O Primeiro Dia-dos-Pais Sem Pai

Na minha família, do lado do meu pai, todos têm problemas de coração. Três tios meus operaram e quatro deles morreram de enfarto. Desde o início de 2002 sabíamos que meu pai já estava apresentando problemas com o seu, e ele já estava se tratando.

Em meados de 2004 as coisas começaram a piorar, a ponto de um dia de manhã eu ter que ligar para um colega de trabalho para que ele nos levasse às pressas para o hospital. Por sorte, foi apenas um susto.

Dias depois fui ao médico que tratava do meu pai para poder entender o que tinha acontecido. Dr. Raul me explicou que o caso dele era muito sério, e que ele precisava, urgentemente, operar. Com uma maquete de coração na mão, me mostrou que três das veias principais do meu pai estavam completamente entupidas. Para fechar o quadro crítico, encerrou dizendo que, das pessoas que estavam na mesma situação, 50% não duravam 6 meses.

Óbvio ululante, saí de lá tremendo e chorando. Conversei com a família, conversei com Sueli, e sentamos com seu Jorge para tentar convencê-lo a operar. Mas não adiantou. Ele bateu pé e disse que só operaria numa emergência, tal qual aquela de alguns dias antes. Ele tinha o medo, compreensível, de morrer na mesa de operação.

Restava-nos então escolher entre duas opções, ambas cruéis: convencê-lo a operar e correr o risco de perdê-lo na mesa, mas confiando no sucesso da operação; ou deixá-lo agir como queria e correr o risco de perdê-lo a qualquer momento, mas confiando no lado bom da porcentagem de chance de "sobrevida" dele.

E seguimos vivendo.

Numa quinta feira, 17 de março de 2005, cheguei em casa vindo da faculdade, jantei e fui para o computador navegar na internet. Era cerca de meia noite e meia quando nossa vizinha bateu na nossa porta dizendo que a polícia tinha passado em frente ao beco onde moramos para avisar que alguma coisa tinha acontecido com meu pai.

Sem saber ao certo o que estava acontecendo, ligamos para pessoas que tinham carro e iniciamos uma busca frenética em busca de notícias concretas, para dar fim às nossas dúvidas e receios. Só meia hora mais tarde, bem depois de uma da manhã, Nelcemir chegou com a notícia que não queríamos ouvir.

O início da madrugada foi feito então de avisar a família e começar desde logo os preparativos para o funeral. O dia seguinte foi, claro, o mais triste dos últimos tempos na minha vida. Foi uma tristeza que se arrastou pelos meses seguintes, me prejudicando em muitos pontos da minha já tão atribulada vida.

Na época, eu não quis que meus colegas da faculdade soubessem pois nem de longe eu queria passar por coitadinho. Me estrepei de verde e amarelo para estudar, inclusive para continuar a pôs as matérias no meu site, mas segui adiante mantendo o meu "segredo".

De início, apenas quatro colegas souberam, mas foi inevitável esconder a dor por muito tempo. Devo muito à Suelen e ao Douglas por terem me ouvido e oferecido o ombro para que eu pudesse chorar. Outro que soube e bateu um papo muito bom foi o Aprígio.

Nem mesmo no meu site eu mencionei o assunto. Apenas publiquei uma citação bíblica e escrevi um ou outro texto mais melancólico, mas não toquei diretamente no assunto.

Levei cerca de quatro meses para superar a dor. Não foram poucas as vezes em que ao chegar em casa eu me preocupava ao acender a luz para não acordá-lo. Tampouco foram poucas as vezes em que qualquer barulho na calçada me fazia pensar que era ele chegando. Ou então, ao ouvir uma música, não tivesse o impulso de chamá-lo para ouvir. E muito menos foi fácil deixar de sentir dor quando lembro daquele homem fechando o túmulo de meu pai e, ao terminar, dizer que "agora é só saudade".

Desse período, só tenho a agradecer aos amigos, à família e à Sueli pelo apoio. Como não agradecer a Cida pelo ombro na missa do dia das mães? Como não agradecer a minha tia Nice pelas gargalhadas em casa? Se não fossem eles, talvez eu não teria superado isso tão rápido.

Nesse tempo obscuro, a igreja foi outro bálsamo para acalmar minha alma abalada. Busquei muito e pedi muito para que Deus me desse a calma e a paz que eu sei que mereço. Mas também não foi fácil. No auge da dor, cheguei até mesmo a me afastar, negar o poder de Deus e perder a fé. Mas graças a Ele próprio minha fé se fortaleceu.

E por que escrever sobre isto agora? Por que pôr pra fora estes sentimentos e pensamentos só depois de tanto tempo? Pois só agora a dor passou. Só agora consigo escrever sobre meu pai sem chorar. Porque eu precisava botar tudo pra fora. Por que eu precisava. Por isso.

Ensino Religioso

Um assunto que dá muito o que falar na esfera da educação fundamental no Brasil é a questão do ensino religioso nas escolas: ele deve ou não ser confessional? Ou seja, uma aula de ensino religioso deve ter como foco uma única religião?

É uma questão delicada. Lembro que quando eu ainda estava no primeiro grau, por dois ou três anos eu tive aulas de religião. Não eram aulas obrigatórias, e por isso mesmo muito pouco freqüentadas. Éramos menos de dez alunos vindos de uma turma de mais de trinta.

Nossa turma era a católica, e havia a dos protestantes, com dois a cinco alunos. Óbvio, isso foi antes da explosão do neopentecostalismo evangélico dos últimos anos. Mas, enfim, haviam duas turmas, que somadas não contavam a metade da turma normal.

De lá pra cá, a religião se tornou muito mais presente na vida das pessoas, e vem à cena a discussão de como deve funcionar o ensino religioso em nossas escolas.

A primeira discussão possível - a de que as escolas deveriam ter ensino religioso ou não - é praticamente assunto resolvido: a presença desta cadeira nos currículos escolares é de suma importância, dado que o papel da escola é, também, de formadora de gente que pensa.

Daí, havendo acordo sobre isso, a dúvida que realmente carece de resposta é sobre seus métodos. No seu papel de formadora de cidadãos, a escola deveria ter aulas de religião não-confessionais. Sendo obrigatórias ou não, estas aulas deveriam ter como objetivo apresentar aos alunos o universo religioso em que eles vivem, mostrando como são as grandes religiões.

Ensinar tudo sobre todas seria um esforço inútil; o ideal seria dar aos pequenos o conhecimento sobre os credos mais difundidos, com ênfase - sempre - na tolerância e no respeito que deve haver entre eles, com o diálogo sendo incentivado a todo momento.

Budismo, umbandismo, espiritismo, judaísmo, islamismo, cristianismo, e até mesmo o ateísmo deveriam ser abordados com respeito, seriedade e igualdade, para ensinar que a fé (ou a falta dela) transcende os "ismos". Outros pontos interessantes a serem abordados poderiam ser as influências que as religiões tiveram e têm no nosso mundo.

Claro que para isso dar certo, os professores deveriam ter competência e ética suficientes para não direcionar suas aulas com a intenção de converter os alunos, evitando o que se chama de proselitismo. Um aluno deveria ter uma nota baixa por ser intolerante, e não por que deixou de aceitar Jesus como seu salvador. Não haveria problema se o professor fosse ateu, islâmico ou rastafari, o que importaria seria a sua seriedade.

As aulas confessionais poderiam ter espaço, talvez, em escolas particulares, mas estas deveriam ser um ponto a mais no currículo, e não uma alternativa às aulas não-confessionais. Ou seja, a escola deveria ter o ensino religioso não-confessional e poderia, se quisesse, possibilitar algo a mais para seus alunos, assim como já fazem com aulas de idiomas, informática, esportes e afins.

O maior perigo da aula confessional seria a falta de uma conscientização de que o diálogo é importante, levando à criação de radicais mirins. Na verdade, creio que o lugar certo do ensino religioso confessional deva ser na própria instituição religiosa. Não são poucas as igrejas que têm escola dominical, grupos de estudo, encontros de jovens, células, palestras e coisas afins para inserir os fiéis em seu próprio mundo.

O grande ponto contra este tipo de ensino nas escolas é a grande quantidade de credos. Poderíamos convencionar o cristianismo como a religião das aulas, por ser a religião com mais seguidores no país, mas como lidar com todas as vertentes deste? Não dá para botar no mesmo balaio evangélicos, católicos, testemunhas de Jeová e mórmons. E não é tudo! Como ficariam as crianças de outros credos? Uma criança budista poderia se sentir excluída ou desprezada por não ter uma aula específica para ela.

Portanto, o ensino religioso não pode ser confessional, senão estaremos criando nossas crianças para serem intolerantes.

Fortaleza Digital - Daniel Brown

Primeiro livro do autor, Fortaleza Digital já traz todos os ingredientes que fizeram de Dan Brown o escritor queridinho das livrarias, com três livros lançados, todos na lista dos dez mais vendidos atualmente.

Era uma vez a NSA - National Security Agency. Uma agência super-ultra-mega-secreta dos Estados Unidos que tem um super-computador (o Transltr) capaz de quebrar qualquer código em questão de minutos. Interceptava e-mails, ligações telefônicas, e tudo o mais que fosse considerado perigoso para a segurança nacional. Com o uso da máquina, já tinha impedido muitos ataques terroristas.

Ensei Tankado, então um de seus funcionários, discordava das práticas intrusivas da agência e foi demitido por isso. Buscando vingança, criou um código inquebrável, o tal Fortaleza Digital, que fez o computador da NSA trabalhar por horas sem resultado. Como se não bastasse, enviou um ultimato à sua antiga empregadora: ou eles revelavam a existência do Transltr para o mundo ou ele leiloaria o código pela internet.

Havendo um código inquebrável, o computador da NSA tornava-se incapaz de decifrar todas as mensagens criptografadas, já que algumas estariam sob o Fortaleza Digital. Para proteger a própria vida, Ensei avisa mais: se, por qualquer motivo ele morresse, um cúmplice iria disponibilizar para todo o mundo o Fortaleza Digital, de modo que todas as mensagens criptografadas circulando no mundo seriam incompreensíveis para o Transltr, o que o aposentaria.

O problema é que Ensei está morto deste o primeiro minuto.

O chefe da agência, Strathmore, chama então sua funcionária mais tarimbada, Susan Fletcher para ajudá-lo na empreitada de descobrir como quebrar o código. Além disso, ele manda para a Espanha, em busca dos pertences de Ensei Tankado, David Becker, o namorado de Susan, que é um civil que não tem nada a ver com a agência.

O livro passa então a se desenrolar em três cenários diferentes: Strathmore e Susan na agência, tentando decifrar o código e descobrir quem é o cúmplice de Ensei; David Becker na Espanha tentando encontrar as coisas do japa; e o tal cúmplice negociando com uma empresa japonesa a venda do Fortaleza Digital.

Daí em diante é só adrenalina. Strathmore e Susan, trabalhando ocultos e desesperadamente para desfazer o problema sem que ele se torne público, ao mesmo tempo em que funcionários da agência começam a desconfiar de que algo errado está acontecendo. David sendo perseguido na Espanha por um assassino desconhecido. A negociação da venda do código caminhando a passos rápidos. É emocionante, não dá pra largar.

