Da Meditação

Aprendi muitas coisas este ano, e a melhor delas foi aprender a meditar.

O entendimento que eu tinha do que era meditar acho que é uma ideia comum a muitas pessoas: ficar sentado no chão com as pernas cruzadas, braços apoiados nos joelhos, o polegar e um outro dedo formando um círculo, e tentar esvaziar a mente enquanto cantarola ohmmm, por minutos sem fim. Tudo isso ligado a alguma forma de prática religiosa oriental ou cultura esotérica. Uma visão, claro, distante da realidade.

Com a ajuda deste vídeo e deste outro aqui, que assisti no início das minhas férias logo em janeiro, pude iniciar essa prática que está mudando aos poucos muitos aspectos da minha vida.

O principal erro dessa visão que descrevi aí em cima é o lance de querer esvaziar a mente, porque simplesmente não dá. Nossa mente é arteira e traiçoeira, e sempre dá um jeito de divagar enquanto estamos concentrados. Pode reparar: você está lendo este texto aqui mas ao mesmo tempo deve estar pensando no que vai fazer no próximo sábado à tarde. A intenção não é esvaziar a mente, mas tentar relaxá-la e focá-la em si próprio.

Outra coisa é que a prática da meditação não é, necessariamente, uma prática religiosa para entrar em transe ou se conectar com alguma divindade. Alguns até usam pra isso, mas uma coisa não tem nada a ver com a outra. A meditação é uma forma de exercitar a mente, assim como nós exercitamos o corpo, com o objetivo de aprender a pensar com consciência do que se está pensando.

A posição de lótus parece desconfortável mas não é. O único macete é achar a posição certa para que os ossos do pé não sejam pressionados contra o chão, o que dói pra burro, mas de resto não há problemas. Normalmente eu medito de cara pruma parede bem larga, para não ter nada no campo de visão. É um sentido a menos no caminho para a tranquilidade de pensamento. O primeiro objetivo é regularizar a respiração, percebendo como seu corpo reage a uma inspiração mais lenta, profunda e regular. Depois passar a reparar em pontos do corpo com tensão (crispados, como diz o monge do primeiro vídeo).

Sabe quando você deita pra dormir e percebe que em um momento os músculos do seu rosto parecem desligar e você sente um relaxamento? É isso que se consegue com a meditação, só que sem cair no sono depois. E depois desse ponto você começa a perceber outros músculos na mesma situação e consegue direcionar sua atenção diretamente para eles, até o momento em que eles também passam por esse desligamento súbito, com a sensação de relaxamento.

E assim, aos poucos, seu corpo e sua mente vão entrando em um estado cada vez mais tranquilo e sereno. Concentrado em relaxar o corpo, você relaxa também a mente. Se a mente vagar, não veja como uma falha, porque é natural e não há nada de errado com isso. Apenas repare que, "puxa, a mente voou pra longe, mas agora está de volta" e volte a se concentrar em seu próprio corpo.

Um dos principais benefícios da meditação pra mim foi aprender a usar esse relaxamento durante o dia, principalmente em momentos normalmente tensos, como na fila das Barcas ou em pé em um ônibus lotado. É muito útil ser capaz de perceber o estado do seu corpo e relaxar no meio de toda aquela tensão, apenas com um pouco de atenção à respiração. E quanto mais eu medito, mais rápido começo a perceber quando estou começando a tensionar os músculos, cortando o mal pela raiz antes mesmo da raiz começar a ficar muito funda, porque o nosso corpo começa a aprender a associar a respiração com o movimento de relaxamento.

Isso faz muita diferença também quando estou no piano, tentando aprender um trecho mais complicado. Quando reparo que estou começando a ficar com os braços tensionados e as costas curvadas, volto a respirar de forma controlada e o corpo reage em seguida, relaxando e permitindo que eu estude com mais tranquilidade.

Ainda não consigo meditar com a frequência que desejo, mas devagar estou chegando lá. Meu objetivo de longo prazo é tornar a meditação uma prática diária tão necessária e indispensável quanto escovar os dentes e tomar banho, e cada vez por períodos mais longos. Hoje medito por cerca de dez minutos, mas quero fazer mais.

Pra quem tem vontade de aprender mais sobre a meditação, recomendo assistir os dois vídeos acima e também ler a seção sobre meditação no site do templo budista Zu Lai.

Vale a pena tentar.

Um discurso de Elton John

Nesta sexta, 06/12, Elton John se apresentou em Moscou, na Rússia. Era uma visita que estava correndo risco de não acontecer por conta da legislação homofóbica que há por lá. Ao contrário de vários outros artistas que têm boicotado o país, ele afirmou há uns meses que não deixaria de ir, em atenção ao público russo que pedia por sua presença. Num intervalo entre as músicas, ele falou sobre o assunto. Por coisas assim que admiro não só o músico, mas também o grande ser humano que ele é. Traduzo aqui seu breve discurso.

Tenho algo a dizer.

Sempre gostei muito de vir aqui, a este país, desde a primeira vez em que toquei aqui, em 1979. Amo a Rússia, amo sua arte e sua cultura. Mas mais que tudo, amo vocês, as pessoas. Vocês me acolheram há muitos anos, e sempre me receberam com carinho e de braços abertos todas as vezes em que vim aqui. Sempre me acolheram e nunca me julgaram.

Me entristece e me choca a legislação atual que há aqui na Rússia contra a comunidade LGBT. Na minha opinião, ela é desumana e separatista. Por conta desta legislação, algumas pessoas exigiram que eu não viesse à Rússia.

Mas muitos outros pediram para que eu viesse. E foi a eles que dei ouvidos. Eu amo este país. Quero mostrar para estas pessoas e para o mundo que eu me importo, e que não acredito em separar as pessoas.

A música é uma coisa poderosa. Ela une as pessoas, independente de sua idade, sua raça, sua sexualidade ou sua religião. Ela não discrimina. Olhem em volta. Vocês veem homens e mulheres, jovens e velhos, homos e heteros. Milhares de russos felizes, curtindo a música. Estamos todos juntos aqui em harmonia.

E harmonia é a base de uma família feliz e de uma sociedade forte. O espírito que compartilhamos hoje é o que constrói um futuro de igualdade, de amor e de compaixão, para meus filhos e para os seus filhos. Por favor, não deixem isso para trás ao saírem daqui. Cada um de vocês, por favor, mantenham este espírito vivo em suas vidas e em seus corações.

Desejo a vocês muito amor, paz, saúde e felicidade.

E dedico este show à memória de Vladislav Tornovoi*.

*Vladislav Tornovoi é um jovem russo que, em maio deste ano, foi morto brutalmente por dois amigos depois de admitir para eles que era gay.

Sobre Ouvir Mais

Na minha caminhada para me tornar uma pessoa melhor, estou ouvindo mais. Percebi o quanto eu interrompo as pessoas tentando adivinhar o que elas estavam prestes a dizer.

- E aí, na hora em que ela fechou a porta...
- Você gritou para ela voltar!
- Não, eu...
- Você correu atrás dela!
- Não...
- Então fala!

