Porque é difícil mudar de perspectiva?

Muitas coisas contribuem para que uma pessoa não consiga ou não queira mudar de perspectiva, mesmo que apenas para ver o mundo com os olhos de outra pessoa por um instante.

Vai ver a pessoa aprendeu que é bonito ser uma pessoa de opiniões fortes, que é importante ter personalidade, e acaba pondo sua opinião e seu modo de vida em um pedestal intocável, transformando-as em coisas que deve defender com unhas e dentes. Muitas vezes a pessoa simplesmente aprendeu que aquela é a única maneira certa de entender uma situação, como se houvesse uma fórmula mágica para a vida. Quando criança, a pessoa aprende que o jeito certo de responder a uma situação desagradável é reagindo com violência, e leva isso pra vida adulta.

Pode acontecer também da pessoa querer passar uma imagem para o mundo. Logo, agir de um jeito diferente vai significar uma falha de caráter. Muitas vezes, o simples fato de questionar uma opinião é visto como um atentado à sua integridade moral. Como se mudar fosse o fim do mundo. Como se admitir que o outro está certo implique em admitir que se está errado.

Outra causa é que isso mexe com suas crenças, sejam lá quais elas forem. Talvez ela ache que tem que ficar com raiva de alguém porque sua divindade favorita ensinou que o que aquela pessoa está fazendo é impuro. Ou talvez porque pense que homem que é homem tem que achar que isso ou aquilo é coisa de fracotes.

Isso pode ser também fruto do medo de ver que suas opiniões e posições estão equivocadas. Lá no fundo a pessoa sabe que pode estar errada, e sabe que se começar a elaborar o raciocínio, o castelo de areia vai cair. Aí ela, que construiu sua visão de mundo em cima de uma visão, vai ficar sem chão, sem referências. Daí ser mais fácil se manter firme numa visão que talvez esteja errada do que soltar a corda e ter que achar outra pra se agarrar.

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Esse texto era parte do texto que publiquei no Papo de Homem em 2015, mas foi cortado durante a edição. Achei que valia tirá-lo da gaveta porque ainda permanece atual.

Slogan de Jornal

Um site de notícias estampa o slogan: "o que você precisa saber".

Não, amigo, não. O certo é "o que nós queremos que você saiba, o que normalmente significa matérias escolhidas com o objetivo de te causar desconforto, despertar em você um espírito de indignação, manipular de maneira suja o seu estado emocional e fazer você voltar mais e mais para nosso site, de forma a termos bastante audiência e podermos vender espaço para anúncios".

Sobre ler textos complicados

Desde que comecei a faculdade de Cinema e Audiovisual na UFF, em 2017, tenho sido levado a fazer algo que não fazia com frequência: ler textos difíceis e densos. Foucault, Jacques Aumont, Gilles Deleuze, Sergei Eisenstein, Jacques Rancière, e por aí vai. Desde o início, achei muito difícil ler a maioria dos textos, na maioria das vezes com uma redação diferente das quais estou acostumado, pantanosos e viscosos. Minha mente normalmente fica assim ao ler estes textos:


Já conversei com alguns professores e colegas de curso sobre isso mas nunca consegui descobrir uma maneira de melhorar minha relação com estes textos.

Até que no final do ano eu encontrei um vídeo com parte de uma aula do professor Clóvis de Barros Filho onde ele fala justamente sobre a leitura de textos difíceis. Ao mesmo tempo uma lição e um tapa na cara, o vídeo chegou no momento certo. Durante algumas semanas, escutava quase diariamente, enquanto fazia minhas caminhadas de volta pra casa. Seguem abaixo algumas das partes que mais me chamaram a atenção. São pouco mais de sete minutos de pura iluminação.

Sobre a forma de ler esse tipo de texto. Não é para ler de uma passada só, como uma reportagem de jornal ou um livro de ficção. É preciso remover, rever, ruminar.

"'Professor, mas três páginas leva um minuto e meio' (...) Não, não leva não. Você pega o primeiro parágrafo. Lê. Ele vai te produzir um certo desconforto. (...) Lê de novo. (...) Lê a terceira vez. Aí vai pro segundo parágrafo. (...) Gasta uma hora em três páginas. (...)"

Sobre a crença em nossa própria capacidade. É claro que certas coisas exigem mais dedicação que outras, mas se alguém já foi capaz de fazer uma coisa, outras pessoas têm as condições de repetir.

"É uma questão de brio. (...) 'Malandro, você é tosquinho, você não entende.' Nossa, eu volto pra casa (...), eu vou lá, vou botar 'Kant', vem o texto, eu vou ler. Porque? Como pode um cara escrever uma coisa que eu não entenda? (...) Eu vou ler aquela merda até entender. (...) Senão nego caga na sua cabeça e você não reage."
"Como assim eu não vou entender? Eu comi na infância! Né? (...) Cérebro, tenho o tamanho de um cérebro normal. (...) O cara escreveu, velho, você só vai entender o que ele escreveu, você imagina que ele teve que tirar do zero aquela merda toda!"
"O que todo mundo diz? 'Não, nem pega o texto, cara, isso aí é pra dois ou três.' Porra, (...) então é pra mim!"

Sobre a importância de se esforçar para ser capaz de melhorar o próprio pensamento, da mesma forma que exercitamos nossos músculos.

"Você vai dizer, 'professor, a pedagogia...', a pedagogia que se foda, você precisa sentar a bunda na cadeira e melhorar a sua capacidade de pensamento."
"Porque estudar, aperfeiçoar a capacidade intelectiva, pensar com competência, é tão esforçado quanto ter músculos (...), exige empenho, exige dedicação, exige bunda na cadeira."

Por fim, um puxão de orelha, só pra lembrar que o tempo que você perde reclamando podia estar gastando com coisas mais úteis.

"Agora pega o texto, deita, e entende. Porque, não tem como porque não entender. (...) Tem professor, tem comida, tem tudo, o resto é só preguiça e covardia."