Não é o tipo de livro que dê para viajar com ele, no sentido de se colocar na pele dos personagens e entender suas ações, por que já está tudo explicado e esquadrinhado; não é um livro que a gente tire uma lição de moral ou outra; basta apenas seguir as linhas da história, mas vale muito como diversão. É daqueles livros que fazem as horas passagem sem que a gente perceba, e quando se dá conta o sol já se pôs.

Assim como aconteceu com o Código da Vinci, já começaram a pipocar títulos para discutir a veracidade dos fatos tratados no livro. E é aí que entra a única coisa que nos faz pensar. Já imaginou se existe de verdade uma agência, com um super-computador realmente capaz de decifrar todo e qualquer código? Por um lado isso é bom porque impede que planos malignos sejam levados adiante, mas como fica a vida do cidadão comum? Não seria isso invasão de privacidade?

E o que dizer de um funcionário mau intencionado que, num dia qualquer, resolvesse acessar contas bancárias? Ou então acessasse bancos de dados de operadoras de cartão de crédito, roubasse uns números, e fizesse umas compras? Maligna a coisa! Sendo a tal agência tão secreta assim, será que o governo iria confessar que foi de dentro dela que saíram os ataques aos bancos de dados das empresas e bancos? É arriscado que arranjasse um bode expiatório, de fora do governo, ou então que desse um bom calaboca para o povo e nada se resolvesse.

Devaneios, paranóias, preocupações e elucubrações à parte, Fortaleza Digital é uma ótima aventura e diversão garantida, com surpresas nos esperando a cada virada de página.

Mulher de Um Homem Só - Alex Castro

Alex Castro é um escritor que nunca foi publicado, mas que gosto bastante. Ele tem um site que é atualizado, geralmente, várias vezes por dia. Nem sempre concordo com o que escreve, mas é sempre tudo muito bem escrito. E, enquanto não encontra uma editora para publicar seu livro, ele disponibiliza gratuitamente o dito cujo para download.

Curioso, baixei o arquivo, imprimi e devorei as vinte e seis páginas em pouco tempo. No livro, Carla conta seus dramas pessoais no casamento com Murilo e as mais que freqüentes intromissões de Júlia, a melhor amiga de seu marido.

Por várias vezes vi momentos da minha vida refletidos em parte em suas páginas. Afinal, já colecionei algumas amigas nesta vida, e por várias vezes algumas namoradas reclamaram da presença delas. Fiquei imaginando se elas, as namoradas, não tinham os mesmos medos da Carla.

Carla, pensando que Júlia conhecia seu marido muito melhor que ela mesma, tinha medo de ofendê-la, imaginando que Murilo poderia ser influenciado pela amiga. Não estava tão errada assim: imagina se ela dá um chega-pra-lá na Júlia e a sacana vai lá encher o ouvido do cara. Por ser amiga de infância, Júlia poderia muito bem cutucar o Murilo de um jeito que ferisse os brios do cara, e aí coitada da Carla.

E, pra falar a verdade, acho que eu também teria um pouco daqueles medos se alguma namorada tivesse algum grande amigo de infância. Imagina, minha namorada com algum problema em casa, com alguma preocupação sobre o trabalho e, ao invés de conversar comigo, ir correndo para os braços de um amigo, chorar as mágoas? Ah, isso não daria certo, não.

Nada contra ter amigos, eles sempre são bem vindos, mas uma namorada tem que ser amiga também. A melhor amiga. Eu, por exemplo, tenho uma grande amiga, quase uma irmã pra mim, e sei que sou quase um irmão para ela. Quando a gente não tá namorando, sempre sai de noite, anda por aí, beberica umas cervejas, bate altos papos. É amizade pura mesmo, não rola tesão, não rola paixão. Mas sempre que um dos dois começa a namorar, o outro dá uma afastada naturalmente.

Mas voltando ao livro, apesar de concordar com as inseguranças de Carla, nada me tira da cabeça que ela agiu como uma babaca. Se não gostava da Júlia, por que não cortou logo de início aquele estorvo? Por que não chegou junto do Murilo e falou 'ó, essa mulher junto com a gente não vai dar certo, pó pará'? Porque era uma babaca. Você, minha querida leitora, deixaria uma moça ficar alugando seu marido a toda hora para chorar as dores? E ela ainda vem falar de carma. Carma, se é que isso existe, é coisa que a gente não tem como controlar, e a Carla tinha como dar um jeito na Júlia, nem que fosse metendo uma bala na jugular dela.

E o tal do Murilo, também, é outra besta que não soube lidar com a coisa. Será que o cara não tem o mínimo de semancol para notar que a coisa não ia dar certo? Pô, qualquer um percebe que um triângulo desses não tem futuro. Queria ver se fosse o contrário, com ele tendo que aturar um amigo da Carla. Com certeza o cara não iria gostar de ser rejeitado de noite, sob alegação de dor de cabeça, para minutos depois assistir uma hora e meia de telefonema com o grande amigo do peito. Então, concluímos, Murilo é o segundo grande imbecil da história.

Já a Júlia não me parece tão alienada quanto a Carla pintou. Poderia até ser um pouquinho desligada do que acontecia à sua volta, mas com certeza tinha plena noção de que o Murilo dava espaço pra ela, e que a Carla não tinha peito para bater de frente. Então se pendurava no pescoço do amigo sempre que precisava. Talvez quisesse dar pra ele, talvez já teria dado alguma vez, coisa que a Carla não conta, talvez por vergonha ou então por não saber mesmo, mas o que a Júlia poderia dar por certo é que o Murilo estava na palma da mão dela. E a Carla estava na outra. Poderia deixá-los juntos o tempo que quisesse, mas tinha o poder para separá-los a qualquer momento. Sonsa, sim, talvez, mas, com certeza, manipuladora ao extremo para conseguir o que quisesse, sempre.

É o tipo de gente com quem a gente sempre deve ter cuidado ao lidar. Vai pedindo um dedo todo dia, e sempre come mais meio-meio milímetro. A gente nem nota, e quando percebe já tá por inteiro na barriga do predador.

De resto, o livro é bom. Alex Castro empresta ótimas palavras para suas crias, como a idéia de mergulhar de apnéia em si mesmo. Genial. Fica aí a dica de uma leitura rápida e tranqüila. Um livro diferente de todos os que já li (não lembro de ter lido nenhum outro em primeira pessoa), e que, com certeza, vale a pena dar uma olhada.

A única coisa que não consegui entender até agora é como a Carla pôde escrever sua história se estava do jeito que estava quando a história acabou...

Com Bianca ao Telefone

Quando o telefone tocou, eu imaginei que fosse a Diana, querendo falar sobre as novidades que ela tinha visto na Bienal do Livro. Achei até que ela ia me falar que tinha encontrado o livro do Mário Marinato, mas não, não era. Apesar de ter ouvido aquela voz apenas algumas vezes, eu poderia reconhecê-la facilmente porque havia pouco tempo que tínhamos nos falado. Para meu desespero, era Bianca.

Apesar dos meus esforços para que ela não me descobrisse, dando telefone e nome errados, a maldita sapata conseguiu o meu telefone. Só poderia ser a maldita suíça recepcionista do hotel. Se eu soubesse, teria dado nome errado até mesmo na recepção. Mas, agora, com Bianca ao telefone, eu teria que arranjar outra desculpa para me livrar daquela fã de última hora.

Vou te falar, não trato homossexuais mal, mas não concordo que seja uma coisa certa ou aceitável ou concordável. Acho sim que isto é uma transgressão uma afronta às leis naturais, às leis de Deus. Você já viu uma galinha no rala e rola com outra? Ou uma ursa louca de paixão para dar para outra? Então, porque haveria de haver isto entre os humanos? Realmente, inaceitável.

Mas nada das minhas convicções adiantaria neste comento, com aquela carrapata na minha linha telefônica. Ângela - ela disse - Ângela, é você? Ela sabia que era eu. Sabia mesmo. Se eu tentasse argumentar, dizendo que ela tinha ligado para um outro número, e que ali não havia nenhuma Ângela, Bianca com certeza iria reconhecer a minha voz e dizer que eu estava de brincadeira com ela. Tive que me fazer de sonsa.

Enrolei um pouco até fazer que me lembrei que a tinha conhecido num hotel em Macaé, num dia do show do Makaloba, num dia em que fugi de casa para fingir que meus problemas não existiam. E acabei arranjando mais um. Quando Diana soubesse disso, com certeza iria me dar mais um dos seus sermões que pareciam de irmã mais velha: "se você não tivesse aquela atitude infantil de sumir do mapa se debandar para outra cidade e dormir quase que clandestina num hotel com alguém que você nem conhecia... nada disso teria acontecido, mas agora güenta.

E nisso ficamos conversando no telefone por mais de vinte minutos. Bianca querendo saber como eu estava, se poderia vir até a minha cidade - ela sabia onde eu morava -, se eu estava sozinha, se eu não tinha vontade de ir a outro show do Makaloba, coisa e tal.

Como a maldita recepcionista, pelo jeito, tinha repassado a mina ficha para a doidivana, eu não poderia simplesmente dar um passa fora nela, dando um coice daqueles, porque ela poderia resolver vir bater na minha porta. É certo que ela poderia bater na minha porta mesmo sem um coice, mas um pouco de diplomacia poderia me livrar daquele estorvo.

Tive que me fazer de chada. Ela disse que adorava Makaloba, e eu disse que odiei o show. Ela falou que viagens para lugares maravilhosos, até mesmo Ilha Grande, e eu me fiz de reclusa, que não gostava de passear. Quando finalmente tocou no assunto romance, lasquei todo o meu drama com o Marcelo, e inventei até mesmo um retorno lento do nosso relacionamento, já que nosso filho andava sofrendo muito. Filho que não tenho.

Até que ela desistiu. Sei que lá por onde ela vive ainda tem o meu telefone e o meu endereço, mas parece que vai esquecer de mim.

Tenho que trocar de telefone rápido.

Budapeste - Chico Buarque - Final

Bem, se não quiser ter a surpresa estragada, não leia este texto. Ao invés disso vá ler o livro, que é bom demais, e aí sim leia isto aqui. Quem já sabe o que acontece, por favor, compartilhe suas opiniões comigo, pois ainda estou tentando entender tudo.

Fico imaginando como a coisa realmente se desenrola. Seria Chico Buarque o tal Sr. Reticências que José Costa tanto cita na sua última estada em Budapeste? O desfecho dá a entender que alguém escreveu o Budapeste e o atribuiu a Zsoze Kósta, mas quem? O Chico, talvez?

As camadas do livro parecem recursivas. O José Costa, ao escrever o livro de Kaspar Krabbe, termina-o com a frase da "água suja", a mesma com que Chico fecha o livro, mas não foi Zsoze Kósta que o escreveu? Não, foi seu ghost-writer, o Chico. Mas como ele saberia dos últimos momentos do livro? É algo muito O Mundo de Sofia mesmo, porque você se confunde com a história, parecendo que você próprio é parte dela.

Outra coisa: se a história de José é fictícia, pelo menos até o ponto em que ele volta para Budapeste, o que ele estava fazendo no Brasil? Ainda mais sem dinheiro? Tudo indica que ele era realmente brasileiro, pois nas páginas finais vê-se que Kriska ensinou húngaro a José. Então, qual seria a verdadeira história dele? Será que nem Vanda nem Álvaro existiam?