Claro que não consigo deixar de fazer isso o tempo todo, mas já está fazendo uma diferença danada. O tempo que antes eu perdia pensando no que eu devia falar, no que eu devia acrescentar, em como eu poderia melhorar a conversa, em como eu poderia apontar o erro do outro, esse tempo eu gasto agora dando atenção verdadeira à outra pessoa. Falo cada vez menos e ouço cada vez mais.

O curioso agora é perceber o quanto as pessoas fazem isso, e o quanto isso às vezes pode ser irritante. E o bom de perceber isso é me dar conta de que, provavelmente, eu também deixava as pessoas irritadas, o que dá motivação para me policiar ainda mais.

Sabe aquela história de que não é à toa que nós temos dois ouvidos e uma boca? É por aí.

(Sobre Falar Menos)

Crônica: Da Evolução

O que mais me deixa bolado com o pessoal que diz que a evolução não existe e que é tudo mentira dos cientistas não é nem o fato deles dizerem que a evolução não existe e que é tudo mentira dos cientistas, mas sim o argumento-desafio então porque é que não tem macaco virando homem, hein, hein?.

Este argumento-desafio é tão, mas TÃO sem nexo, que só mostra que a pessoa está debatendo contra a evolução sem ter a mínima noção de como ela funciona.

É como querer provar que a gravidade não existe dizendo que se a gravidade existe, porque é que a bola de pingue pongue sobe quando bate no chão, hein, hein?.

Crônica: Das Férias

Tempos atrás, uma amiga estava ansiosa demais por suas férias. Era um frisson, dizia ela, e mal podia esperar.

Elas eram dali a quatro meses.

Ela me perguntou se acontecia a mesma coisa comigo e se surpreendeu quando eu disse que não. Veja bem, é claro que gosto de tirar férias. É um período bom pra fazer as coisas que não dá pra fazer durante o período de trabalho, seja viajar para algum lugar, seja para resolver problemas. Mas eu me recuso a viver minha vida precisando tirar férias. E é a mesma coisa com as sextas-feiras. Dá pena do pessoal que começa a semana rezando para que o próximo fim de semana fique mais perto.

Viver a vida no aguardo de momento futuro quando finalmente poderei ser feliz não é uma boa maneira de viver a vida. Primeiro por ser uma contradição muito grande, porque a gente passa os dias querendo ter mais tempo pra viver mas também fica torcendo para que o tempo passe rápido pra chegar logo a hora de ter tempo.

Depois, a necessidade de que um dia chegue para que eu seja feliz traz implicitamente a ideia de que eu levo uma vida miserável nos demais. É muito pessimismo pro meu gosto. Eu não preciso de férias ou de sextas-feiras para ser feliz, porque decidi que não quero ser o tipo de pessoa que tem hora marcada para estar satisfeito com a vida.

O que me ajudou a pensar assim foi uma epifania que tive tempos atrás. Conversando com outra amiga, ela veio com aquela história de que antigamente é que era bom, a gente era feliz e não sabia. Expliquei que eu não pensava assim. Acompanhem comigo o raciocínio.

A gente sempre acha que o que já passou é que era legal, o tempo de colégio é que era bom, o trabalho anterior é que tinha gente maneira, na faculdade é que a gente curtia mesmo a vida. Então repare que daqui a dez anos você vai olhar pros dias de hoje e pensar que, puxa, bom mesmo era nessa época. Isso vai acontecer, porque a gente é assim mesmo.

Logo, se daqui a 10 anos a gente vai achar que hoje é legal, é porque hoje já é legal, falta só você aprender a perceber isso. E aí, no instante em que você aprende a perceber o quanto o dia de hoje é foda, você deixa de se preocupar com a próxima sexta-feira ou com as férias.

Só que a coisa não acaba aí, e aqui vem a parte mais legal de tudo, porque é uma tremenda duma garantia de um futuro de lascar: se daqui a 10 anos você vai olhar pra hoje e achar o hoje legal, isso significa que daqui a 20 anos você vai olhar 10 anos pra trás (o que pra gente hoje também é um momento futuro, só que um futuro menos distante do que 20 anos) e vai pensar que puxa, bom mesmo era nessa época. Ou seja: o futuro também vai ser bom!

E se você já sabe que o futuro também vai ser bom, você pode se desprender das preocupações e viver ainda mais no presente. Efeito colateral: por saber que hoje é legal e que o amanhã também é, você para de se lamentar pelo ontem que já passou. Sobra tempo pra que? Aproveitar ainda mais o dia de hoje.

Sabe aquela coisa de carpe diem? É exatamente isso.

Conto: Trago a Pessoa Amada em 3 Dias

— Não, esse aí não dá.

— Como assim não dá? Você não garante o trabalho?

— Garanto, mas esse aí não dá.

— Claro que dá, até ele já conseguiu fazer coisa parecida antes.

— Mas ele tá...

— Eu quero ele do meu lado de novo!

— ...

— Então, vai fazer ou não?

— Faço, faço, mas vai sair caro!

— Não tem problema, consigo o dinheiro fácil.

— Tá bom. 500 pratas, mais o bode e a galinha preta. A farofa e a pipoca são por minha conta.


Três dias depois, Madalena viu rolar a pedra que fechava o sepulcro.

Sobre uma Presidência Evangélica

Não vejo problema em termos na presidência uma pessoa evangélica.

O que me mete medo é essa pessoa querer adotar regras bíblicas como leis para todo o povo, fazendo do Brasil um país teocrático, não democrático. A não-legalização do casamento homoafetivo e o ensino do criacionismo nas escolas seriam coisas certas. A perseguição de ateus e de seguidores de religiões afro correria o risco de ser institucionalizada. Ou partiríamos para a proibição do consumo de mariscos e de que as mulheres cartem o cabelo.

Dada a força e o fundamentalismo da bancada evangélica, fico com mais medo ainda.

O fato de a maioria da população brasileira ser cristã não serve de argumento a favor disso.

A maioria da população brasileira ser cristã significa apenas que a maioria da população brasileira é cristã.

Leis devem existir para garantir direitos e impedir excessos, não para impor crenças aos que não são da mesma religião.

Se você acha que estou errado, pense no seguinte: assume uma presidenta islâmica e ela quer sancionar uma lei que obriga os alunos a se ajoelharem em direção a meca e fazer orações antes do início das aulas.

Você vai gostar? Não? Pois é.

Crônica: Das Buzinas

Pra mim, as buzinas de carros e motos deveriam funcionar de um dos seguintes modos (quiçá dos dois aos mesmo tempo):

1. A buzina só teria um tempo de vida útil de, sei lá, 30 segundos. Parece pouco, mas prum bi-bi simples para chamar a atenção de um pedestre distraído, seria o suficiente pra muito tempo de uso. Acabando esse tempo, a buzina viraria peso para papel.

2. Após um uso, a buzina só poderia voltar a ser usada dali a um tempo, digamos, cinco minutos.

No momento em que os sinais de trânsito abrem, haveria mais paz.

Oferecimentos

Você já esteve em um dos lados de conversas semelhantes a esta:

Quer um? Não, obrigado. Pegaí! Não, tô sem fome. Pode pegar! Acabei de tomar café. Toma, toma! Não não não, valeu. Unzinho só!

