Arte: Afirmações e Questionamentos

Durante o segundo semestre de 2019, cursei a disciplina Sociologia da Cultura I, com o professor Jorge de La Barre. O que segue abaixo é um artigo que escrevi para a disciplina.

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Depois de termos assistido ao filme Verdades e Mentiras (Verités et Mensonges, Orson Welles, 1973), iniciamos uma discussão em sala de aula acerca da veracidade e do valor das obras de arte. A partir dessa discussão, tivemos a oportunidade de elaborar perguntas e propostas baseadas no que tinha sido conversado. Busco neste artigo elaborar minhas ideias em torno das cinco propostas e duas perguntas sugeridas. Elas aparecem aqui na ordem em que as anotei, não na ordem em que foram feitas durante a aula. Abordo primeiro quatro das cinco propostas, em seguida as duas perguntas, e por fim uma última proposta, sobre a qual me debruço com mais detalhamento.

A primeira proposta foi "a arte deve ser real." A princípio acho esse um ponto complicado de elaborar, porque depende muito de qual é o entendimento sobre "ser real." O que é "ser real?" Se partirmos de um ponto de vista de que o que é real é aquilo que pode ser tocado fisicamente, a proposta é excludente, pois deixa de fora a música. Esticando um pouco o entendimento sobre tocar fisicamente, isso pode deixar também de fora o cinema. Portanto, não acredito que o ponto de vista acerca da realidade da arte seja este.

Outra possibilidade de interpretação da realidade da arte pode dizer respeito à autenticidade da obra de arte. Levando em consideração que o filme que vimos retrata um falsificador de pinturas, acredito que esta tenha sido a intenção da pessoa que fez esta proposta. Sob este ponto de vista, sou levado a concordar com a proposta. Se um artista desenvolve uma técnica ou um estilo de trabalho, e outra pessoa busca fazer cópias de suas obras, claramente há uma irrealidade nessas cópias.

E isso me leva a um terceiro entendimento possível sobre a realidade da obra de arte, que tem a ver com a sua intencionalidade, e está intimamente associado ao segundo entendimento. Mesmo que uma obra não seja propriamente uma falsificação de outra, ela pode ser uma mera cópia da forma de fazer, e busque apenas capitalizar em cima do sucesso de outrem. Neste caso, uma obra que é apenas uma cópia que busca surfar na onda de sucesso de uma outra com certeza não pode ser chamada de arte.

A segunda proposta foi "a arte sempre foi reprodutível." Vejo duas formas de interpretar essa proposta. A primeira forma diz respeito à obra de arte como objeto físico, que sim, quase sempre pôde ser reproduzida. Uma pintura pode ser reproduzida, um livro pode ser copiado, a dança pode ser dançada por outras pessoas. Obras que não podem ser reproduzidas são exceções, como grandes esculturas, por exemplo. Em linhas gerais, entretanto, sim, a arte sempre foi reprodutível.

A segunda forma de interpretar essa proposta é em relação à sua originalidade. Quando falo aqui de originalidade, não confundir com autenticidade: estou falando de ser original em relação ao ineditismo da técnica, da forma, ou até mesmo do seu momento histórico. Ou seja, aqui estou pensando a arte não como uma obra específica, mas como forma de expressão. Sob esse ponto de vista, nem sempre a arte foi, ou é, reprodutível, como afirma a proposta.

Um exemplo brasileiro que posso citar aqui é a Tropicália. Fruto das inquietações artísticas de Caetano Veloso, Gilberto Gil e um apanhado de outros artistas, floresceu e implodiu num intervalo de meses no final da década de 1960 e marcou de forma indelével a história da música e da arte brasileira. Muito embora ainda hoje existam artistas que se inspirem e emulem de uma forma ou de outra seu estilo, pode-se dizer que a Tropicália é irreprodutível. Como forma, como movimento artístico, só poderia ter acontecido naquele momento. Tivesse acontecido uma década antes, ou uma década depois, teria causado outro impacto e teria outra estética e postura.