Isso talvez explique a aparição dos Tercetos Secretos de Kocsis Ferenc (e a própria aparição dele) no início do livro, quando José e Vanda vão ao encontro onde Kocsis declama sua poesia, que seria escrita anos mais tarde por José, para ser então atribuída ao Kocsis. Ao que tudo leva a pensar, José realmente escreveu os Tercetos no seu anonimato, já na Hungria, dando os seus créditos ao escritor Húngaro.

Ainda vou passar um bom tempo tentando entender onde é que a vida real de José começa a aparecer no livro. Entende-se que o trabalho com Álvaro é ficção, o casamento com Vanda também, mas o encontro com Kriska na biblioteca pode ter sido real, e isso é bem no começo. No livro existe uma linha muito tênue entre a verdadeira história de José Costa e a ficção criada por seu ghost-writer, seja ele o Sr. Reticências ou Chico Buarque. E esta tênue linha Chico soube esconder muito bem.

Vai ver nem o Chico sabe onde ela está. Vai ver o Chico mandou um ghost-writer escrever Budapeste pra ele. Vai ver o ghost-writer se chame José Costa e viva em Budapeste. Ou então foi o Álvaro que armou tudo pra gente não descobrir que sua empresa realmente existe.

Vai ver eu pedi pra alguém escrever este texto pra mim.

Budapeste - Chico Buarque

Pela primeira vez fiz isso com um livro: li duas vezes seguidas, de uma tacada só, em menos de um mês. Mas foi preciso isso para sacar os detalhes que se escondem nas linhas de Budapeste. Pequeno, dá até pra ler num domingo de chuva. Legal mesmo.

Como se não bastasse criar uma história fácil de acompanhar, Chico ainda inventa de botar uma reviravolta nas últimas páginas que me deixaram atordoado da primeira vez. O que acontece é algo como O Sexto Sentido, onde nas cenas finais do filme todo o resto passa a fazer outro sentido.

José Costa é um ghost-writer, um escritor que escreve pros outros levarem a fama. Discursos políticos, trabalhos de faculdade, livros, matérias para jornais, tudo no anonimato. Um dia ele recebe um convite para ir a uma convenção mundial de ghost-writers e, na volta, é obrigado a passar uma noite em Budapeste.

De volta ao Brasil, aborrecimentos com a mulher e o sócio levam-no de volta a Budapeste. Lá, aborrecimentos levam-no de volta ao Brasil, onde aborrecimentos levam-no de volta a Budapeste, e ele fica nestas indas e vindas até que a reviravolta aconteça.

Na segunda lida vi que a reviravolta do livro lembra muito O Mundo de Sofia, que em sua metade exige um distanciamento da história para entender o que se passa, levando-nos ao ponto de duvidar de nós mesmos. Chega a ser Matrix.

Chico arrebentou nesse livro. Nele, há uma linha muito tênue entre ficção e realidade, a qual está muito bem escondida. Tanto pela leveza da escrita quanto pela capacidade de criar uma história tão cheia de camadas, seu Francisco está de parabéns. É o melhor livro do ano até aqui.

Em seguida... tentando entender Budapeste

Aventura Solo - Penúltima Parte

Você decide investigar cada canto do mosteiro, desde os quartos dos padres à biblioteca, mas desta vez acompanhado por pelo menos dois monges. Você fica no monastério durante quase uma semana sem encontrar nada.

Por alguma razão, você nunca consegue perguntar ou afirmar nada sobre Malcolm. Durante as investigações duas pessoas foram encontradas mortas na vila, mas não havia nenhuma pista. No final de semana os Inquisidores capturaram um viajante que carregava objetos demoníacos, como cartas de Tarô e runas: o herege foi queimado vivo como feiticeiro.

Após mais alguns dias de busca infrutífera, você retorna à sua cidade.

Depois de alguns dias de viagem, você volta para sua igreja. Não há nenhum lugar melhor do que seu lar mas, após suas novas experiências, você entra em seus aposentos assustado. A igreja agora parece assustadora. Porque eles construíam os tetos tão altos? Nunca conseguimos ver o que está acontecendo sobre nossas cabeças.

Depois de sua chegada, é hora de prestar depoimento sobre suas investigações. Você entra em uma sala fechada, com uma cadeira e tochas. Seis Inquisidores estão sentados à sua frente, esperando por suas respostas.

- E então, Jonathan? Como foram as investigações?

Você faz uma pausa para pensar. Se contar tudo o que viu, eles poderiam te ajuda-lo a livrar-se da tatuagem demoníaca. Poderiam atacar o mosteiro e destruir o demônio Malcolm. Você seria um herói entre os Inquisidores. Ou seria torturado e morto, por associar-se com demônios!

E daí? Vocês contam toda a verdade, contam só os fatos sobrenaturais, menos sobre Malcolm, ou preferem inventar uma história inofensiva? Pensem bem, esta última decisão pode levar vocês à fogueira!

Homens São de Marte, Mulheres São de Vênus - Livro dos Dias - John Gray - Final

"Quando a mulher deseja fazer mais sexo, ela deve ter cuidado ao comunicar seus desejos para não parecer muito infeliz ou exigente. Uma boa abordagem é deixar que ele saiba que ela está se masturbando, enquanto ele dorme, e que se ele quiser juntar-se a ela a qualquer momento será bem-vindo, mesmo que seja no fim, para fazer as honras da casa."

"Fazer as honras da casa" foi a frase mais nojenta que já ouvi nos últimos tempos, e olha que eu li no Jerusalém os detalhes cruéis e violentos da Paixão de Cristo. Não tem como ser mais esdrúxulo ou machista.

"O que faz a mulher ser especial - a mulher primeiro sente que é especial para o homem quando ele se sente fisicamente atraído por ela. A mulher deve lembrar que não é tão especial, porque são muitas as mulheres pelas quais o homem pode se sentir fisicamente atraído. É um bom começo, mas necessariamente não significa nada mais do que isso. Para o homem, naquele momento, ela pode ser a mulher dos seus sonhos. Nesse caso, ele pode acreditar esse comportar como se estivesse apaixonado por quem ela é. Mas só o tempo vai dizer, dando a ele oportunidade de conhecê-la. A mulher se torna mais especial para o homem, quando ele descobre que não só está atraído fisicamente por ela, mas que também gosta dela. Há muitas mulheres por quem ele pode sentir atração física, mas só de um grupo pequeno ele pode ser amigo também. Uma mulher se torna mesmo muito especial para ele, quando descobre que está mentalmente atraído por ela. Há apenas poucas mulheres por quem ele pode sentir todos os três tipos de química. A mulher se torna mais especial ainda quando o homem a vê como uma pessoa imperfeita, digna de ser amada. Mesmo nos momentos difíceis com ela, o homem pode ver o que há de bom na mulher e sentir seu amor. Esse tipo de amor incondicional a faz muito especial. Nesse grupo muito pequeno e muito especial, a alma do homem escolhe uma para compartilhar sua vida. É então quando a mulher é mais especial para ele."

Aí sim o cara acertou a bola sete na caçapa do canto. Tem mulher que pensa que quando o homem sempre quer um relacionamento. Isso é furado. A primeira coisa que atrai um homem é a beleza, e mesmo que o conteúdo seja uma bosta, o cara vai chegar junto se ela der mole. O que faz a mulher ser especial é o que vem depois, quando o cara vê que por trás do rosto bonito (ou da bunda grande) existe um ser pensante. Aí a coisa pode começar a mudar de figura. Mas quando ela se torna especial, no sentido mais forte, aí sim o cara está de quatro por ela. Mas é raro isso acontecer. Como toda mulher sabe muito bem, tem homem que só quer saber mesmo é de farrear.

"O momento certo para pedir: cuidado para não pedir alguma coisa que obviamente ele está planejando fazer. Por exemplo, se ele vai esvaziar a lata de lixo, não diga: 'Quer esvaziar a lata de lixo?' Ele vai sentir que você está dizendo o que ele deve fazer. O momento certo é crucial. Também, se ele está concentrado em alguma coisa, não espere que atenda imediatamente o seu pedido.'

Outra bola dentro. Pelo menos comigo, a coisa funciona quase sempre assim. Acho um pé no saco ter alguém mandando eu fazer uma coisa que eu estou indo fazer.

Muita gente, ao ver que eu estava lendo esse livro, me sugeriu um outro, Porque Homens Fazem Sexo e Mulheres Fazem Amor. Este deve seguir a linha e não tenho interesse em ler. Desta linha de literatura já esgotei minha cota da década.

Um dos grandes conselhos do livro, que pode ser encontrado logo no início, é o de que para se ter um novo hábito, é preciso praticar muito uma ação, de modo a fazê-la tornar-se parte de nós, fazer com que a ação seja feita mecanicamente, inconscientemente. Mais um óbvio daqueles que a gente vive esquecendo, e que precisamos ser lembrados sempre, até que vire um hábito lembrar.

Fica então mais uma dica de leitura para vocês. Pra quem não se vira muito bem nos relacionamentos, é uma boa pedida; e pra quem se vira bem, mas quer dar umas risadas, também.

A seguir: Comentários sobre Budapeste, de Chico Buarque

Homens São de Marte, Mulheres São de Vênus - Livro dos Dias - John Gray - Parte II

Muitas - a maioria - das dicas que ele dá eu já aplico no meu dia a dia, pra evitar que o relacionamento se desgaste, e por isso não aprendi muita coisa nova com ele, mas deu pra rir um bocado, principalmente quando ele fala de sexo. Essa é a parte mais deliciosa do livro, geradora de gargalhadas. Anotei algumas para a sua apreciação:

"Para cultivar uma boa vida sexual, é importante ocasionalmente satisfazer nossas necessidades sem depender do parceiro ou parceira."

O que ele quis dizer com isso? Ou ele diz que devemos trair a pessoa com quem estamos, o que é uma heresia, ou está sugerindo que masturbe-mo-nos, o que é hilário.

"Mesmo assim, ainda é importante fazer todo tipo de sexo - sexo depois de uma noite romântica ou simplesmente uma rapidinha entre dois compromissos. Quando o homem sente que sua parceira é tão entusiasmada com sexo quanto ele, está livre para abrir mais completamente o seu coração."

Lindo, romântico, é um orgasmo poético, e quase que uma negociação sexual: "amor, abra-me tua vagina e abrir-te-ei meu coração..."

"Em última análise, o que liberta o homem do estresse do trabalho é sexo. A satisfação sexual, mesmo numa rapidinha ou sozinho no chuveiro, o ajuda a se livrar temporariamente das suas preocupações e estabelece a ligação com sua parceira."

Na verdade, o que libera mesmo do estresse é o uso da força física, seja lá correndo, pedalando, puxando ferro ou fazendo sexo. Mas é uma boa dica. Só estou tentando entender até agora a questão do restabelecimento da ligação com a parceira.

Amanhã: mais trechos comentados.

Homens São de Marte, Mulheres São de Vênus - Livro dos Dias - John Gray

Depois de dois clássicos seguidos, parti para uma literatura mais moderna. Peguei para ler este livro cujo nome é uma obra prima da concisão. Antes de começar a ler, eu achava que se tratava de um romance, através do qual o autor iria explicar o motivo da diferenciação. Ledo engano.