Reconhece? E é chato, não é? Então vamos ver juntos a melhor maneira deste diálogo acontecer.

Se alguém está consumindo algo por perto, não cabe a você começar o diálogo e pedir. A não ser, é claro, que seja uma amiga íntima. Ou quando você está faminta, desesperada. Às vezes, nem isso. Mas se é você que está comendo quando alguém chega ou vai começar a comer na presença de outras pessoas, é questão de educação oferecer. A não ser que você queira ser chamada de egoísta.

Sabendo da regra acima, você pode assumir que quando alguém te oferecer algo, está fazendo por educação, e seu dever de cidadã educada é agradecer e recusar. A pessoa pode estar com fome, pode ser o último biscoito e, principalmente, você não sabe se ela realmente quer compartilhar ou se ela está sendo apenas educada.

Numa situação em que todas estão sendo apenas educadas, a conversa pode acabar por aqui, mas há mais etapas que podem surgir.

Se é você que está comendo, eis a sua chance de mostrar que realmente quer compartilhar. Um oferecimento duplo é uma outra forma de dizer olha, eu realmente não me importo de dividir minha garrafa contigo.

Logo, se é você que está recebendo a segunda oferta, eis o momento de poder provar daquele doce curioso e exótico que a Bruna comprou na confeitaria da esquina. Porque agora ficou claro que ela não está sendo apenas educada. E também, se você realmente não quer nada, uma segunda negativa é um sinal claro de que você, enfim, não quer nada mesmo.

Este é o segundo momento onde este tipo de conversa deveria terminar. Você que está curtindo sua bebida favorita já mostrou sua educação e boa vontade em dividir. E você que assiste também mostrou que é bem-educada e negou duas vezes ou então pôde saborear o novo quitute sem dor na consciência.

Se a conversa passa deste ponto, já descobrimos a mala da situação: a moça que não cansa de oferecer as balas. Caso ela conhecesse estas regras jamais faria isso. Mas não conhece. E insiste.

Pega, pode pegar, tem um monte, é bom, pega, experimenta, não fica com vergonha não, pega!

Não passa pela cabeça dela que a outra pessoa realmente não queria o que ela está oferecendo. Ela, em seu mundinho, só quer provar que é uma pessoa boa e desapegada.

Daí, ou você segue negando ou encara e pega um pouco só pra satisfazê-la. Nem precisa beber. Deixa ali num canto da mesa e finge que esqueceu.

Classificados (II)

Liberamos bebê de três meses para adoção. Saudável.
Casal divorciando.

Conto: Passageira Inconveniente

A cada dia me surpreendo mais e mais com as coisas que as pessoas aprontam por aí, sem a mínima preocupação com o incômodo que causam a quem está por perto. Dia desses, estava eu em um ônibus atravessando a Rio-Niterói quando a sujeita começou a aprontar a dela.

A moça atrás de mim logo comentou. Essa gente não tem noção mesmo, né?. A Advogada em pé do meu lado julgou rápido. Dava pra enquadrar no 183 fácil fácil. E aos poucos, todos foram ficando indignados com ela.

Por estar com fones de ouvido, não escutava o cochicho generalizado de recriminação à sua volta. E, sempre que podia, batia os dedos nos ferros como se tocasse um piano imaginário.

Tava difícil de aguentar, era abuso demais pra mim. Me espremi por entre os passageiros e fui até ela. Alguém tinha que acabar com aquilo.

Ela olhou pra mim meio assustada quando cutuquei seu braço com cara de poucas amigas. Reclamei e pedi que parasse, antes que fosse arremessada ao mar. Onde já se viu? Num ônibus lotado, em pé, e sorrindo! Feliz, com cara de boba, sorrindo como se estivesse deitada em uma rede, à beira de uma lagoa, num amanhecer ensolarado.

Abrindo um sorriso ainda mais largo, ela tirou um dos fones e me ofereceu. Desconfiada, peguei e pus no ouvido. Então entendi.

E sorri também.

Ocupando o Rio de Janeiro

Cresci em uma cidade do interior, e quase nunca ia ao Rio de Janeiro. Quando ia, estava trancafiado em um carro vendo pela janela olha, o Pão de Açúcar, olha o Cristo, olha, Copacabana. Quando criança ouvia falar de eventos, via o carnaval, ouvia falar de chacinas na Candelária, de festas na Lapa. Tudo distante, uma outra realidade.

Hoje vivo no Rio de Janeiro. Já não reparo mais no Cristo. Já fui à Apoteose três vezes. Passo na calçada da Candelária todos os dias. Quando vejo novelas, propagandas, jornais, reconheço as ruas sem que seja preciso que falem quais são. O Rio já está se tornando um pouco a minha cidade.

E começa essa revolta toda em todo o Brasil e uma gigantesca passeata é marcada para o centro do Rio. Da sala onde trabalho dava pra ouvir o barulho. Dava pra ver a movimentação. Estava claro pra todos: uma passagem importante da história seria escrita ali. Não seria suficiente ver pela TV. Era preciso sentir na pele. Bandeira brasileira em punho, fui-me. Não dava pra ficar de fora.

E foi lindo. Saindo da Candelária e indo até o início da Avenida do Samba, milhares de pessoas botando pra fora sua indignação com tudo. Muito cartazes com tudo o que se quer de melhor para o país. Pessoas passavam, liam os cartazes e cumprimentavam quem os estendia. É isso aí, falou bonito, diziam.

Uns 200 metros à frente, a polícia começava a tentar dispersar os manifestantes de frente da Prefeitura. Começamos a voltar. Gritos com palavras de ordem. Mas lá vêm os vândalos, quebrando placas, pontos de ônibus, marquises, a polícia chegando mais perto, alguns correm, vidros quebrando, falta muito?, incêndio perto do Terreirão do Samba, gritos de vandalismo não, e mais vandalismo, gritos de paz, pessoas tentando impedir o quebra-quebra, mas a violência falava mais alto, a polícia chegando mais perto.

Na esquina da Presidente Vargas com a Rio Branco, a polícia bem perto atrás de nós, os olhos e o nariz ardendo com o gás lacrimogêneo trazido pelo vento. Vem da Rio Branco o caveirão da tropa de choque, a toda, estamos no meio, corre!, bomba, tá ardendo!.

Vamos pela Marinha, pelo Mergulhão, lá a gente chega na Praça XV e tenta pegar uma barca. Chegamos na Praça XV, infestada de vândalos, cheia de manifestantes pacíficos assustados, bombas, corre!, tiros, corre!, gás, pra onde?, Barcas invadidas, ali!, abaixa!, fecharam os portões das Barcas, encurralados, senta, senta, senta!, os guardas estão cada vez mais perto, violência não! violência não!, uma lixeira que explode, uma bomba de gás corre na nossa frente, olhos ardem, lá vem a tropa de choque, vândalos fogem, somos da paz aqui!, estamos com medo, tropa vai atrás dos vândalos. Silêncio.

Alguns minutos de espera, uma equipe da tropa de choque entra nas Barcas, as Barcas reabrem e, ainda que sob gritos de Barcas, pode esperar, a sua hora vai chegar, temos segurança. Rumo de casa deixando o caos pra trás.