A terceira proposta foi "a arte causa fascínio duradouro, a cópia causa fascínio efêmero." Aqui, com base nas conversas em aula, me parece que a diferença entre arte e cópia foi entendida como a autenticidade ou não de uma obra de arte. Sob este ponto de vista, minha posição é a de concordar com a proposta.

Em seu artigo Tainted by Association, Paul Sagar examina o comportamento comum que as pessoas têm de atribuir valor a objetos de forma arbitrária, por conta de relações destes objetos com eventos do qual fizeram parte. Ele sugere, por exemplo, que uma guitarra usada por Jimi Hendrix seria muito mais valorizada do que uma outra, de mesma marca e modelo, mas que não tivesse tido um dono de renome.

Uso o mesmo raciocínio para concordar com a proposição em questão. Tendo em vista o quanto as pessoas tendem a atribuir valor ao que é original, ao que tem verdadeira associação com um artista renomado, obras de arte originais tendem a causar fascínio duradouro, enquanto que cópias têm a tendência de serem esquecidas, mesmo que apresentem as mesmas qualidades técnicas das obras originais.

Estas reflexões acerca do valor atribuído a uma obra de arte autêntica e uma cópia são extensamente discutidos no artigo Whys of Seeing, de Ellen Winner. Citando inclusive Walter Benjamin, personagem capital de nossas primeiras aulas, Ellen argumenta que "aparentemente, tratamos obras de arte como se contivessem a essência do artista, ou sua mente."

Ela destaca que, no entendimento de Benjamin, nossa resposta estética a uma obra leva em consideração a história do objeto, sua existência única, e que, portanto, uma falsificação teria uma história diferente, deixando de ter assim a "aura" possuída pela obra original. Eu acrescento duas reflexões a isso: primeiro que esse ato de levar em consideração a história do objeto para determinar nossa resposta estética pode ser, inclusive, inconsciente, fruto de uma forma internalizada de raciocinar e inteligir uma obra de arte. Segundo que não apenas a falsificação deixaria de ter a "aura" do original. Uma cópia declarada também não a teria, mesmo que não tivesse a negatividade de uma falsificação atrelada a si.

A quarta proposta foi "a reprodutibilidade é acessibilidade." Esta é mais uma proposta com a qual concordo. Por acreditar na importância da arte na vida das pessoas como força e forma de expressão, creio que quanto mais acesso as pessoas tiverem à arte, melhor. Daí que, considerando a dificuldade de acesso a obras de arte originais, sua reprodutibilidade pode torná-las mais acessíveis a um número maior de pessoas. A possibilidade de reprodução das obras é peça chave para a disseminação da arte, pois, como afirma Walter Benjamin (em A Obra de Arte na Era de Sua Reprodutibilidade Técnica), é essa possibilidade de reprodução que permite à arte se emancipar de uma existência única e estática.

Tem-se que levar em consideração também de que há formas de arte que se sustentam, inclusive, sobre a ideia de reprodutibilidade, pois dependem dela para que possam ser usufruídas e disseminadas. O cinema e a música são os casos mais claros, pois sua existência sensorial só se dá no instante em que são reproduzidos. A fotografia, também, por si só já é uma reprodução.

Quanto às perguntas formuladas, a primeira delas foi "como o valor de culto e o valor de exposição mudam com o mercado?" Acredito que a resposta para esta pergunta passa pelo cruzamento de duas ideias. Primeiro, pelas reflexões feitas por Paul Sagar no artigo citado anteriormente, Tainted by Association. Segundo, pela noção de como empresas (o "mercado") podem usar a propaganda para direcionar os interesses de massa, conforme vimos no primeiro episódio da série O Século do Ego (Century of the Self, Adam Curtis, 2002).

Tomando-se de um lado o apego emocional que as pessoas têm a objetos diversos, combinado com a manipulação mercadológica (dissimulada, em maior ou menor grau), é perfeitamente possível que o valor de culto e o valor de exposição de qualquer obra de arte, ou mesmo de uma forma de arte como um todo, mudem com o tempo. Na minha opinião, essa movimentação de valores é o que se chama vulgarmente de moda.