Na verdade, é um livro de auto-ajuda, que não precisa ser lido linearmente. Ele traz 365 pequenos textos que se propõem a ajudar as pessoas a terem um relacionamento melhor. Ele foca principalmente em pessoas que já estejam casadas ou em um relacionamento estável, e raras vezes fala de encontros esporádicos ou de separação.

De cara, por não ser o que eu estava esperando que ele fosse, achei que ele iria acabar fondo, mas segui em frente e continuei a ler o livro até o final. E foi bom.

Ele traz muitas dicas interessantes para evitar que relacionamentos terminem ou se tornem desinteressantes, como a óbvia "não caia na rotina". Aliás, muita coisa que ele fala é óbvio, mas a gente sempre tem problema de enxergar o óbvio, não é? Então, alguém escreve um livro juntando uma frase de efeito aqui e outra ali, põe um título chamativo e vira best-seller.

A pior característica que encontrei no livro foi o fato de ele ser cíclico. Depois de ler metade do livro, você pode ter certeza de que já leu tudo o que tinha que saber. John Gray sempre volta a um ponto que já falou, e repete suas idéias uma vez atrás da outra.

Primeiro aprende-se o básico: a mulher, para se sentir amada, tem que ser ouvida e o homem, para se sentir amado, tem que se sentir respeitado. A mulher, pra relaxar, tem que falar, o homem tem que trepar. Coisas assim. A partir deste ponto, anda-se um pouco para cada lado, mas sempre volta-se ao marco de partida, para então falar de uma coisa que já foi dita e voltar ao começo e fazer tudo de novo. Fica até maçante no final. Há frases exatamente iguais.

Amanhã: trechos do livro comentados.

Aventura-Solo - Parte VII

Você termina de subir as escadas até o andar onde ficam os aposentos dos padres. Está tudo apagado, com exceção de uma única porta no final do corredor. Caminha sorrateiramente pelas portas dos quartos, sem emitir um único som, indo até a porta semiaberta.

Colando o ouvido à porta, você escuta murmúrios dentro do aposento. Como se alguém estivesse recitando versos em alguma língua desconhecida. Você aperta o seu punhal contra o peito, com medo.

Você entra e o ocupante do quarto reage assustado, como se fosse pêgo de surpresa. É Malcolm, o chefe do mosteiro - ou, pelo menos, se parece com ele à primeira vista. Um olhar mais atento revela que a criatura nem ao menos é humana: vestindo as roupas de Malcolm está um hediondo ser de pele avermelhada e escamosa, repleta de espinhos. Ostenta na cabeça um par de chifres longos e recurvados. Asas longas e membranosas achavam-se dobradas sobre suas costas. Suas mãos pareciam garras reptilianas, segurando um amuleto com uma jóia esverdeada do tamanho de um punho.

No chão do quarto, riscado com cera, pó de prata e sangue, um pentagrama com três velas acesas em cada ponta. No centro do pentagrama, uma tigela de barro contendo o que parece ser um coração humano.

- O que você está fazendo aqui, Johnattan?

A voz é de Malcolm!

Você faz menção de fugir, mas os músculos de suas pernas não respondem. Tenta gritar, mas o som não deixa sua garganta. Fica parado lá, olhando para o demônio. Malcolm aproxima-se, a luz dos relâmpagos faiscando em suas escamas.

O ser explica que é um demônio que vive naquela região já há séculos. Fala de onde veio e quais são os seus interesses. Por fim, risca seu peito com a garra do indicador, sem que você consiga mover-se. Ele desenha um pequeno pentagrama invertido e recita alguns versos. A figura queima em sua pele, fixando-se como uma cicatriz macabra. Ele diz que você pode continuar a investigar, se quiser, e que agora deve voltar para o seu quarto.

Com o pentagrama no peito, como convencer seus amigos Inquisidores de que você não é um adorador de demônios? É claro que eles acreditariam em você se contasse toda a história... ou não. Você mesmo viu pessoas que negaram seu envolvimento com demônios até o fim, e ainda assim foram queimadas vivas. Os Inquisidores não tiveram nenhum tipo de piedade, nem acreditaram nas histórias daqueles feiticeiros. Bem, com você seria diferente. Afinal, é um padre, não é?

Você volta para sua cama e tenta dormir, apesar de tudo o que aconteceu. Com o tempo, o sono acaba chegando. Ao despertar, vai tomar café e descobre que seu amigo Heitor morrera.

E agora, vocês preferem realizar investigar mais ou já se dão por satisfeitos e voltam para casa?

Desventuras Serranas Estudantis

No dia 19 de abril passado nosso ônibus já saiu da Estácio dando problema. Tanto que quando saímos de lá aproveitei para ligar pra casa avisando que poderia demorar para chegar. Como de fato aconteceu, assim que passamos da divisa entre Cachoeiras e Nova Friburgo, lá no alto da serra, exatamente no lugar onde o vento faz a curva - e isto não é uma figura de linguagem! - o ônibus resolveu pedir água, literalmente. Era pouco antes de meia noite.

Escuro, ventando, frio, famintos, sedentos, cansados. Assim ficamos nós, durante mais de quarenta minutos esperanto uma solução. Mas como a gente é brasileiro, e gosta duma farra, aproveitamos para tirar umas fotocas. Algumas não saíram muito boas, estão desfocadas, mas foi a urucubaca do dia que causou isso.

Pra ver as fotos é só clicar nos links aí abaixo. Se alguém quiser, tenho cópias em tamanho maior. É só pedir.

[links removidos porque as imagens foram perdidas]

Pensando no Assunto

Depois de uns dois ou três anos de namoro, o mocinho leva a mocinha para o restaurante chique da cidade, paga uma nota para ter a melhor refeição da cidade, compra um par de alianças daqueles bem arretados e no meio da noite manda o pedido de casamento.

A mocinha fica encantada, mas diz que não sabe o que responder. Pede um tempo. Ele dá. Passam-se os dias e ela não consegue chegar a uma conclusão. Acha que casamento é coisa séria demais e ainda tem uma ou outra dúvida sobre seu futuro ao lado dele. No auge do desespero, pede a Deus uma luz, uma resposta para todas os seus temores.

É nisso que penso quando ouço Thinking Over, da Dana Glover. Muita gente chega aqui no Sarcófago procurando por uma outra música dela, chamada It's You I Have Loved, que faz parte da trilha sonora de Shrek, e achei que seria interessante que o povo conhecesse esta outra música que é tão boa quanto a sua prima mais famosa.

A tradução da It's You I Have Loved está vindo a caminho, conforme me foi pedido por uma leitora. Enquanto isso, apreciem esta adaptação livre, não rimada, não poética (e ainda assim fuleira) da letra de Thinking Over.

"Eu tenho pensado muito nos motivos para aceitar ou descartar a sua proposta, e sei que meu tempo para tomar a decisão já está acabando. Sim, eu sei que está na hora de dar a minha resposta, mas, acredite, sinceramente não sei o que te dizer. Tenho tanta coisa pra pensar, tanta coisa na cabeça.

Será que estou realmente pronta para o 'para sempre'? Oh, Deus, me dê uma luz. Porque se for pra gente ficar junto, tem que ser bom de verdade. Ele quer casar comigo e quer me levar para longe daqui e quer me amar pra vida inteira e também quer estar do meu lado a cada manhã que eu acordar e quer estar abraçado comigo durante toda a noite.

Oh, Pai, o que faço da minha vida? Não é tão fácil chegar a uma conclusão. Eu o amo muito muito mesmo, mas só Tu sabes se ele é o cara certo pra mim.

Na minha frente estão dois caminhos diferentes, e só posso escolher um deles, e é por isso que estou demorando tanto para chegar a uma conclusão.

Calma, estou pensando, estou analisando, estou refletindo sobre tudo o que você falou. Me dê mais um tempo, por favor..."

Chamando a Atenção

Gente, eu já postei a continuação da aventura solo há uma semana e ninguém votou. Que houve?

Eu Tô Pedindo, Mas Podia tá Robando

Gente, dia 21 de maio o moço aqui faz aniversário. Então lembro a todos vocês que clicando aqui vocês vão poder visitar o site Submarino, onde está uma lista de presentes que eu gostaria de ganhar. Se você acha que o Sarcófago traz alguma coisa de boa para a sua vida, se você acha que eu mereço um agrado, ou simplesmente se você não tem nada melhor para fazer com o seu dinheiro, dê uma visitada. Agradecerei eterna e publicamente. Aceito óleo de peroba também, mesmo não estando na lista.

A Divina Comédia - Dante Alighieri

Aproximadamente dez anos antes da história do livro começar, a mulher do personagem principal do livro morreu. E então lá estava ela, Beatriz, no paraíso, cantando hosanas ao Senhor, quando viu que seu amado esposo estava perdido numa floresta, sendo perseguido por animais selvagens, às portas da morte, e se compadeceu dele.

Ela, então, bateu uns papos com seus superiores e conseguiu uma façanha até então inédita: conseguiu tirar alguém do inferno para salvar seu amado da morte, mostrá-lo como é "o outro lado da vida" e ajudá-lo a alcançar a salvação. É neste ponto que começamos a acompanhar as peripécias de Dante, o personagem principal do livro.

O motivo de ele ser uma "comédia" eu não sei, porque de engraçado ele não tem nada, mas o livro é bom. Dante, o personagem, é um escritor e o cara tirado do inferno para ajudá-lo em sua caminhada é Virgílio, um outro escritor que servia de inspiração para ele. No auge do seu desespero para fugir das feras, na escuridão da noite, Dante vê o espírito de Virgílio, que o explica o ocorrido no céu, e convida Dante a segui-lo.

E assim começa sua jornada. Dante, o autor, primeiro nos leva a acompanhar Virgílio levar Dante pelos nove círculos do inferno, encontrando por lá toda gente (inclusive alguns que Dante considerava santos, salvos) e também aprende sobre como esta gente é castigada por seus pecados. É uma parte duríssima de ler, dada a riqueza de detalhes que abundam aqui e ali sobre as infindas torturas que Seu Satã propicia aos caídos.

Findo o inferno e seu calor, os personagens vão então ao purgatório, onde as pessoas têm que sofrer algumas penas, mas com a certeza de que chegarão ao céu. No seu longo caminho, Dante encontra pessoas que conheceu ou que ouviu muito falar. Nas suas conversas com estas personalidades, muitos pedem notícias do mundo e pedem para que Dante, ao voltar ao mundo, espalhe a notícia sobre sua atual condição para que os parentes e amigos dos mortos rezem por eles, de modo a levá-los mais rápido ao céu.

Nestas duas partes, o livro às vezes é um pouco arrastado porque Dante pára pra conversar com todo mundo que encontra pelo caminho, pedindo informações sobre quem são, de onde vieram, como morreram, porque estão ali, coisa e tal. E também todo mundo aproveita para perguntar como é que Dante pôde ir ao inferno e ao purgatório ainda estando vivo. É tanto conversê e tanta prosa que dá sono.

