enquadrar no 183 fácil fácil. E aos poucos, todos foram ficando indignados com ela.
Por estar com fones de ouvido, não escutava o cochicho generalizado de recriminação à sua volta. E, sempre que podia, batia os dedos nos ferros como se tocasse um piano imaginário.
Tava difícil de aguentar, era abuso demais pra mim. Me espremi por entre os passageiros e fui até ela. Alguém tinha que acabar com aquilo.
Ela olhou pra mim meio assustada quando cutuquei seu braço com cara de poucas amigas. Reclamei e pedi que parasse, antes que fosse arremessada ao mar. Onde já se viu? Num ônibus lotado, em pé, e sorrindo! Feliz, com cara de boba, sorrindo como se estivesse deitada em uma rede, à beira de uma lagoa, num amanhecer ensolarado.
Abrindo um sorriso ainda mais largo, ela tirou um dos fones e me ofereceu. Desconfiada, peguei e pus no ouvido. Então entendi.
E sorri também.
A moça atrás de mim logo comentou. Essa gente não tem noção mesmo, né?. A Advogada em pé do meu lado julgou rápido. Dava pra enquadrar no 183 fácil fácil. E aos poucos, todos foram ficando indignados com ela.
Por estar com fones de ouvido, não escutava o cochicho generalizado de recriminação à sua volta. E, sempre que podia, batia os dedos nos ferros como se tocasse um piano imaginário.
Tava difícil de aguentar, era abuso demais pra mim. Me espremi por entre os passageiros e fui até ela. Alguém tinha que acabar com aquilo.
Ela olhou pra mim meio assustada quando cutuquei seu braço com cara de poucas amigas. Reclamei e pedi que parasse, antes que fosse arremessada ao mar. Onde já se viu? Num ônibus lotado, em pé, e sorrindo! Feliz, com cara de boba, sorrindo como se estivesse deitada em uma rede, à beira de uma lagoa, num amanhecer ensolarado.
Abrindo um sorriso ainda mais largo, ela tirou um dos fones e me ofereceu. Desconfiada, peguei e pus no ouvido. Então entendi.
E sorri também.
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