O que espero para os próximos dias é que as esferas governamentais se conscientizem de que algo está muito podre no Brasil e estejam dispostas a ouvir o povo e a mudar, a realmente mudar. Espero que dos manifestos descentralizados e puramente reativos à opressão acumulada surjam lideranças sensatas e lúcidas que exponham o que o povo quer.

Espero transporte de qualidade. Espero qualidade de vida. Espero saúde. Espero transparência dos governos. Espero menos burocracia. Espero reforma política e fiscal. Espero educação de qualidade. Espero que políticos ganhem menos. Espero que o dinheiro que pago de imposto de renda vá ajudar às famílias que precisam. Espero que filhos de políticos estudem em escolas públicas. Espero que as minorias tenham seus direitos garantidos. Espero o fim da influência do fundamentalismo religioso na política. Espero segurança e uma polícia preparada. Espero a Copa e as Olimpíadas, mas espero também um país melhor, não pra gringo ver, mas pra brasileiro ver.

Uma das noites mais importantes da minha vida. Nada como ver a história sendo escrita ali na minha frente.

Não, não dava pra ficar fora disso.

Classificados (I)

Vendo piano Yamaha. Preto. Bom estado. Perdi as mãos em acidente.

Conto: Ana e as Palavras

A pequena Aninha sempre gostou das palavras, desde que começou a falar. Aprendia uma palavra nova e, se gostasse dela, repetia sem parar.

A primeira delas foi samba, que meu marido adora e sempre botava para ela ouvir. Ela aprendeu e, pro orgulho do pai, repetia samba a todo momento. Depois cismou com fogão, e depois com camisola.

Quando entendeu o que eram as profissões é que veio o problema. Matava a gente de vergonha quando falava que quando crescesse queria ser vagabunda.

- Ela é bem redondinha, dá a volta no mundo - defendia a palavra da vez - Quero ser vagabunda.

Tentamos outras. Arquiteta não servia porque estava quase partindo ao meio. Cozinheira não porque embolava e dava nó. Estilista não porque dançava muito na boca.

Apelamos para profissões menos comuns, como artesã (rápida demais, não dá tempo pra parar e cai), enxadrista (feia que nem um camundongo velho), presbítera (sobe muito e Ana tem medo de altura) e vereadora (sem graça que nem o bolo de domingo da vovó).

Só deu descanso quando descobriu uma palavra "do tamanho do céu, com um monte de desafios e escorregadia que nem sabão".

Queria ser otorrinolaringologista.

Elton John em Recife, por Chico Carlos

No final de fevereiro e início de março deste ano, Elton John fez uma turnê na América do Sul, incluindo cinco shows no Brasil. Infelizmente, ele não veio ao Rio de Janeiro e não pude vê-lo. Esta semana publico aqui no blog resenhas dos shows, escritas por pessoas que puderam comparecer.

A quarta delas foi escrita por Chico Carlos. Parceiro de longa data, Chico é jornalista, recifense e da turma que se encontra há anos nas comunidades online para falar da música de Elton John, e conta como foi o show de Recife, em 10 de março.

Elton John: Monstro Sagrado da Música Pop

Os fãs de Elton John ainda não esqueceram o show do cantor realizado em 10 de março no Chevrolet Hall. O que mais despertou curiosidade foi o fato do artista voltar ao Brasil em 2013, para fazer cinco apresentações da turnê “quadragésimo aniversário da música Rocket Man” (São Paulo, Porto Alegre, Brasília, Belo Horizonte e Recife) e encerrar com show solo na capital pernambucana. Quem esteve lá viu um espetáculo inesquecível, inigualável e histórico.

O formato acústico possibilitou que o público apreciasse melhor seu estilo musical e artístico do cantor londrino. O melhor de tudo: Elton John encerrou em Pernambuco sua turnê brasileira, desfilando hits que consagraram sua carreira ao longos dos anos. Em verdade, ele arrasou com seu piano vermelho, comprovando todo seu talento de “monstro sagrado da música pop”.

Em 25 de março, ao completar 66 anos, Elton John continua emocionando plateias, superando preconceitos e limites, vencendo seus próprios desafios. Quem foi que nunca assobiou uma música de Reginald Kenneth Dwight, digo melhor, de Elton John? Nos anos 70, esse palhaço pop do rock n’ roll encantou o mundo com sua maneira irreverente de ser. Passava como um foguete por cima de tudo alimentava o motor de sua criatividade musical. Transbordou suas loucuras juvenis, extravagâncias, luxos e excentricidade que venderam milhões de discos. Nos Estados Unidos, para um espetáculo no Troubador Club, de Los Angeles, para lançamento de sua carreira, o artista surpreendeu. Cantou, pulou sobre o piano e dançou como nunca. Conquistou a admiração do público. O vento soprou sobre a América, o sucesso de Elton John começou a decolar. Quanto mais nos enfiamos pelos anos 70, mais a sua música é um universo. Mundo de pisca-piscas, luminosos, estrelas de Hollywood, mansões, gosto pelo luxo, excentricidades, carrões correndo por estradas de tijolos amarelos.

Ainda nos anos 70, ninguém vendeu tantos discos como o “baixinho”, com suas manias e histórias estranhas. No palco, conquistou milhões de fãs e enfrentou crises inevitáveis que a fama oferece: tentativa de suicídio, separações, mergulho nos excessos - álcool, drogas e alimentação descontrolada. Ele experimentou do céu ao inferno. Foi preciso mudar radicalmente. Livrou-se das drogas e dos excessos. Abriu-se como poucas estrelas pop já o fizeram antes. Além de assumir de público sua homossexualidade, o que, aliás, não era segredo para seu público cativo e fiel. Convencido de sua “sorte” por não ter contraído o vírus da AIDS, criou, em 1992, duas fundações contra a AIDS, na Grã-Bretanha e nos Estados Unidos, nas quais investe grande parte dos shows e direitos autorais, além de financiamento de pesquisas contra a AIDS, após a morte do adolescente Ryan White. “Sinto que tenho certa responsabilidade de usar o meu lado artístico para ajudar os gays ao redor do mundo a encontrar essa aceitação”, disse recentemente.

É o único artista que até hoje conseguiu obter seis lançamentos consecutivos no primeiro lugar da Billboard, sendo detentor, do recorde de single de maior vendagem da história, com a adaptação feita em 1997 da canção “Candle in the Wind” em homenagem à amiga pessoal, Princesa Diana, totalizando um total de 40 milhões de cópias vendidas. Pode-se falar tudo dele. Mas negar seu talento é imperdoável. Viva longa ao Sir Elton John, um artista de nosso tempo!

Elton John em Belo Horizonte, por Elton John

No final de fevereiro e início de março deste ano, Elton John fez uma turnê na América do Sul, incluindo cinco shows no Brasil. Infelizmente, ele não veio ao Rio de Janeiro e não pude vê-lo. Esta semana publico aqui no blog resenhas dos shows, escritas por pessoas que puderam comparecer.

A terceira delas foi escrita por... Elton John. Mas não o próprio, claro. O xará do astro é Paraibano e conta como foi o show de Belo Horizonte, em 09 de março.