Finalmente Dante chega ao paraíso. Na condição de condenado, Virgílio é obrigado a abandoná-lo, pois não pode entrar na morada dos salvos, o que não é grande problema, pois logo em seguida Beatriz vem ao encontro de seu amado para conduzi-lo pelo céu, até a presença do Altíssimo. No céu, Dante ouve mais do que fala. Enquanto caminha, encontra muita gente que ele chegou a conhecer e outros que todos já ouviram falar, como os reis Salomão e Davi, alguns apóstolos, e até mesmo Adão e Eva. No ambiente celestial, Dante aprende o verdadeiro significado de coisas como esperança e fé. Tudo culmina no seu encontro com o Pai, na forma da Santíssima Trindade.

Como sempre gosto de fazer, anotei um par de partes interessantes que gostei. A primeira delas, curta e grossa, é quando, no paraíso, Dante define esperança: "ela é o aguardar, sem nenhuma dúvida, a glória futura, por efeito da graça divina e de mérito precedente".

A outra é um Pai Nosso que as almas amarguradas entoam no purgatório. Interessantíssimo, traduz muito do que penso sobre esta oração de um jeito que eu jamais conseguiria fazer: "Ó Pai Nosso, que estais no Céu, porém não circunscrito, mas sim por dedicar maior amor às primeiras de Vossas criações - que todas as criaturas louvem Vosso nome e poder, nas Vossas três pessoas. Venha a nós a paz do Vosso reino - que aspiramos a alcançar, não por nossos méritos, mas por Vossa bondade; como a vontade própria dos anjos se humilha ante o querer Vosso, sob os doces cantos do hosana, assim se humilhem os homens. Dai-nos o pão cotidiano, sem o qual, neste áspero deserto, retrocede o que julga andar avante. E à medida que perdoamos a quantos nos fazem mal, perdoa, benigno, os nossos pecados, sem olhar a pequenez de nosso merecimento. Nossa virtude, que tão facilmente se deixa abater, não a sujeiteis à prova com a tentação do inimigo, mas fortalecei-a contra ele, que a procura vencer."

Se você não acredita nestas teorias de céu-purgatório-inferno, não é por isso que tem que deixar de ler este livro. Como sempre, basta encará-lo como o que ele realmente é - ficção - para embarcar numa viagem super interessante. Só prepare-se para uma linguagem rebuscada; afinal de contas, estamos falando de um clássico.

Aventura Solo - Parte VI

Você está meio morto de medo, mas ainda assim sabe que sua missão sagrada vem em primeiro lugar. Coloca suas botas, veste sua roupa de couro e pendura seu punhal na cintura. Enfia as roupas de dormir sobre as suas; caso seja visto, pode dizer que procurava água ou coisa assim.

Você abre a porta de seu quarto com dificuldade: ela é muito velha e range. Leva quase três minutos para abrir a porta sem fazer barulho.

Pé ante pé, você caminha pelo corredor até a junção das escadas. De lá pode ver um lance de escadas que sobe para a biblioteca e os aposentos dos padres; e um lance de escadas descendo para a sala de jantar, que está iluminada.

E daí? Vocês preferem ir para a sala de jantar, para a biblioteca ou pelos aposentos dos padres?

Aventura Solo - Parte V

Você decide ficar quieto. Heitor já arrumou bastante confusão sozinho e se não conservar o silêncio você pode encrencar-se também. Malcolm parece preocupado.

- Precisamos encontrar nosso irmão Heitor antes que a tempestade o encontre. Ele não vai durar muito tempo lá fora. Julian, Kevin, vistam roupas para enfrentar o frio e procurem por ele.

- Sim, senhor.

- Estas montanhas são muito perigosas quando a noite chega - diz Malcolm a você. - Como se as lendas não bastassem... você nunca escutou nenhuma das lendas a respeito desta região? Sim, as lendas sobre esta região. Antes que a igreja chegasse, tribos bárbaras dominavam o lugar. As pessoas da vila diziam que muitos bárbaros eram adoradores de demônios e praticantes de magia negra, e que amaldiçoaram com rinas e rituais macabros o solo onde o mosteiro foi construído. Dizem que as sombras têm vida, e que as almas dos hereges purificados vão se erguer contra nós e todos os que os destruíram.

Nessas alturas você já está quase suando frio; enquanto vinha para a sala de jantar, teve a impressão de que as sombras no corredor se moviam. Pensou ser apenas o vento agitando as chamas das tochas, mas agora...

Malcolm toma outra taça de vinho.

- Todos nós ficamos impressionados com essas histórias, mas posso lhe assegurar que ninguém aqui nunca viu nenhum fantasma ou assombração.

- Eu vi!

Quase todos os monges voltam-se na direção da voz rouca que vem do fundo da sala. Lá está um senhor de idade, com escassos cabelos brancos, e quase nenhum dente. Parece cego, também.

Os monges retomam a conversa, ignorando o ancião.

- Não acredite no velho Stan, filho. Ficou quase cego quando comeu ervas venenosas por acidente, e sofre alucinações ocasionais. Mal consegue raciocinar. Mas é um bom homem, e tomamos conta dele. Pobre homem. Que Deus tenha piedade dele.

Ao final do jantar, Malcolm acompanha você até seu quarto. Com Heitor fora, terá que passar a noite sozinho com as sombras. Você abre a porta de seu quarto cuidadosamente e entra. A chama tremulante da vela em suas mãos projeta sombras grotescas na parede. Seu quarto está frio, mesmo com a enorme janela de vidro fechada.

- Boa noite, meu filho. Durma com Deus.

Malcolm fecha a porta, deixando-o sozinho.

E daí? Vocês preferem tentar dormir, cair fora do mosteiro ou investigar?

A Mulher de Trinta Anos - Honoré de Balzac (Parte Final)

"O casamento, instituição em que hoje se funda a sociedade, faz-nos sentir todo o seu peso: para o homem a liberdade, para as mulheres os deveres. Nós lhes devemos toda a nossa vida, eles devem-nos apenas raros instantes. Enfim, o homem escolhe, e nós nos submetemos cegamente."

Hoje em dia isso pode até ter mudado, mas naquela época não haveria descrição melhor. Não precisamos ir muito longe para isso, basta voltar uns poucos cinqüenta anos no tempo para depararmos com mulheres submissas, obrigadas a cumprir seus deveres e servir aos seus maridos, ao passo que estes têm todos os privilégios e desfrutam de todos os prazeres da vida.

"Uma tarde, os dois amantes se achavam sós, sentados perto um do outro e ocupados em contemplar uma das mais belas fases do firmamento, um desses céus puros em que os últimos raios do sol lançam fracas cores de ouro e púrpura. Nesta hora do dia, as lentas diminuições da luz parecem despertar doces sentimentos, as nossas paixões vibram ternamente, e saboreamos as perturbações de não sei que violência no meio da calmaria. Mostrando-nos a felicidade por meio de imagens vagas, a natureza convida-nos a gozá-la quando a temos perto de nós, ou faz com que a lastimemos quando nos foge. Nestes instantes férteis em encantamentos, sob o dossel dessa luz cujas ternas harmonias se unem a íntimas seduções, é difícil resistir aos desejos do coração, que então possuem tão poderosa magia! O pesar torna-se menos sensível, a alegria embriaga e a dor acabrunha. As pompas da noite são o sinal das confissões, que elas animam. O silêncio se torna mais perigoso que a palavra, comunicando aos olhos todo o poder do infinito dos céus, que eles refletem. Se se fala, a mais insignificante palavra possui um poder irresistível. Não há então luz na voz, púrpura no olhar? Não parece que o céu está em nós ou não parece que estamos no céu?"

Vai ser poético assim na caixa-prego! Seja honesta e me diga: quantas vezes você leu algo tão verdadeiro sobre o amor quanto este parágrafo? Quando é que o pôr do sol não instiga paixões, não atrai os amantes? A beleza deste momento nos traz paz, fazendo com que esqueçamos as dores, as saudades, e podemos nos concentrar no quanto a vida é bela, no quanto a obra de Deus é perfeita. Realmente, parece que estamos a voar no céu. Ou, mais emocionante e especial ainda, parece que o céu vive em nós. Não é nada mais que o paraíso. Simplesmente esta é uma passagem antológica, uma das melhores coisas que já li em minha vida.

Aí está A Mulher de Trinta Anos, um livro que, por ser clássico, muita gente não dá atenção, mas que é dos bons, que nos leva a reflexões e contemplações com as quais não estamos acostumados a lidar. Um livro que desembaralha em suas linhas a alma de uma mulher viva e amargurada, com um coração cheio de amor e conflitos, que foge de seus anseios para proteger sua própria família e que convive com seus segredos para preservar sua integridade moral. Enquanto nos leva a passear pelas paisagens européias, é uma obra que foge dos domínios de seu tempo, dizendo às balzaquianas de hoje em dia tudo o que elas querem ouvir.

A Mulher de Trinta Anos - Honoré de Balzac (Parte II)

Acabei copiando alguns ótimos trechos do livro, que são pérolas no meio de todas aquelas palavras. Vejam por si mesmas:

"Dizia-lhe seu instinto que é muito mais belo obedecer a um homem de talento do que guiar um tolo, e que uma esposa jovem, obrigada a pensar e a proceder como um homem, não é mulher nem homem, abdica todas as graças do seu sexo, sem perder os seus desgostos nem adquirir nenhum dos privilégios que as leis deram aos mais fortes."

É quase que o feminismo às avessas. Ao passo que querem independência em suas vidas, poder trabalhar, ter liberdade de falar e agir, as mulheres ainda querem alguém mais forte do lado delas, que tome a frente nas situações que exijam força bruta, decisão firme, enfim, coisa de macho. Não há erro nisso. Como o próprio texto fala, quando a mulher tem que ser o homem da casa, abre mão de seu lado frágil mas ainda assim não tem o devido respeito.

"Ordenar-lho é dar-lhe direitos que são sagrados."

Apesar de fugir do contexto do livro, é poderosa esta frase. No trabalho, uma ordem do chefe te dá o direito de passar por cima de qualquer obrigação para que seu pedido seja cumprido. Sei que de vez em quando a obrigação real é cumprir a ordem E cumprir com todas as suas obrigações, mas é inegável que a ordem superior é a desculpa para abster-se de fazer qualquer outra coisa. Deixa-se de visitar a tia velha porque o juiz mandou você trabalhar na eleição. Eu tenho o direito de fazer os meus exercícios de casa ao invés de lavar a louça porque meu professor me obrigou a entregar o trabalho amanhã de manhã.

"Com efeito, não será um erro crer que os sentimentos se reproduzem? Uma vez despertos, não existem sempre no fundo do coração? Aí adormecem ou despertam ao sabor dos acidentes da vida, mas aí permanecem, e esta permanência modifica necessariamente a alma."

Grande verdade. Antes de se amar a primeira vez, não se sabe o que é o amor. Mas depois que se ama, o amor fica latente bem fundo. Não o amor por alguém, mas a força motriz deste, que permanece revirando bem fundo, até mesmo procurando outro alguém para despejar sua força. Antes de se perder alguém para a morte, não se sabe o que é sofrer, não se sente dor. Mas após a primeira morte, a saudade pode até passar, mas a dor permanece viva, pulsando, pronta para martelar o coração de acordo com os dissabores da vida. O sentimento não muda, o que muda é a sua força e a sua direção. Se esta existência velada e latente não modifica a alma, para melhor ou pior, o que modificaria, então?