Porém, se formos nos basear na forma com que Renato Ortiz entende o pensamento de Adorno (em A Escola de Frankfurt e a Questão da Cultura), é possível afirmar que a pergunta proposta em aula parte de uma premissa inadequada. Pela maneira com que foi formulada, podemos entender que a pergunta assume que os valores de culto e de exposição se alteram em resposta à movimentação do mercado. Entretanto, segundo Ortiz, a reação já se encontraria pré-moldada no público. Ou seja, não é que os valores de culto e de exposição mudem em resposta à movimentação do mercado, mas sim que são intencionalmente manipulados pelo mercado. É perfeitamente possível acreditar, portanto, que a pergunta real seja "como o valor de culto e de exposição mudam sob a influência e interesses do mercado?"

O segundo questionamento foi "o valor da obra se perde com o tempo?" Tendo em vista o que foi discutido em relação ao questionamento anterior, acredito que sim, o valor da obra pode se perder com o tempo. Mas não apenas isso: acredito que o valor da obra flutua com o tempo, podendo ser maior ou menor de acordo com a conjuntura de cada época.

Uma primeira causa para isso é justamente a manipulação da percepção do valor da obra pela influência e interesses do mercado. Outro ponto que acredito ter influência são as mudanças na forma de determinar o valor de uma obra. Como afirma Walter Benjamin (no já citado em A Obra de Arte na Era de Sua Reprodutibilidade Técnica), a percepção humana é condicionada historicamente. Portanto, o fator determinante do valor de uma obra pode mudar com o decorrer da história. Em um momento, o que dá valor a uma obra pode ser a sua originalidade. Em outro, a fonte de valor é tão somente sua autoria. E mais adiante, o fator determinante passa a ser a sua importância histórica.

Finalmente, a última proposta foi "a reprodução pode ser arte." Do meu ponto de vista, esta proposta e seus desdobramentos estão intimamente ligados às duas primeiras propostas. Se reproduzir for meramente realizar uma cópia cujo objetivo seja capitalizar em cima dos sucessos de uma outra, então não faz muito sentido chamar a reprodução de arte.

Uma outra possibilidade de elaboração em cima dessa proposta é se partirmos do entendimento de arte como simplesmente a técnica. Peguemos como exemplo as pinturas do filme que assistimos em sala de aula. Se removermos a questão da intencionalidade e originalidade da obra da equação que determina a sua "artibilidade," e partirmos do princípio de que a pintura, como forma de arte, tem a ver apenas e tão somente com a técnica, então um quadro idêntico a um outro é, sim, arte.

Vou usar um outro exemplo para defender a ideia de que a reprodução pode ser arte, desta vez a partir da música. Em 2012 foi lançado o disco Good Morning to the Night, creditado a Elton John, músico então com pouco mais de quarenta anos de carreira, e PNAU, duo australiano de música eletrônica com poucos anos de carreira. Admirado com o trabalho da dupla, Elton John deu a eles acesso às fitas master de seus trabalhos nos anos 1970, dando a eles total liberdade de retrabalhar as músicas. O disco lançado como resultado desse trabalho não tinha nada de novo, por conter apenas samples de músicas originais do Elton John. Mas ao mesmo tempo só trazia novidades, pois desmembrou as músicas e costurou os trechos em composições novas e originais que não existiam antes. Não passavam, enfim, de reprodução, mas ao mesmo tempo eram sim uma forma de arte.

Um outro trabalho que segue essa linha é o documentário Histórias que Nosso Cinema (não) Contava (Fernanda Pessoa, 2018). Nele, a diretora Fernanda Pessoa lança mão de centenas de trechos de filmes brasileiros do gênero pornochanchada, os recorta e intercala, construindo uma nova obra que revela como esses filmes retratavam o momento político do país. Como afirma Inácio Araújo em sua crítica para o caderno ilustrada, do jornal Folha de S. Paulo, Histórias… "traz à luz uma história que inconscientemente se acomodou nos filmes, mas, ao mesmo tempo, histórias que não conseguimos detectar nesses filmes." Novamente, obras de arte reproduzidas que são ao mesmo tempo uma nova obra artística independente.