O Show? Fantástico! Emocionante! Mágico! Surreal! Indescritível!

O tracklist? Basicamente, o mesmo de São Paulo, Porto Alegre e Brasília. A diferença? Em Porto Alegre e Brasília teve The One em versão solo e em Belo Horizonte também. Então, qual o diferencial em BH? A introdução do show foi feita meio que no improviso com parte do instrumental Sixty do álbum Good Morning To The Night, de 2012 (o mais recente do cantor e em parceria com a dupla australiana Pnau), até que a banda entrasse em cena tocando The Bitch is Back.

Elton John estava simplesmente espetacular! Era clara a felicidade dele e o sorriso estampado em seu rosto! Ele sentou no piano em The Bitch is Back; levantou, pediu para as pessoas se animarem, fez careta enquanto solava ao piano e tudo isso com as imagens múltiplas de Pamela Anderson do filme do show The Red Piano. E aí veio o “thunk”! Bennie and the Jets sendo reconhecida por boa parte do público e no telão aparecia ELTON do mesmo modo que no antigo formato do Caesar’s Pallace de Los Angeles.

Grey Seal manteve os ares lá no alto e eu vi um monte de gente se olhando como se se perguntasse: “onde estão as baladas?”. Estavam ainda por vir, mas antes um prato cheio com o rock da canção. Levon deu um ar de calmaria passageira até que o verso repetidas vezes cantado “He shall be, He shall be...” levantasse os mais afoitos (como eu) até o ponto mais alto das agitações: boa parte da plateia surpreendia-se com a capacidade de mudança de ritmo dentro de uma mesma canção nas performances de Elton John e de sua banda. Nota: muitas das pessoas que estavam no Mineirão estavam ali não necessariamente por serem fãs do pianista, mas apenas por terem uma noção de que Elton é uma grande artista. A partir de então passaram a conhecer um pouco do nível de musicalidade ao qual estavam deparados.

Depois da agitação de Levon, Elton, extremamente simpático, dedicou Tiny Dancer a todas as mulheres presentes e ofereceu a canção também a “uma bela dama que está fazendo aniversário hoje” e apontou para alguém lá na frente.

Em Believe mais emoção se fazia sentir e Elton afirmou que estava tocando-a justamente por “amar a palavra amor” e por “acreditar no amor” como caminho para a vida! Destaque para a excelente participação do percussionista John Mahon. Delírio e certa surpresa por parte de muitos ao verem uma música tão bela e tão profunda. Aí veio Mona Lisas and Mad Hatters como dedicatória à cidade de Nova York. A participação de Davey Johnstone (no banjo) e das quatro backing vocals é de arrepiar qualquer um.

O bom veio depois: Elton terminou Mona Lisas e disse “here we go”, emendando Philadelphia Freedom que, por sua vez, conseguiu mexer muitos esqueletos ali presentes. Quando Philadelphia foi encerrada, Elton iniciou o dedilhado de Candle in the Wind e milhares começaram a "reconhecer" mais o repertório. Muita gente arriscou cantar junto e acender celulares para acompanhar.

Até que Elton começou a intro de Goodbye Yellow Brick Road! Em uníssono, todos no Mineirão cantaram junto, até um bombeiro que estava próximo a mim. Foi a canção mais aplaudida até então e a mais ovacionada.

Após Goodbye Yellow Brick Road, Elton começa a brincar com o piano e a fazer a pequena jam que dá início a Rocket Man. Todos foram ao delírio quando ele começou a cantar "She packed my bag last night...". A multidão acompanhou e ainda o ajudou no refrão.

Elton anunciou em seguida que iria tocar uma música de seu último álbum, The Union. A plateia, no geral, meio que esfriou. Só os fãs mais ávidos acompanharam a canção. Consegui ver algumas cabeças sendo agitadas, algumas pessoas tentando acompanhar o compasso da melodia. Na sequência, I Guess That's Why They Call It The Blues foi tocada com um ritmo mais acelerado em relação à versão original.

Aí tudo ficou escuro e o tecladista Kim Bullard apareceu: a introdução de Funeral For a Friend (Love Lies Bleeding) foi divina. Muitos não sabiam do que se tratava até Elton começar a tocar a intro do piano. E o rock progressivo mais belo que já ouvi foi sendo executado com maestria para a surpresa de alguns e para certo estranhamento de outros. Para os fãs mais ávidos, delírio total.

Honky Cat veio em seguida e um balanço bem honky-tonk do piano do cantor. Muito bom e, para a minha surpresa, esta foi uma das canções mais acompanhadas da noite. Elton emendou de cara Sad Songs (Say So Much) e ficou pedindo para as pessoas se agitarem, para se levantarem e para irem para cima! Energia, vigor e muita vontade de agradar: esta foi a grande marca de Elton John na noite.

Daniel foi anunciada pelo dedilhar de piano e animou muito os ávidos por canções mais lentas. Muita vibração e muitos aplausos, as pessoas queriam mesmo era curtir a bela canção e se lembrar de que ela foi uma daquelas que marcou parte de suas vidas. Sorry Seems To Be The Hardest Word veio em seguida e também foi extremamente aplaudida.

Mas nenhuma canção da noite foi tão aplaudida ou tão bem recebida quanto Skyline Pigeon. Uma entrega absoluta e total, sem exceções. Todo mundo cantou, todo mundo vibrou e todo mundo se deixou levar pela melodia agradável e pela simpatia da canção.

Elton John mostrou porque é o grande pianista da história da música ao cantar The One solo. Extremamente feliz, extremamente entregue, ele fez a versão solo se tornar sublime ao ponto de sequer sentirmos falta dos demais instrumentos. Um espetáculo à parte este momento do show!

Após as apresentações dos músicos, Don't Let the Sun Go Down On Me fez mais lágrimas caírem! Numa versão destroçante e comovente, com destaque para a atuação do baixista Matt Bissonette, o belo soft rock sinfônico provou porque Elton John é um artista completo e porque mereceu cada aplauso da noite.

I'm Still Standing deu início à trinca de rocks da parte final do show com grande acompanhamento do público, especialmente nos “yeah, yeah, yeahs”. Muito agitada, a canção reanimou os que estavam meio parados e até o bombeiro não se conteve. O dedilhado de abertura para Crocodile Rock confundiu alguns, mas logo em seguida esses “perdidos” se deram conta de qual canção se tratava. Algumas pessoas do pelotão Premium levantavam os poucos "LA's" que foram levados ao estádio.

Saturday Night's Alright For Fighting foi iniciada antes mesmo de os aplausos de Crocodile Rock se encerrarem. Fazendo jus a uma das canções mais hard rock de seu repertório, Elton John mostrou a que veio e fez muitos ali perceberem que as baladas são parte importante de sua obra, mas não são a única faceta de seu trabalho.

As luzes se apagaram. Era hora do bis. Elton retorna rapidamente e começa a autografar muitos pertences do pessoal. A inscrição "Captain Fantastic" de seu fraque ficou bem visível momentos em que ele se virava para assinar os pertences em cima do piano. O cantor segurou até uma bandeira do Atlético Mineiro para a revolta dos muitos cruzeirenses ali presentes. O melhor, depois que esses cruzeirenses vaiaram, foi a cara de espanto de Elton! Muito bom!