Na madrugada de sexta para sábado... mais comentários e considerações finais

A Mulher de Trinta Anos - Honoré de Balzac

Você já ouviu alguém chamar uma mulher de balzaquiana? Não? Sim? Mesmo que já tenha ouvido, talvez não saiba o motivo. Bem, chamar uma mulher de balzaquiana quer dizer que ela tem trinta anos. A expressão nasceu do nome deste livro e de seu autor.

Quando escreveu A Mulher de Trinta Anos, duvido que Balzac teria idéia de que seu próprio nome seria usado para classificar as mulheres. Seria como eu achar que daqui a alguns anos as mulheres que ainda não encontraram o amor passem a ser chamadas de Marianas, só por causa do meu texto Viviane e o Amor.

Mas, enfim, A Mulher de Trinta Anos, passado lá pelos idos do século XVII ou XVIII, conta não apenas a história de uma mulher com esta idade. Sua narrativa começa bem antes, quando ela ainda era jovem e se rendeu à paixão adolescente e se casou com um belo jovem militar, apesar dos apelos de seu pai para que deixasse a vida passar um pouco mais, para que ela pudesse aprender a escolher com melhor certeza seu futuro esposo.

Mas ela não cede aos apelos do pai e se casa. A partir daí, começa a conhecer como é a vida real de uma mulher casada que é esquecida pelo marido e tem que lidar com filhos e dilemas como a traição e a tentação, sofrendo muitos percalços até alcançar a velhice.

Por muitas vezes, graças à sua linguagem clássica, rebuscada, dura e poética, tive que reler alguns trechos para captar o que estava escrito. Isso torna o livro algo ainda melhor, porque você tem que se ligar de verdade com a narrativa, mergulhar na história, para poder desfrutar de tudo que Balzac nos põe à frente.

É incrível como um homem pôde traduzir tão bem o que as mulheres pensam. Se isso ainda não é muito fácil nos dias de hoje, imagine há dois, três séculos atrás, quando a sociedade era extremamente machista e o papel da mulher era a de dona de casa submissa que cuida dos filhos.

Bem, digo que traduziu bem baseado nos meus parcos conhecimentos da alma mulheril. Ter muitas amigas e conversar muito com elas dá nisso: fico achando que sei de tudo. Mas, enfim...

Ainda esta semana... trechos do livro comentados

Aventura Solo - Parte IV

"Ele decidiu voltar para vila de Hampsem - você diz. - Receio que tenha se sentido assustado com o clima do mosteiro. O pobre Heitor tem nervos fragilizados, fica impressionado com qualquer...

- Assustado? - interrompe Malcom, soerguendo uma sobrancelha. Os monges se entreolham. Porque ele ficaria assustado na casa de Deus? Só pode existir uma razão! Apenas um motivo para temer cruzes e pessoas religiosas!

Um trovão cai, iluminando a sala e o esboço de sorriso nos lábios de Malcolm.

- Devemos tentar trazê-lo de volta, senhor? - pergunta um monge.

Pausa. Você se ente um enorme dedo-duro. Seu colega está sendo acusado de heresia bem diante de seus olhos. É verdade que a atitude dele foi muito suspeita. Por outro lado, contudo, você mesmo já está tremendo de medo.

Malcolm coça o cavanhaque com a mão esquerda, e olha para você em seguida.

E aí? Vocês defenderiam seu colega da injusta ou acham mais prudente ficar quietos?

Tem Como Ser Mais Difícil?

Com um "até logo" e um abraço você me disse adeus
Um corte tão profundo, que acredito não merecer
Você sempre foi invencível aos olhos meus
E agora só o tempo me impede de te ver

Se eu tivesse pelo menos mais um dia
Pelo chão eu rolaria, cego de alegria
Um pouco de esperança e riso, isso é tudo que eu preciso

E fazer o tempo voltar, quem me dera eu pudesse
Mas não está em minhas mãos, por mais que eu quisesse

Tem como ser mais difícil?
Do que dizer adeus e não mais te ter?
Tem como ser mais difícil?
Do que ver você ir embora e a verdade reconhecer?

Se pelo menos um dia a mais eu tivesse
A cada segundo dele eu me entregaria por completo
E então nós beberíamos, nós dançaríamos com afeto
E para cada palavra sua eu daria atenção
Como se ela fosse a última, e seria mesmo então

Por que hoje você se foi

Tem como ser mais difícil?
Do que viver minha vida, sem te ter ao meu lado?
Tem como ser mais difícil?
Eu estou tão sozinho, eu estou tão desolado

Como a areia da praia nos pés
Ou como o perfume de um alecrim
Você estará para sempre em mim

Quem me dera você não tivesse ido embora
Para que de novo eu pudesse te tocar
Forte, alegre, e cheio de vida pra dar

Não, não tem como ser mais difícil.

Could it Be Any Harder (The Calling), do cd Camino Palmero
Tradução poética, rimada e fuleira feita pelo Mário

Sugestões para o The Bost

Depois de um breve tempo, estou querendo atualizar a seção The Bost of Sarcófago. Então, digam-me: qual ou quais textos devem entrar para os anais deste cafofo?

A Oração do Pai Nosso, que traz a minha interpretação da oração?
Celular Novo, que mostra a sacanagem que a Sueli aprontou comigo?
Políticos Brasileiros, brincando com a história de que brasileiro não desiste nunca?
Apague as Luzes ao Sair, a tradução da música do Elton John?
Prisioneiro de Mim, um poema chinfrim que eu não gostei?

Aventura Solo - Parte III

Dando continuação à brincadeira, só pra lembrar, vocês escolheram ficar no mosteiro. Vamos em frente.

Oh, bem, não é mesmo problema seu. Heitor sempre foi meio esquisito mesmo. Abandonar sua carreira aqui, desse jeito! Isso acontece, alguns cedem aos temores e superstições. E daí se as tochas pareciam estranhas, se as sombras moviam-se de forma peculiar? Do jeito que vocês estavam cansados, não era de admirar que vissem coisas.

Heitor arruma sua pequena trouxa de roupa e sai sorrateiro pela porta. Boa sorte, pensa você.

Despreocupado, você termina de arrumar suas coisas e preparar sua cama, Malcolm irá chamá-lo em minutos, e você poderá saborear a comida do Mosteiro. Depois de quatorze horas sobre um cavalo, qualquer coisa seria uma refeição magnífica. Você se deixa na cama e espera ser chamado.

Após alguns minutos que parecem uma eternidade, alguém bate à sua porta. Com um esforço sobre-humano, você se ergue da cama e caminha lentamente até a porta. Malcolm está lá para conduzi-lo até a sala de jantar.

- Fizeram boa viagem?

- Sim, senhor, mas estamos completamente esgotados. Boa comida e uma cama quente é tudo que precisamos no momento. Malcolm sorri. Há alguma coisa suspeita em seu sorriso, mas você não consegue descobrir o que é. Caminham sob a luz de velas por corredores sujos e arruinados. Os monges deveriam ser mais ordeiros, pensa você.

O cheiro agradável de comida invade suas narinas. Malcolm se aproxima da mesa onde estão outros quatorze monges. Prepara uma cadeira para você e, antes de puxar outra cadeira para si mesmo, pergunta onde está o outro acólito.

E daí? Vocês contam a verdade ou inventam uma desculpa?

Programação

Sexta feira que vem tem Globo Repórter especial. Já tá tudo praticamente pronto. É só apertar play.

No domingo tem caderno especial junto com o Globo e com o Dia. Já está tudo formatado. É só botar umas informações finais.

Durante a semana, Época, Veja e Isto É trarão reportagens especiais ou até mesmo edições especiais. As matérias já estão digitadas e prontas.

Mês que vem, a Revista das Religiões vai ser especial, se não lançar uma edição extra. Já está tudo diagramado.

A National Geographics vai lançar uma edição de fotos históricas. Todas já estão selecionadas.

No Fantástico de domingo vai ter reportagem especial de encerramento. Também já está feita.

Na terça, o Dom Eugênio Salles vai no Jô. Já está marcado.

Na segunda, Lula vai decretar luto nacional. Só falta assinar o decreto.

Ainda no domingo, a Rede Vida vai mostrar a retrospectiva. Já está editada.

Na quarta, o Discovery vai mostrar um documentário sobre a Polônia. Faltam só uns retoques.

Em maio, sai a Seleções com matéria extra. É só botar as rotativas para funcionar.

No domingo a missa vai demorar mais que o normal.

Na segunda, o Extra vai trazer um gráfico mostrando como é processo de escolha. Além das possíveis indicações.

No próximo sábado, um encontro ecumênico reunindo líderes religiosos para discutir o quanto as coisas vão mudar e se o diálogo vai continuar.

Só falta mesmo Deus chamar o papa pra morar no céu. Que vá em paz este homem que tanto fez. Não só pela igreja católica, mas por toda a humanidade.

O Retorno do Malandro

Se fosse o fim não escreveria mais.
Posto que não foi fim, tamborilo outras histórias.
Para trás duas semanas estão.
O silêncio falou mais que tudo.
Pelas mensagens de apoio agradeço.
E meu retorno fica aqui então marcado.
Em breve textos sobre livros que li.
No domingo, a aventura solo de volta.
No fim de semana, os arquivos da faculdade se atualizam.
Com o passar dos dias, comentários respondidos.
Com o passar das semanas, papéis de parede virão.
Com o tempo, uma cara nova.
E a vida segue em frente.

Jó 1:21

Nu saí do ventre de minha mãe
Nu para lá hei de voltar
O Senhor deu, o Senhor tirou
Bendito seja o nome do Senhor

Orar e Rezar

O texto sobre a oração do Pai Nosso já rendeu poucas e boas. Teve gente que concordou com muita coisa e gostou. Teve gente que me chamou de indeciso. Outros falaram que eu não saía de cima do muro. E também que minhas opiniões são heréticas. Uma então gesticulou que queria me dar um soco nas fuças, como quem diz "seu imbecil, deixe de falar merda". E teve uns que, para meu alívio, entenderam o espírito da coisa e deram até risada.

Nas muitas conversas sobre o texto, passei por gente preocupada em entender meu ponto de vista e gente que não quis enxergar além de suas próprias crenças. Uma das conversas gerou este papo aqui agora, querida leitora.

Conversando com a Isabela, reexplicando o que eu quis dizer com o texto, chegamos a um desacordo que nada tinha a ver com o Pai Nosso: orar é o mesmo que rezar?

Discussão vai, argumentos vêm, chegamos ao acordo de procurar o significado no dicionário. Foi o que fiz no final de semana e encontrei o seguinte, entre outros significados não importantes para o momento:

Orar: dirigir oração a Deus ou aos santos; rezar; suplicar em oração; pedir, suplicar, rogar.

Rezar: proferir, dizer orações ou súplicas religiosas; fazer oração a Deus ou aos santos; orar.

Trocando em miúdos, orar e rezar são sinônimos. Sei que nos últimos tempos há muita gente fazendo força para dar conotações diferentes a estas palavras, talvez com a intenção de marcar território, definir identidade, separar o "nós" do "eles", sejam lá quem forem o "eles" ou o "nós".

Mas, para ninguém dizer que sou cabeça dura, sei sim que dá pra achar uma diferença entre elas se a gente for procurar em suas origens gregas, latinas, hebraicas ou até tupi-guaranienses. Rezar tende mais para uma prece repetida, e orar tende para uma prece espontânea. Algo assim.