Encerrando o desenvolvimento de ideias sobre este assunto, acho importante referenciar a série de vídeo ensaios Everything is a Remix. Nessa série de quatro vídeos, Kirby Ferguson faz uma longa análise de como a cultura popular de massa, nascida na segunda metade do século XX, é em sua grande parte feita de reaproveitamentos e reinterpretações de conceitos e ideias anteriores. Entretanto, ao mesmo tempo em que defende a tese do reaproveitamento de ideias, não desmerece o que surge como fruto desse reaproveitamento.

Em uma entrevista para o canal Konbini, o músico francês Jean-Michel Jarre mostra estar bem alinhado com o pensamento de Kirby Ferguson, quando afirma que o sampling é uma das características fundadoras da música moderna. Ele diz que todo mundo remixa todo mundo, que Picasso remixou arte africana, que todos roubam a todos. E que no caso da música eletrônica esse chega a ser um trabalho de bricolagem.

Em uma apresentação em numa conferência TED em 2012, para ilustrar seu argumento de que tudo é um remix, Kirby apresenta diversos trabalhos de artistas que são obras anteriores retrabalhadas. Entre outros exemplos, ele cita músicas de Bob Dylan e o disco The Gray Album, de Danger Mouse. Ele afirma que o processo de copiar, transformar e recombinar é o que há por trás da criatividade.

E o que surge na esteira da criatividade, senão a arte?

Retrospectiva Musical de 2019 e dos Anos 10

Uma coleção de listas diversas e sortidas, sem muitos comentários.

Os melhores lançamentos de 2019. Discos que duraram (e que estão durando) em minhas playlists ao longo de todo o ano.

atrás / além, O Terno
My Finnish Calendar, Liro Rantala
Feral Roots, Rival Sons
Respiro, Scalene
O Amor no Caos, Vol. 1, Zeca Baleiro
Escumalha, Douglas Germano
The Highwomen, The Highwomen
Maglore Ao Vivo, Maglore
Shine a Light, Bryan Adams
Nick Waterhouse, Nick Waterhouse


As melhores faixas de 2019. Músicas que não enjoei de ouvir ao longo do ano.

Shooting Stars, Rival Sons
Bielzinho / Bielzinho, O Terno
Desconstrução, Tiago Iorc
I Feel an Urge Coming On, Nick Waterhouse
O Linchador, Zeca Baleiro
Kites, House of Waters
Valhacouto, Douglas Germano
SAW, Ai Kuwabara


As melhores descobertas de 2019. Artistas novos e antigos que eu nunca tinha ouvido e adorei descobrir: Iasi Iaco, Alexandra Streliski e Steely Dan


Alguns dos discos que mais ouvi nos anos 10, um nacional e um estrangeiro, na maior parte das vezes. Alguns discos não foram lançados no ano em que os descobri, mas não estão longe de seus lançamentos.

2010 - C_mpl_te, Móveis Coloniais de Acaju
2010 - The Union, Elton John & Leon Russell

2011 - Chico, Chico Buarque
2011 - Live at Benaroya Hall with the Seattle Symphony, Brandi Carlile

2012 - Storm Corrosion, Storm Corrosion
2012 - Don't Explain, Beth Hart & Joe Bonamassa

2013 - Fôlego, Filipe Catto
2013 - Random Access Memories, Daft Punk

2014 - Criador do Mundo, Daniela Araújo
2014 - Sim, Sandy

2015 - Convoque seu Buda, Criolo
2015 - The Firewatcher's Daughter, Brandi Carlile

2016 - Sobre Crianças, Quadris, Pesadelos e Lições de Casa, Emicida
2016 - Encore un Soir, Céline Dion

2017 - A Gente Mora no Agora, Paulo Miklos
2017 - The Nashville Sound, Jason Isbell and The 400 Unit

2018 - Variável Eloquente, Caio Prado
2018 - A Deeper Cut, The Temperance Movement

2019 - Escumalha, Douglas Germano
2019 - My Finnish Calendar, Iiro Rantala


Algumas das músicas que mais ouvi nos anos 10, uma nacional e uma estrangeira, na maior parte das vezes. Algumas não foram lançadas no ano em que as descobri, mas não estão longe de seus lançamentos.