E aí vieram os agradecimentos, Elton John dizendo o quanto adorou ter tocado no Brasil nesses últimos dias, afirmando "não ter palavras para descrever o que significa entreter pessoas" como ele faz. Muito lindo tudo e, claro, ele dedicando Your Song a cada um que se fazia presente no show. Tudo belo, mas tudo passageiro, e o show no Mineirão, para nossa tristeza, chegava ao fim!

Elton John em Brasília, por Vinícius Queiroz

No final de fevereiro e início de março deste ano, Elton John fez uma turnê na América do Sul, incluindo cinco shows no Brasil. Infelizmente, ele não veio ao Rio de Janeiro e não pude vê-lo. Esta semana publico aqui no blog resenhas dos shows, escritas por pessoas que puderam comparecer.

A segunda delas foi escrita por Vinícius Queiroz. Goianiense, Vinícius conta como foi o show de Brasília, em 08 de março.

Antes de falar sobre um momento de muita alegria e magia quero agradecer ao meu amigo Mário por disponibilizar o seu espaço a fim de deixar-me compartilhar com seu publico um pouco da maravilhosa experiência de assistir o show de Elton John em Brasília.

Nas cercanias do Centro Internacional de Convenções do Brasil em Brasília, horas antes do show, já era possível encontrar muitos fãs ansiosos à espera da abertura dos portões, o que me causou um pouco de espanto, pois mesmo onde a maioria supostamente estaria localizada em cadeiras numeradas, os fãs ainda assim se movimentaram na porta do local, para, assim como eu, alimentar toda a energia positiva que circulava sobre aquela região. Foi com todo entusiasmo que fiz amigos e conheci muita gente apaixonada por Elton, trocando ideias, histórias e muita ansiedade.


No momento da abertura dos portões, Eu, Ana, Francisco, Edgar e Nivaldo fomos uns dos primeiros fãs a entrarem de fato no Centro Internacional. Apesar de todas as especulações sobre o local não ter estruturas adequadas para suportar o show, foi notável que a organização se esforçou para trazer a todos o que havia prometido, local bonito, não à altura do astro que iria inaugurá-lo. Foi aí que começou a busca das ditas cadeiras, até que me deparei com uma bem de frente para o banco do Grand Piano Yamaha de Sir Elton John. Era a tão sonhada cadeira, fiquei maravilhado por poder prestigiar o show a menos de 10m de Elton John. Ainda um pouco cedo, mas com tempo suficiente, fui junto com meus amigos distribuirmos todas as homenagens ao público geral. Entre essas pessoas, estavam os amigos do Elton John Forever e uma mãe e filha bastante jovens e muito simpáticas e apaixonadas por Elton que encontramos na fila do lado de fora do evento.

Com o trabalho feito, era hora de ir para meu lugar e aguardar o show que não demorou muito para começar, com uma pontualidade dificilmente vista em eventos semelhantes. Elton John mostrou que não veio para brincadeira. Muito animado, pisou no palco sobre os riffs enérgicos de Davey na já esperada The Bitch is Back levantando o público e fazendo surgir a primeira de muitas demonstrações de carinho daqueles que estavam ali para vê-lo.



Iniciado o momento tão aguardado por milhares ali presentes, era visível que Elton trazia em seu espírito toda a animação, amor e carinho que o público demonstrou nos shows dos dias anteriores feitos no Brasil em São Paulo e Porto Alegre. Ele estava trajando um terno preto com brilhantes, bordado com o título Madman Across the Water, um de seus primeiros álbuns mais aclamados no mercado fonográfico mundial, além de seus óculos azuis para combinar com sua camisa.

Foi possível perceber a afinação perfeita de seu piano no primeiro solo virtuoso no grande hit The Bitch is Back, onde ele provou que não é só um belo cantor e compositor mas também um sensacional pianista e improvisador com toda agilidade e limpeza no som que fazia em seu instrumento. No total, foram cantadas 25 músicas, que compuseram o show da turnê "40th Anniversary of the Rocket Man", onde a maioria do público cantava e dançava junto aos embalos do astro e sua grande banda, que não diferente de John souberam o acompanhar com maestria.

Músicas como Bennie and the Jets, Grey Seal, Levon, Honky Cat, The One, Daniel, Candle in the Wind, Rocket Man, Saturday Night’s Alright for Fighting, Your Song e a melancólica Goodbye Yellow Brick Road, onde todos levantaram balões amarelos durante sua execução, deixando Elton e a banda estupecidos e maravilhados com o que acontecia, incorporaram a tempestade de sucesso musical, mas foi em Crocodile Rock que o bicho pegou.

De um lado a outro, sem exceções, a energia de todos cantando o refrão junto com o Elton e milhares de placas escritas a silaba "LA" deram a tônica mágica às duas musicas que viriam para finalizar o show. O Brasil estava percebendo quem realmente é o grande e famoso Elton John, muito além de Sacrifice e Nikita e outras baladinhas românticas de grande sucesso, ele foi um dos maiores artistas do show business de seu tempo. O que os Beatles representaram em termos de influência musical e comportamento nos anos 60, Reginald Dwight (Elton John) foi o equivalente uma década seguinte. Sim, porque nos anos 70 Elton John reinou soberanamente, a ponto de representar 2% de todas as vendagens de discos no mundo.

Com um show tão exuberante e não visto igual em nenhum lugar no planeta, essas músicas se fizeram desnecessárias para o publico brasileiro, que conheceu naquele instante a mágica em forma de notas e tons musicais em um show audacioso de Elton e sua banda. Com um bis recheado da famosa Your Song, Elton se despediu de Brasília e deixou saudades com a última tecla batida de seu piano.

Ao final do show todos que assistiram ficaram maravilhados com o que tinham acabado de presenciar, profissionalismo raramente visto na música, muita criatividade e vários sucessos em um único concerto, sempre superando expectativas. Era possível ver muitas pessoas chorando de emoção.

O Sir inglês se mostrou completamente ativo e presente em um mercado musical em completa decadência que se encontra hoje, com artistas irresponsáveis e muita falta de criatividade. É por essas e outras que suas turnês geralmente estão presentes entre as 10 mais rentáveis todos os anos.

Elton John em São Paulo, por Eliane de Carvalho

No final de fevereiro e início de março deste ano, Elton John fez uma turnê na América do Sul, incluindo cinco shows no Brasil. Infelizmente, ele não veio ao Rio de Janeiro e não pude vê-lo. Esta semana publico aqui no blog resenhas dos shows, escritas por pessoas que puderam comparecer.

A primeira delas foi escrita por Eliane de Carvalho, amiga de longa data, criadora do grupo Elton John Forever e responsável pelo blog de mesmo nome (cuidado aqui que faz barulho). Paulista, Eliane conta como foi o show de São Paulo, em 27 de fevereiro.

Um vulcão chamado Elton John

Dezembro de 2012, de repente um anúncio na internet e começam a vender ingressos para uma super turnê intitulada 40th Anniversary of the Rocket Man de Elton John. Desde o começo descrevi essa passagem como uma pequena Turnê aqui no Brasil porque foram 5 shows! E isso jamais aconteceu aqui no Brasil, jamais sonhei na vinda de Elton com 5 shows! Tudo muito inacreditável, surreal.