Mas discutir sobre isso é pura bobagem. Mais bobagem ainda é escrever um texto sobre o assunto. Pior que isso é escrever o texto e sair mostrando pra todo mundo, inclusive publicando na internet.

O mais importante é o objetivo de ambas as palavras: falar com Deus com fé. No fim, é isso que importa. Duvido que Ele esteja preocupado com que nomes damos aos bois.

Operação Cavalo de Tróia

Como eu já havia dito há coisa de dois meses atrás, andei lendo o livro Jerusalém, que faz parte da coleção Operação Cavalo de Tróia. Quando escrevi, tinha lido até pouco antes da metade do livro, faltando eu comentar sobre o que faltava pra ler. Antão aqui estamos nós.

A partir daquele ponto do livro muita coisa acontece, mas podemos resumir em dois fatos principais: Jesus é preso. Jesus é crucificado. E em todo o texto, em todos as páginas, tudo é de um detalhismo tão grande que tem hora que chega a enjoar. O autor perde tanto, mas tanto tempo descrevendo a roupa do guarda que às vezes dá até pra esquecer o andamento da história.

Mas este detalhismo, em outros momentos, ajuda a deixar a história mais interessante. As cenas da perseguição para a prisão de Jesus são dignas de filme e levam a imaginação nas alturas. Agora, depois que Jesus é preso e começa a ser açoitado, e até o seu sepultamento, o detalhismo dá náuseas. É como se eu estivesse lendo A Paixão de Cristo de Mel Gibson, talvez até com mais detalhes. Não páginas e páginas e páginas de sangue.

O narrador do livro, o tal major que viajou no tempo, por ser médico, descreve muitos dados ¿técnicos¿ do flagelo de Jesus, coisas que fariam sentido para um médico experiente, mas para mim, que não curto anatomia, é maçante.

Como eu havia falado no outro post, haviam algumas coisas no livro que eu achava que não estavam batendo, e achei até que tinha encontrado mais uma destas falhas, mas me enganei. Explico: num certo ponto, o major entra na sala onde ocorreria a última ceia de Jesus com os discípulos e coloca lá dentro um microfone. Páginas se vão e em nenhum momento ele comenta sobre a retirada do microfone. ¿Aí está um furo¿, pensei, mas ledo engano. Perto, bem perto do final, acho que já depois da morte de Jesus, ele volta ao local para pegar de volta o microfone. O que acontece nessa hora deixo como surpresa para vocês, só pra lhes dar vontade de ler o livro.

O final do livro não é o que eu pensei que fosse, pois tudo passa a ser uma grande deixa para o segundo volume. As coisas acontecem num ritmo vertiginoso, mas muita coisa fica sem explicação. A explicação está nos outros volumes. É, sem dúvida, uma ótima jogada de marketing, porque eu quero ler a continuação, com certeza.

No geral, apesar dessas faltas, é um ótimo livro, que em muitos momentos empolga e nos faz ficar com os olhos grudados em suas linhas sem que dê vontade de parar. Tenho certeza de que agradaria muitos cristãos, pois mostra um Jesus amável, sábio, inteligente, amigo, como ele realmente era, e nos traz cenas que, mesmo que fictícias, ajudam a formar nossa imagem deste grande homem.

Digo que agradaria porque tenho certeza de que muitos cristão torceriam o nariz para a história. Qualquer um sabe que tem gente que é cabeça dura, que não aceita uma distorçãozinha que seja na história que eles conhecem, mesmo que seja por brincadeira ou por pura ficção. As passagens mais que mais iriam chocar um cristão seriam as aparições de uma nave alienígena e a explicação de certos fenômenos que aconteceram no decorrer desta história toda. Muita gente está acostumada a pensar em milagres e negam quando alguém tenta dar uma explicação científica.

Foi a mesma coisa quando disseram que a terra era redonda e que ela não era o centro do universo. Até hoje tem gente que não acredita nisso.

Enfim, é um ótimo livro, recomendadíssimo para quem gosta de uma ficção daquelas e para cristãos que aceitam ler coisas que brincam com a Verdade.

Prisioneiro de Mim

Sou prisioneiro do meu passado
Lembranças ruins
Memórias boas
Cada lágrima que rolou
Cada gargalhada que soou
Tudo vive dentro em mim
Num turbilhão que não tem fim
O ontem que nunca morre
A história que nunca finda
O choro preso que nunca corre
Esquecer de tudo, quero ainda

Sou prisioneiro do meu presente
Viver agora
Saciar o desejo
É a fome que faz andar
É a sede que faz seguir
A necessidade faz trabalhar
A hora marcada faz partir
O agora que nunca passa
A história que segue em frente
Parar, não há o que me faça
E eu sigo a corrente

Sou prisioneiro do meu futuro
Pra onde eu vou?
O que vou fazer?
A esperança mostra o caminho
A fé afasta o desalinho
Eu tenho que aprender
Eu tenho que estudar
Amanhã posso até morrer
Amanhã posso até matar
O amanhã é uma porta
Que leva a qualquer lugar

Prisioneiro de mim mesmo eu sou
De onde vim, onde estou, pr'onde vou
São as coisas que estão a me moldar
São a liberdade que me faz voar

Aventura Solo - Parte II

Bom, vocês escolheram não deixar o sujeito ir embora. Vamos ver no que dá.

- Algum problema, irmão? - você pergunta, pousando a mão sobre o ombro de Heitor.
- Vou sair daqui, John. Este lugar está me dando calafrios.
- Está louco? E sua carreira no clero? Além disso, uma tempestade está se formando lá fora. Por quanto tempo você acha que vai sobreviver?
- Deus me protegerá, irmão. É mais seguro sob os relâmpagos que aqui. Você não percebeu a maldade neste lugar, as sombras movendo-se de maneira macabra? Tenho a sensação de que estamos vigiados o tempo todo. Não confio em Malcolm, e muito menos em nossos "irmãos". Vou sair daqui.
- Você está cansado, Heitor. Vamos discutir esse assunto pela manhã, está bem?
- Não pretendo passar a noite aqui. As lendas...
- Que lendas?
- Sobre este lugar. Sobre os inquisidores daqui. Dizem que os fantasmas de todos os hereges mortos neste castelo voltam para assombrar os padres durante a noite.

Você sabe que Malcolm tem a fama de ser um grande inquisidor, um inigualável caçador de feiticeiros. Enviou muitos para a fogueira. Na verdade ele é quase um ídolo para você. Mas a idéia de que os espíritos hereges possam voltar para assombrá-lo é por demais assustadora.

- Heitor, espíritos hereges nunca poderiam ficar aqui. Esta é a casa de Deus.
- Faça como quiser. Eu vou sair daqui.

E daí? Heitor vai embora. Vocês vão com ele, para enfrentar a tempestade que está armando, ou ficam no mosteiro, a salvo da fúria da natureza?

Histórias em Quadrinhos

No final de 1994 duas coisas que aconteceram me levaram a gostar de ler gibis de super heróis, mais especificamente os do Super Homem: primeiro foi o lançamento da mini série O Retorno do Super Homem, lançada alguns meses após a sua morte. Me amarrei tanto que comecei a comprar os gibis para acompanhar. A outra coisa foi ter começado a trabalhar junto com um primo meu, que é fã de histórias em quadrinhos de super heróis, seja lá quais forem. O vício dele alimentou o meu.

A partir dali, sempre comprei muita revistinha em bancas. Às vezes eram quatro ou cinco por mês. Tenho dezenas delas. Só deixei de comprar no início de 2002, ou 2003, não lembro direito. Parei de comprar porque as histórias do Super estavam muito fantasiosas. Sim, eu sei que uma história do Super Homem já é fantasiosa por natureza, mas é que antes as histórias tinham um pouco de humanidade, os coadjuvantes tinham dramas pessoais que eram interessante de acompanhar.

Tinha a Mila que cuidava do orfanato, que ficava no Beco do Suicídio, o bairro pobre de Metrópolis, onde morava o Keith, que tinha uma mãe com AIDS, e quando ela morreu, o garoto foi adotado pelo Perry White, chefe do Clark Kent. A esposa do Perry já tinha vivido com Lex Luthor, com quem tinha tido um filho, que havia morrido por um erro do Perry. Daí a adoção do Keith pelo Perry, na tentativa de corrigir um erro. Tinha a Cat Grant, que trabalhava com a Lois e o Clark, uma repórter alcoólatra que não dava muita atenção ao filho, e que teve a sua vida modificada quando o moleque foi seqüestrado e assassinado. Na Liga da Justiça, então, era uma festa: várias pessoas com personalidades diferentes tendo que se entender para poder trabalhar em paz.

Eram histórias interessantes, não era só um super vilão sendo espancado pelo super herói. Havia um pano psicológico, dramático, por trás de tudo, que tornava as coisas muito mais interessantes. Mas aí o tempo passou, os personagens coadjuvantes sumiram e o Super passou a enfrentar apenas ameaças cósmicas. Ficou chato. Então eu parei de comprar. Daquela época boa, três revistas me trazem ótimas lembranças. Eram revistas onde era mostrado o lado humano dos heróis, e dá pra até tentar imaginar como seria viver num mundo com eles.

A primeira revista é uma edição especial chamada Super Homem: Paz na Terra. Magistralmente desenhada pelo Alex Ross, que tem um traço maravilhoso, esta revista traz uma história diferente das que estamos acostumados a ver do Super Homem. Nela, angustiado com o problema da fome no mundo, ele resolve juntar toda a produção excedente de alimentos no mundo e distribuir para países que têm problemas de fome. Na distribuição, ele visita vários países, inclusive o Brasil, que tem quatro páginas dedicadas exclusivamente a ele, inclusive um super poster do Super voando sobre o Rio de Janeiro, bem perto do Cristo Redentor, com o Pão de Açúcar à distância.

Em suas viagens, é mostrado o drama de países que sofrem muito mais que o nosso, como os africanos e outros em que os governantes não querem a ajuda de fora para poder continuar governando o povo com mão de ferro. No final, o Super não consegue fazer tudo o que queria, desistindo no meio do caminho. Parte-se então para o drama dele, pensando se fez de menos ou se tentou fazer de mais. É uma história lindíssima, com uma mensagem muito bonita no final.

Outra revista que me deixou boas lembranças é a mini série As Quatro Estações, também do Super Homem, que mostra como ele descobriu os seus poderes, como ele decidiu ajudar os outros, como foi partir para Metrópolis e como lidou com o seu primeiro fracasso. Cada uma das edições é narrada por um personagem diferente. Jonathan, o pai de Clark Kent, narra como foi impressionante descobrir o que seu filho conseguia fazer, como ficou com medo do futuro, como foi criar e moldar sua personalidade. Lois Lane conta como o Super acabou com todos os limites da imaginação das mulheres, sendo o melhor homem que já tina aparecido pela face da Terra. Lana Lang, amiga de infância, nos mostra como Clark lidou com a descoberta dos seus poderes e como ele enfrentou todos os dramas de ser quem era. E Lex Luthor narra como é a luta pelo poder. A luta entre o mal que quer dominar a cidade sob mão de ferro e o bem que quer cuidar dela. É uma história deliciosa que sempre releio.