2010 - Glória, Diante do Trono, do disco Aleluia
2010 - Hey Ahab, Elton John & Leon Russell, do disco The Union

2011 - Sinhá, Chico Buarque, do disco Chico
2011 - Behind the Mask, Michael Jackson, do disco Michael

2012 - Linha Tênue, Maria Gadu, do disco Mais Uma Página
2012 - I'll Take Care of You, Beth Hart & Joe Bonamassa, do disco Don't Explain

2013 - Roupa do Corpo, Filipe Catto, do disco Fôlego
2013 - Drive Home, Steven Wilson, do disco The Raven that Refused to Sing

2014 - Liberdade, Daniela Araújo, do disco Criador do Mundo
2014 - Sim, Sandy, do disco Sim

2015 - O Admirado Lamentável Cidadão, Lorena Chaves, do disco Lorena Chaves
2015 - Mainstream Kid, Brandi Carlile, do disco The Firewatcher's Daughter

2016 - Casa, Emicida, do disco Sobre Crianças, Quadris, Pesadelos e Lições de Casa
2016 - Looking Up, Elton John, do disco Wonderful Crazy Night

2017 - Triste, Louca ou Má, Francisco, el Hombre, do disco Soltasbruxa
2017 - John Wayne, Lady Gaga, do disco Joanne

2018 - Não Recomendado, Caio Prado, do disco Variável Eloquente
2018 - Somnambule, Coeur de Pirate, do disco en cas de tempête, ce jardin sera fermé.

2019 - Bielzinho / Bielzinho, O Terno, do disco atrás / além
2019 - Shooting Stars, Rival Sons, do disco Feral Roots


Algumas das melhores descobertas musicais dos anos 10. Artistas e bandas que descobri nestes anos, não parei de ouvir e acompanho de perto os novos lançamentos.

2011 - Mayra Andrade
2011 - Rival Sons
2011 - Joe Bonamassa
2012 - Steven Wilson
2013 - Ólafur Arnalds
2013 - Flávia Wenceslau
2014 - Coeur de Pirate
2014 - Zaz
2015 - Criolo
2015 - Emicida
2016 - Douglas Germano
2016 - Ina Forsman
2017 - Jason Isbell
2018 - The Temperance Movement


10 músicas que Elton John lançou nos anos 10 que eu mais curti:

Hey Ahab e Monkey Suit, do disco The Union.
Good Morning to the Night e Sixty, do disco Good Morning to the Night.
Oceans Away, Home Again e Mexican Vacation, do disco The Diving Board.
I've Got 2 Wings e Looking Up, do disco Wonderful Crazy Night.
I'm Gonna Love Me Again, da trilha sonora de Rocketman.



Alguns artistas que tive o prazer de assistir ao vivo nos últimos 10 anos.

Elton John (4 vezes!)
Chico Buarque (3 vezes!)
Roger Waters (2 vezes!)
Eric Clapton
Rush
Paul McCartney
GoGo Penguin
Ney Matogrosso

Um Pouco de História do Cinema Brasileiro

Este é um artigo que escrevi como conclusão da disciplina de História do Cinema Brasileiro no curso de licenciatura em cinema e audiovisual na UFF, no primeiro semestre de 2019. O objetivo era falar dos primórdios do cinema nacional, com seus filmes silenciosos, dos grandes estúdios surgidos bem ali no meio do século XX, e também um pouco do cinema independente da década de 50.