A exemplo de 2009 que fiz uma pequena contagem regressiva para o show de Elton aqui em São Paulo no meu blog Elton John Forever, resolvi entrar nessa vibe novamente, pois já estava com ingresso comprado, afinal sou fã de Elton John desde 1976 e isso não é pouco tempo: é uma vida!

E passaram tão rápidos esses dias todos! Enfim chegou dia 27 de fevereiro de 2013, o show aqui em São Paulo. O show foi numa quarta-feira e no domingo anterior eu e fãs amigos fomos até o Jockey Club para saber como eram as instalações e o trajeto e isso já estava sendo emocionante, foi uma forma de começar a entrar no clima Elton John no Brasil. Vimos o palco de longe em montagem, algumas homenagens foram combinadas e assim a ansiedade para o dia 27 foi intensificada mais ainda.

Fazer parte da história de Elton John é emoção, felicidade, amor em todas as suas formas, sim, porque a energia que vibra num show de Elton John nos remete a nostalgia de nossas vidas, confraternização entre amigos e quando isso tudo se mistura eu não consigo reter minhas lágrimas.

O show de Elton John aqui em São Paulo foi incrível, inesquecível, absolutamente perfeito! Desde a organização, tudo extremamente bonito, limpo, correto, mas como assistir a um show de Elton John sentado? Impossível! Afirmo que agora sim os brasileiros conheceram realmente quem é Elton John! Ele não é apenas um cantor romântico, de baladas: ele tem a essência do rock em suas veias!

Essa noite foi o melhor show que já assisti em minha vida, foi fascinante. Elton foi pontual, entrou animado, sorrindo, de braços abertos e ai começamos a dançar e curtir ao som de Elton tocando e cantando The Bitch is Back. Uma mistura de loucura, com felicidade plena e absoluta. Elton é encantador, energia fascinante, que hipnotiza por seu jeito de ser, extravagante, apimentado, mas sutilmente doce e engraçado também! Com suas caras e caretas, bocas e tal... é demais! Foi difícil ficar sentada? Foi quase impossível, mas até que nos comportamos porque éramos obrigadas a sentar, mas o show foi seguindo com Bennie and the Jets, Believe, Rocket Man e tantas outras, as músicas de minha vida, que sempre me fizeram sonhar e me sentir viva.

Melhor que 2009 para mim? Sim, sem dúvida... Um Elton John melhor, mais disposto, mais magro, feliz, sorrindo, ele brilha!

Em Tiny Dancer, me rendi as lágrimas, não consegui controlar a emoção que estava brotando em mim cada vez que a música crescia. E eu estava lá na segunda fileira em frente ao piano, acenando, chamando por Elton e dizendo o quanto o amo! Tudo especial, tudo muito perfeito, tudo surreal. Era o meu ídolo ali na minha frente!

E durante toda essa noite fantástica, teve momentos emocionantes, em que foram feitas homenagens a ele: na música Goodbye Yellow Brick Road, onde os fãs acenavam com balões amarelos, embalados ao som nostálgico e melodioso da música de Elton e seu piano mágico. Outro momento intenso, lindo, que deixou Elton perplexo, foram as placas dos “LA's” na música Crocodile Rock. Ficou muito legal, muito divertido, inesperado e ele realmente curtiu.



Dia 27 de fevereiro, mais uma data memorável e inesquecível em minha vida e sei que de muitos fãs de Elton John! A visão dos shows para cada um é uma particularidade, para mim foi momento de intensa alegria, como já disse. Ver um show de Elton é um montanha russa de emoções! Algumas músicas ficam marcadas, inesquecíveis. Um dos momentos que eu adorei, por tudo, o som, visual, diversão, foi Philadelphia Freedom! Poxa foi DEMAIS! Believe é uma das canções mais lindas que Elton tem e ao vivo é isso tudo e muito mais. Que lindo tudo, intenso, profundo mesmo, sua batida estava no meu coração!

E nós em nossas cadeiras, levantando sempre, porque cada vez que Elton levanta do seu piano, que se aproxima, como ficar sentada? Eu pulo, grito, chamo por ele. Era um momento único para mim. Não fui vê-lo em outros Estados, então cada segundo foi sagrado, foi amado e significativo! Em Sad Songs foi comoção geral, ninguém mais sentou, todos ficaram em pé dançando! Que noite linda, incrível! Até a lua veio nos visitar, linda.

Como se fosse uma coincidência divina, em Don't Let the Sun Go Down on Me, começou a chover um pouco, e antes de terminar não existia mais chuva! E mesmo se chovesse, a felicidade era tão intensa que não faria diferença para ninguém!

E lá estava Elton, cantando as canções da minha vida, da nossa vida, olhando para cada rosto que estava lá na frente, como se quisesse dizer "eu sei que você me ama, eu sei que você existe e eu te amo também!" Se isso é delírio, loucura, então sou louca, mas de amor por Elton John! Elton John interage com todos, ele é simplesmente fantástico! E ele chama a todos para ir a sua frente e nós vamos ao delírio!

Quando ele estava tocando Saturday Night's Alright (For Fighting) todo mundo já estava em delírio total, absorvidos pela simpatia de Elton, pelo seu profissionalismo impecável, pelo seu carisma. Eu fui para frente do palco em Saturday Night's e Your Song, e foi absolutamente inesquecível, mágico de uma tal forma que a minha proximidade de Elton John foi tudo que já quis, estava realizando meu sonho de vida! E não estou exagerando... e tenho consciência que a maioria dos fãs que estavam por lá, próximos ou não ficaram extasiados com o show de Elton aqui em São Paulo, foi realmente arrebatador, Elton é um vulcão! Ele sabe como fazer e dominar a todos!

A emoção tomou conta de mim, chamando por Elton e vendo ele tão presente ali, comecei a ficar sem forças para chamá-lo e assim Elton foi encerrando o espetáculo e eu estava totalmente rendida a ele, que me fez chorar como se fosse aquela menina adolescente de tantos anos atrás, que sonhava com seu ídolo, que tinha seu quarto repleto de fotos, que ouvia suas canções todos os dias, e foi essa criança que desabrochou em mim, emocionada, encantada pelo seu ídolo, pelas músicas que fizeram parte da trilha sonora de sua vida, e assim foi e é Elton John! Um vulcão, que invade nossos corações sem pedir licença!

Eu como fã de Elton John, afirmo que tenho orgulho de ter um ídolo como ele, nada se compara a sua vivacidade, a sua força, a sua energia, a sua experiência, ao seu talento!

EU AMO ELTON JOHN FOREVER!!!

Falando Difícil

Qual seria a motivação de um indivíduo que apetece discorrer de maneira cerimoniosa para tratar de trivialidades no decorrer de uma conjuntura que realiza-se inopinadamente no meio da rua? Profiro este questionamento devido a um fato que se passou com minha pessoa na última quinta-feira: deparei-me casualmente com um de meus clientes e este, ansiando participar-me do remate de sua cobiça por obter uma vaga de emprego, enunciou o seguinte: "houve uma desistência da minha parte". Tive que me encerrar em mim mesmo para não dizê-lo que "houve um saco-enchimento de minha parte".