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As primeiras exibições de filmes no Brasil datam do século dezenove, em São Paulo. Antes mesmo da chegada dos primeiros projetores, paulistanos tiveram a oportunidade de experimentar a novidade do Kinetoscópio, em 1895.[1] As primeiras empresas exibidoras eram em sua maioria itinerantes. Como motivos para isso pode-se apontar dois como determinantes: de um lado tinha-se um estoque limitado de filmes, e de outro tinha-se um número reduzido de público. Por isso, os exibidores não tinham outra opção que não itinerar entre diversas cidades em busca de novos públicos. Tem-se registro de que o exibidor paulistano Renouleau estreou seu cinematógrafo em 07/08/1896, tendo mais tarde apresentado-se também em Porto Alegre.[2]

A partir de meados da primeira década do século XX já há a produção de filmes no Brasil. Parte desses filmes eram os chamados filmes naturais, que hoje são comumente chamados documentários. Estes dividiam-se basicamente em duas linhas de produção. De um lado os filmes de exaltação da natureza. Funcionando de certa forma como uma ferramenta de afirmação de nacionalismo, a princípio esses filmes buscavam registrar imagens da então capital do país, o Rio de Janeiro. Com o tempo, foram se espalhando para paragens cada vez mais distantes: tem-se registro de filmes realizados em Niterói, Paquetá e Petrópolis.[3]

Um pouco mais tarde, no Rio Grande do Sul, pode-se destacar a produção realizada por Ítalo Manjeroni, que assinava suas produções sob o pseudônimo I. Leopoldis. Depois de passar temporadas no Rio de Janeiro trabalhando como ator até os anos 1920, em terras gaúchas Ítalo começou nos anos 1930 a sua produção de filmes.[4]

A segunda grande linha de produção dos filmes naturais era a exaltação de figuras públicas. De um lado, temos o registro da vida de presidentes, cujas atividades públicas eram registradas com frequência. De outro lado, tinha-se também o registro de artistas de renome na época. Com o desenvolvimento da cadeia cinematográfica na capital, sua vida e cultura também foram objeto do interesse das câmeras: havia o registro de práticas esportivas e de festas carnavalescas, por exemplo.[5]

Além dos filmes naturais, haviam também os filmes de ficção, chamados na época de filmes posados. Muitos desses filmes buscavam copiar fórmulas que já vinham se consolidando em produções estrangeiras. Em seu artigo Versão Brasileira?,[6] Luciana C. de Araújo destaca diversas dessas cópias: em Retribuição (1925, Gentil Roiz), um grupo de ladrões é caracterizado com figurinos e atitudes já codificados pelo cinema americano, além de haver a encenação de quedas e deslizamentos. Sobre Jurando Vingar (1925, Ary Severo), ela afirma que "não faltam elementos que caracterizam o filme de aventura: a briga de socos, o rapto e salvamento da mocinha, o 'café' como correlato do saloon dos faroestes."

Houveram também os chamados ciclos regionais, que se caracterizam pela produção de filmes fora do eixo Rio-São Paulo. Na década de 1910 há a produção de filmes em Barbacena (MG) e Pelotas (RS). Na década de 1920 tem-se, entre outros, os ciclos de Cataguases (MG), Recife (PE) e Campinas (SP).[7]

Em resposta ao desenvolvimento do cinema no Brasil, as revistas de conteúdo cultural começaram a se debruçar sobre a nova arte. Começaram a ser publicadas, inclusive, revistas dedicadas exclusivamente ao tema. A revista Paratodos, já em sua edição número dois, noticiava a construção de uma sala de cinema de 4.000 lugares em Barcelona.[8] Alguns anos depois, sua seção dedicada ao cinema, nas palavras da própria publicação, "pediu supprimento de edade, declarou sua independencia, constituiu-se maior para todos os effeitos" e passou a ser publicada em uma revista independente, a Cinearte, "exclusivamente consagrada a cousas do cinema."[9] Nesse ínterim, começa a ser publicada a revista A Scena Muda, dedicada quase inteiramente ao cinema, e dava notícias inclusive do mercado cinematográfico estadunidense, tratando de contratações e realizações de longas.[10]

Por fim, pode-se citar também o breve periódico O Fan, publicado pelo cineclube Chaplin-Club, que na capa de sua primeira edição declarava que "não é movido nem pela sombra de uma preoccupação economica, porque só visa o cinema, só se preoccupa com o seu desenvolvimento, só cuida do seu conhecimento."[11] Além disso, a publicação tinha um forte posicionamento contra o cinema falado: "o cinema 'sonoro' tem conseguido apenas isso: (...) servir em países como o Brasil, como um factor violento de desnacionalização, peior ainda, de estadunidensização."[12]

A imagem a seguir apresenta uma linha do tempo que ilustra o tempo de vida destas quatro publicações.


A partir dos anos 1930, até os anos 1950, foram fundados alguns grandes estúdios, que buscavam reproduzir não apenas o conteúdo dos filmes estrangeiros, em especial o estadunidense, mas também seu modelo e processo de produção.

A primeira grande produtora foi a Cinédia, fundada em 1930 por Adhemar Gonzaga, então diretor da revista Cinearte, que no estúdio atuava principalmente como produtor dos filmes. Adhemar costumava viajar para os Estados Unidos com frequência, tendo em certa oportunidade passado lá dois meses, "estudando a vida dos studios de Hollywood e convivendo com os grandes artistas da arte silenciosa."[13] A revista A Scena Muda dedica duas páginas para exaltar a produção da Cinédia, afirmando que "o Studio da Cinédia, que ora divulgamos, (...) demonstra de maneira eloquente como são solidas as bases do cinema brazileiro."[14] Entre os filmes de sucesso lançados pela Cinédia pode-se citar Alô, Alô Carnaval (1936, Adhemar), Bonequinha de Seda (1936, Oduvaldo Vianna) e O Ébrio (1946, Gilda Abreu).

Uma década depois da fundação da Cinédia, em 1941 foi fundada a Atlântida, por Moacir Fenelon e José Carlos Burle. Em poucos anos, já tinha suas produções exaltadas pela revista A Scena Muda, que afirmava que "esta empresa relativamente nova, muito tem feito pelo progresso do nosso cinema, podendo mesmo citá-la como nossa principal produtora."[15] Muitos atores iniciaram suas longevas carreiras nos filmes da Atlântida, entre os quais pode-se citar Oscarito, Grande Otelo, Eva Todor e Zezé Macedo. Entre os filmes de sucesso lançados pela Atlântida pode-se citar Moleque Tião (1943, José Carlos Burle) e Gente Honesta (1944, Moacir Fenelon).[16]

Outro estúdio de grande importância foi o Brasil Vita Film, fundado em 1933 com o nome Brasil Vox Filmes. Seus diretores eram Carmen Santos, que já trabalhava como atriz de cinema desde o início dos anos 1920, e Humberto Mauro, que produzia e dirigia filmes também desde os anos 1920. Carmen demonstrava grande interesse no desenvolvimento do cinema nacional, tanto que sugeriu a criação de uma escola de cinema.[17] Entre os filmes de grande importância histórica produzidos pelo estúdio, pode-se citar Limite (1931, Mário Peixoto), Favela dos Meus Amores (1935, Humberto Mauro) e Inconfidência Mineira (1948, Carmen Santos). Este último merece destaque mais pelo seu tempo de produção, sete anos, do que pelo sucesso alcançado. A expectativa criada pela espera acabou gerando uma recepção fraca.

Além destes, existiam muitos outros estúdios. A revista A Scena Muda listou, em uma edição, mais de trinta estúdios, como o Carriço Filmes, localizado em Juiz de Fora, o Bonfioli, de Belo Horizonte, e J. G. de Araujo e Cia. Ltda, de Manaus.[18]

Com a fundação do Instituto Nacional de Cinema Educativo (INCE), órgão público voltado à promoção do uso de filmes como processo auxiliar do ensino, muitas das pessoas envolvidas nos estúdios passaram a produzir filmes em parceria com o governo. Em especial Humberto Mauro, que produziu diversos longas e curtas, com destaque para O Descobrimento do Brasil (1936).