Não julgo válido que fazer-se valer de tais meios engrandeça a aptidão raciocinativa ou torne mais sabedor um indivíduo qualquer. Tenho ciência de que em determinadas ocasiões lanço mão de estilo que não é informal, porém o faço com o intento de ministrar às minhas composições um tom pândego (pelo menos, este é meu alvo). Entretanto, creio ser uma truanice exacerbada expressar-se enredadamente em um colóquio trivial. Tal prática leva-me à conclusão de que esta é piegas.

Tradução:

O que leva as pessoas a querer falar de maneira mais formal para conversar banalidades num encontro no meio da rua? Pergunto isso porque quinta-feira passada eu encontrei um cliente na rua e ele, querendo dizer que não estava mais a fim de um emprego, disse o seguinte: "ah, houve uma desistência da minha parte". Quase que eu falo que "houve um saco-enchimento da minha parte".

Não acho que falar assim torne a pessoa mais inteligente ou mais culta. Sei que de vez em quando eu escrevo de um jeito que não é tão informal assim, mas é até para dar um tom divertido à coisa (bom, pelo menos é isso que tento fazer). Mas acho uma tremenda bobagem falar "difícil" numa conversa banal. Pra mim isso soa muito ridículo.

Este texto foi publicado há mais de 10 anos, em fevereiro de 2003, no antigo endereço do blog. Republico hoje porque reli e permanece extremamente atual.

O Melhor de 2012 no Sarcófago

Estes aqui são os que considero os melhores textos que publiquei em 2012.

Em 23/05, publiquei O que é MPB?, onde falei sobre este gênero musical genuinamente brasileiro.

Em 16/06, publiquei Das Coisas que Não Preciso, um pequeno texto sobre a luta contra preconceitos.

Em 20/06, foi a vez de Sobre Ser Fã de Elton John, onde falo sobre as coisas que ouço por ser fã do músico inglês.

Em 07/07 falei sobre Coisas que as pessoas confundem: diferente e errado.

Em 28/07 publiquei um artigo em que conto como foi minha Cirurgia de Miopia.

Em 12/08 publiquei Ensaio Sobre as Cotas, artigo onde explico os motivos de eu achar que as cotas raciais nas faculdades são necessárias.

Em 06/11 publiquei um novo conto, O Ruim de Ficar Velha.

Em 10/11 publiquei Da Obrigação de Saber, uma ode à paciência e à tolerância.

Em 26/11 republiquei Os Dois Filhos de Deus, um antigo conto que tinha sido publicado no antigo endereço do blog.

Em 10/12, um outro conto, Pedalando.

Por fim, em 13/12, foi ao ar Quatro Erros Ao Estudar Música, um comentário sobre minhas pesquisas sobre os melhores métodos para o estudo do piano.

E para ver os melhores de 2011, clique aqui.

Minueto em Sol maior

Depois alguns meses de estudo, eis uma gravação do minueto em sol maior (BWV Anh. 114), do Pequeno Livro de Anna Magdalena Bach.

Erroneamente atribuído a J.S. Bach até um tempo atrás, hoje sabe-se que é de autoria do compositor alemão Christian Petzold.

Só não sei porque o vídeo ficou esticado na horizontal. O arquivo no PC está sem problemas.

Minimalismo

Recentemente redescobri uma filosofia de vida chamada minimalismo. A ideia central é a de que é melhor reduzir as coisas ao mínimo essencial do que ter uma infinidade de coisas que podem em algum momento vir talvez a ser úteis. O "movimento" minimalista se manifesta nas artes plásticas, na música, nas decorações, e, no ponto que interessa aqui, no dia a dia das pessoas.

Quem vive seguindo as ideias dessa filosofia acredita que menos é mais. Acredita que ter não é sinônimo de ser feliz. Acredita que é possível fazer e ser mais com menos. Acredita que é melhor ter experiências do que ter posses.

Uma ideia irmã do minimalismo na vida das pessoas é o desentulhamento, ou seja, a redução de posses. Não é uma questão de adotar uma vida monástica, dar tudo aos pobres e viver de esmola, mas sim de reduzir o fardo do excesso.

Tem gente que é mais radical e decide ter apenas 100 itens. Tem gente que só quer diminuir a bagunça e decide dar as coisas que praticamente não usa. E há um mundo entre estes dois extremos. O que não faltam por aí são blogs que falam do assunto, de gente contando de suas experiências sobre o assunto.

O primeiro alvo nas minhas experiências de minimalismo foi a minha mesa no trabalho. A caneca passou a ser guardada dentro da gaveta. O porta canetas foi para quem queria um, assim como as canetas, clips e toda a tranqueira que havia ali. A única caneta agora fica na gaveta. O calendário, que sobreviveu porque arranjei um bom onde dá pra escrever bastante e uso como agenda, fica escondido debaixo do teclado. Só sobrou a foto da esposa, mas que só está ali porque a empresa não permite mudar o papel de parede de computador.

Depois resolvi diminuir os livros e discos. Já vendi um monte de livros pelo Mercado Livre, alguns que comprei e nunca li e outros que já tinha lido e que estavam ali apenas por segurança. "Vai que precisa, né?" Já os discos vão ser eliminados aos poucos. Como não consigo ficar sem comprar um disco de vez em quando, decidi que vou descartar dois para cada um que comprar, seja vendendo para um sebo seja doando para quem curta. Não quero juntar poeira!

A última vítima foi o blog. Reduzi o número coisas visíveis, o número de posts na página inicial, deixei o visual mais limpo e leve. E ainda vou eliminar mais, se deixar.

Se quiser saber mais sobre o assunto, dê uma lida neste ótimo artigo e depois passeie pelos artigos dos seguintes sites: Vida Minimalista, Becoming Minimalist e The Minimalists.

Conto: Segredos

Ao chegar em casa naquele dia, eu devia pra ter desconfiado quando ela me avisou.

Olha, dois caras entraram pela janela dos fundos e ainda não saíram.

Mas, poxa, todo mundo sabe que tartarugas não falam. Como é que eu iria dar ouvidos pra Clarice? Muito menos acreditar nela. Entrei.

Mal tranquei a porta da sala ouvi os passos atrás de mim e, antes de poder me virar já estava recebendo ordens.

Nem pense em gritar e fala pra gente onde está.

Onde está o que?, eu pensei. Mas eu sabia o que eles queriam.

Com duas armas apontadas pro meu rosto, não havia como negar ou enrolar.

No quarto de empregada, dentro do guarda roupas, no fundo falso, dentro de um baú trancado. A chave ficava na cozinha, colada com durex na parte de fora da gaveta de talheres, por trás. Dentro do baú, tinha um fundo falso.

Iam publicar na internet e todo mundo iria conhecer.

O livro de receitas da minha avó, de onde eu tirava as receitas secretas do meu restaurante, que tanto faziam sucesso.

Não faziam mais tanto sucesso e a clientela caiu. Só não fechei o restaurante porque consegui inventar uma inédita e deliciosa sopa de tartaruga.