Com o eventual declínio e falência dos grandes estúdios, a partir dos anos 1950 ganha força no Brasil o cinema independente. Estes cineastas buscavam fugir da estética de estúdio, criam que a forma de filmar deveria apresentar as mesmas dificuldades retratadas no filme e tinham forte influência do neorrealismo italiano e da nouvelle vague francesa.

No início dos anos 1930, em resposta ao desenvolvimento do cinema sonoro, e devido às dificuldades das filmagens em locações externas, os estúdios cinematográficos passaram a privilegiar a produção em interiores. Com isso, ocorreu uma certa uniformização da estética de produção, caracterizada pela mise-en-scène de estúdio.

É então que, a partir dos anos 1950, começam a surgir produções que buscam retratar um realismo cotidiano, além do que vinha sendo feito comumente em produções de estúdio. Surgia assim uma espécie de realismo brasileiro, que buscava se distanciar tanto de tal estética de estúdio quanto do estilo cinematográfico estadunidense, neste momento dominante no gosto popular. Esses filmes levaram às telas uma temática até então pouco explorada na cinematografia nacional.

À guisa de exemplo, pode-se citar Rio, Zona Norte (1957, Nelson Pereira dos Santos), que trata da vida de um músico carioca; Alameda da Saudade, 113 (1950, Carlos Ortiz), que conta a história de um casal que se conhece durante o carnaval; e Agulha no Palheiro (1952, Alex Viany), que retrata a busca de uma jovem pelo homem que a engravidou.

Como destaca Hernani Heffner,[19] esses filmes em certos momentos flertam com o documentário (como em Amei um Bicheiro (1952, Jorge Ileli), que tem sequências filmadas na rua) e posteriormente, mais para o final da década, começam a retratar de forma politizada o quadro social.

É este desejo de apresentar na tela do cinema o povo brasileiro e seus dramas, aliado a uma estética mais simples e menos construída artificialmente, que vai ser abraçado pela nova geração de cineastas surgidos na década de 1960, dando à produção nacional um caráter mais engajado e ativo politicamente.


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Referências Bibliográficas

[1] Barro, Máximo. A primeira sessão de cinema em São Paulo. in Souza, José Inácio de Melo. O Ano de 1902, www.mnemocine.com.br.
[2] Souza, José Inácio de Melo. O Ano de 1902, www.mnemocine.com.br.
[3] Gomes, Paulo Emílio Salles. A expressão social dos filmes documentais no cinema mudo brasileiro (1898-1930).
[4] Póvoas, Glênio. Leopoldis - A História do cinema gaúcho é contínua.
[5] Gomes, Paulo Emílio Salles. A expressão social dos filmes documentais no cinema mudo brasileiro (1898-1930).
[6] Araújo, Luciana Corrêa. Versão Brasileira? Anotações em torno da incorporação do modelo norte-americano em filmes silenciosos brasileiros.
[7] Verbete temático. Ciclos Regionais.
[8] Revista Paratodos, ed. 02, p. 22.
[9] Revista Paratodos, ed. 362, p. 32.
[10] Revista A Scena Muda, ed. 01, p. 14.
[11] Revista O Fan, ed. 01, p. 01.
[12] Revista O Fan, ed. 08, p. 40.
[13] Revista Paratodos, ed. 445, p. 28.
[14] Revista A Scena Muda, ed. 560, p. 03.
[15] Revista A Cena Muda, ano 1945, ed. 12, p. 30.
[16] Assim era a Atlântida. Site Atlântida Cinematográfica. Fora do ar, acesso a cópia de arquivo em 10/07/2019.
[17] Revista A Scena Muda, ed. 800, p. 03.
[18] Revista A Scena Muda, ed. 793, p. 27.
[19] HEFFNER, Hernani. Os realismos da década de 1950 no Brasil, in Olhares Neo-Realistas, Editora CCBB, p. 44.