Por fim, a terceira série é a Marvels, também desenhada pelo Alex Ross. Nesta série de quatro edições, a história é narrada por um repórter fotográfico, Phil Sheldon. A história se passa nos anos 40, perto da Segunda Guerra Mundial. Até ali, não haviam super heróis, e o repórter nos conta, sob seu ponto de vista, como foi passar a conviver com homens e mulheres com super poderes. O drama principal é que as pessoas normais mudaram seu ponto de vista sobre si mesmas. Até então, antes do aparecimento dos heróis, os homens eram os donos do planeta, os super poderosos, que tudo podiam e tudo sabiam. Controlavam o fogo, controlavam a natureza e superavam os obstáculos. E eis que surgem os super heróis, capazes de transpor prédios com um salto, de mudar o curso dos rios com as mãos, tomando o pedestal das pessoas comuns.

Como se passa no universo Marvel, lá estão o Homem Aranha, o Thor, o Quarteto Fantástico, Galacticus, Namor e os X-Man. O drama destes mutantes também não é deixado de lado na história, e a perseguição que se instaura contra eles é contada de maneira envolvente e emocionante. No final da história, Phil chega à conclusão de que os heróis chegaram para ficar, que nós teríamos de nos acostumar com eles, de nos adaptar a eles, e não eles a nós. Muito bom.

Ontem, depois de anos, comprei um gibi na banca. É mais uma mini série do Super Homem, chamada Identidade Secreta, e mostra como foi a adolescência de Clark Kent, a descoberta dos poderes e toda a aceitação da responsabilidade que veio junto com eles. Deve ser muito interessante. Vou, com certeza, falar mais sobre ela quando terminar de ler.

Enfim, são histórias que todo fã de gibi deveria ler e conhecer. São histórias que trazem os super heróis para perto de nós, e nos fazem enxergar melhor como seria tê-los entre nós. Mostram que gibi de super herói não é só pancadaria.

Para a Galera da Estácio

Salve, meu povo. Vou passar a colocar aqui no Sarcófago arquivos com coisas da faculdade. Faço as seguintes matérias: Computação Gráfica, Tópicos Especiais em Linguagens de Programação, Controle de Qualidade e Modelagem e Simulação. Na barra à direita, lá embaixo, estão links para arquivos zipados de cada uma das matérias. Para saber a data da última atualização, basta deixar o mouse parado sobre o link um curto tempo. Vou tentar atualizar várias vezes por semana.

Para quem não sabe o esquema do Sarcófago, o link chamado "A Voz do Povo", abaixo de cada quadro aqui à esquerda, é um espaço para deixar comentários; e do lado esquerdo estão links para os arquivos, para os meus melhores textos (vocês sabiam que tenho uma veia de escritor?) e outras coisitas mais. Os links das músicas estão desativados porque o servidor apagou meus arquivos recentemente.

Sintam-se à vontade e voltem sempre. Povo de casa, façam sala, por favor.

Aventura Solo - Parte I

Vamos começar então com mais uma aventura solo no Sarcófago. Como foi das outras vezes, vocês lêem e colocam nos comentários como vocês querem que a história continue. A opção mais escolhida leva a outra parte da história. Ah, sim, aproveitem para convidar os amigos, meu povo! Iniciemos:

Você é um jovem chamado Johnattan Stephen, que preparou-se para abraçar o sacerdócio desde a morte de sua mãe, em 1412. Após dez longos anos de espera até a maioridade, até que a igreja necessitasse de novos recrutas, até você sentir o chamado divino.

Como seu pai conhecia algumas pessoas importantes dentro do clero, foi relativamente fácil colocá-lo para dentro. Durante três anos você estudou as bases da religião e do sacerdócio, aprofundando-se em conhecimentos como a leitura, a escrita e o aprendizado das escrituras sagradas. Seus esforços não deixaram de ser notados pelos outros padres, e em pouco tempo você foi nomeado delegado de sua província.

Agora, menos de um mês após receber o cargo, você e alguns de seus colegas receberam uma missão: deveriam ir para um mosteiro perto dos Alpes suíços, a Abadia de São Ruterford. O motivo? Estranhos relatos de um padre viajante a respeito de uma criatura alada que teria sido vista sobrevoando a abadia.

Era uma boa chance, contudo, de aprofundar-se ainda mais em seus estudos sobre o sobrenatural; as escrituras guardadas naquela Abadia datam de séculos atrás. Durante vários dias, seu acólito Heitor acompanhou-o até as bases da montanha de Aspen. O clima estava muito ruim, com uma tempestade de neve se aproximando rapidamente. Sua fé estava quase cedendo quando finalmente encontraram as enormes portas do mosteiro de São Ruterford, com a pequena vila de Hampsem a seus pés. Assim que você avista o mosteiro, um arrepio percorre suas contas. Heitor parece estar muito assustado também.

O mosteiro é frio, úmido e escuro, clima agravado pelo frio intenso do inverso alpino. Os monges andam com pesadas roupas feitas com sacos de estopa, botas e alguns com luvas de pele de cordeiro. O chefe do mosteiro é um velho padre chamado Malcolm, que convida-os a entrar.

- Bem vindos, irmãos. Esta casa de Deus também é vossa morada!

Vocês entram e se instalam em algumas dependências para hóspedes, indicadas pelo próprio Malcolm. Com ele estão Harold e Julian, dois outros padres, tão jovens quando você. Harold é alto, loiro, com o rosto coberto de espinhas. Julian é baixinho e gordo, com uma pequena cicatriz na bochecha. As mãos de ambos estão sujas de terra e neve, que eles não se preocuparam em limpar.

- O jantar será servido dentro de minutos. Sintam-se à vontade para andar pelo mosteiro. Após o jantar, eu mesmo os conduzirei a um passeio pelas dependências desta casa de Deus.

- Obrigado - você diz. Heitor parece muito nervoso, até mais do que de costume. Assim que Malcolm sai do quarto de hóspedes, ele arruma suas coisas apressado; parece que vai partir.

- Não fico neste lugar nem mais um instante - ele resmunga, mais para si próprio que para você.

E daí? Vocês deixam ele ir embora ou não? Continuamos no próximo domingo.

Nomes de Profissionais

Há uns meses publiquei aqui duas listas de nomes de profissionais muito engraçadas. Segue hoje uma atualização:

AÍDA LEITE - Criação de vacas
ÁS DE PAUS - Baralhos gays
BRÁULIO P. LUDO - Depilação íntima
CHÁ VASCA - Estimulante sexual
MIKOMI NAKAMA - Garota de programa japonesa
MILA WANDO - Sabonetes
MISS TICKA - Alongamentos
NAOMI RITA - Psicóloga
NASSAU NADAMOS - Dono de sauna gay
ZECA BAÇO - Ginecologista

Livro

Inscrevi uns textos do Sarcófago para serem publicados num livro que a Secretaria de Cultura da minha cidade vai lançar sabe-se lá quando. Se sair vocês vão comprar, não vão?

Apague as Luzes ao Sair

Suas malas estão feitas
Seu armário está zerado
Você diz que vai embora
Pois o amor tá acabado

Procurando nos meus olhos
Nenhuma lágrima encontrou
Pois meu estoque de perdão
Com os anos se acabou

É como um filme antigo
E representas o papel
Você acha que é divina
E que aqui é o mausoléu

Sei que por lá está bem quente
E que aqui chove pesado
Mas amanhã, ao sol nascer
Já serás mais que passado

Você pode até ainda ser bonita
Com este vestido bem rendado
Mas acho que a falha é sua
Se acha que é eu que estou errado

Eu não vou morrer, eu não vou sofrer
O meu coração não vais partir
O carro pode levar, eu não vou atrapalhar
Ah sim, e apague as luzes ao sair
Eu não vou tremer, eu não vou ceder
E de joelhos não vou cair
Se você já terminou, pra cama agora eu vou
Ah sim, e apague as luzes ao sair

Turn the Lights Out When You Leave (Elton John e Bernie Taupin), do cd Peachtree Road
Tradução poética, rimada e fuleira feita pelo Mário

Se Puder Sem Medo

Deixa em cima dessa mesa a foto que eu gostava
Preu pensar que teu sorriso envelheceu comigo
Deixa eu ter a tua mão mais uma vez na minha
Pra que eu fotografe assim meu verdadeiro abrigo
Deixa a luz do quarto acesa, a porta entreaberta
O lençol amarrotado mesmo que vazio
Deixa a toalha na mesa e a comida pronta
Só na minha voz não mexa eu mesmo silencio
Deixa o coração falar o que eu calei um dia
Deixa a casa sem barulho achando que ainda é cedo
Deixa o nosso amor morrer sem graça e sem poesia
Deixa tudo como está e se puder sem medo
Deixa tudo que lembrar eu finjo que esqueço
Deixa e quando não voltar eu finjo que não importa
Deixa eu ver se me recordo uma frase de efeito
Pra dizer te vendo ir fechando atrás da porta
Deixa o que não for urgente que 'inda preciso
Deixa o meu olhar doente pousado na mesa
Deixa ali teu endereço qualquer coisa aviso
Deixa o que fingiu levar mas deixou de surpresa
Deixa eu chorar como nunca fui capaz contigo
Deixa eu enfrentar a insônia como gente grande
Deixa ao menos uma vez eu fingir que consigo
Se o adeus demora a dor no coração se expande
Deixa o disco na vitrola preu pensar que é festa
Deixa a gaveta trancada pra eu não ver tua ausência
Deixa a minha insanidade é tudo o que me resta
Deixa eu por à prova toda minha resistência
Deixa eu confessar meu medo do claro e do escuro
Deixa eu contar que era farsa minha voz tranqüila
Deixa pendurada a calça de brim desbotado
Que como o nosso amor ao menor vento oscila
Deixa eu sonhar que você não tem nenhuma pressa
Deixa um último recado na casa vizinha
Deixa de sofisma e vamos ao que interessa
Deixa a dor que eu lhe causei agora é toda minha
Deixa tudo o que eu não disse e que você sabia
Deixa o que você calou e eu tanto precisava
Deixa o que era inexistente e eu pensei que havia
Deixa enfim o que pedia mas pensei que dava

Oswaldo Montenegro

Ajuda Para Quem Precisa de Ajuda

Muita gente chega aqui no cafofo procurando por duas coisas: ou o site da banda de rock Sarcófago ou o jogo do Mário Bros.

Para ajudar estes pobres coitados que, sem destino certo, chegam aqui depois de passar no cafundó do Judas, busquei na internet os links para eles. Então logo, aí no topo da tela estão dois links: um para um site não-oficial da banda e um para uma versão em flash do jogo do bigodudo.

Depois do Esquindô Lelê

Primeiro foi o problema com o servidor da Brasilvision que apagou todos os meus arquivos do Sarcófago. E então, antes que eu pudesse colocar todos de volta na internet, meu HD queimou levando junto TODOS os meus arquivos.

Então tenho alguns pedidos:

1 - Me escrevam, pois perdi o email de todo mundo.
2 - Quem tiver feito o download, ou tenha os arquivos no cache no Internet Explorer, me mande as imagens e os arquivos de som. Principalmente os arquivos de som.
3 - Me digam seus telefones e aniversários e icqs e msns e sites, tudo que for possível.
4 - Me enviem antigos emails que tenhamos trocado, tanto os que vocês tenham me mandado quanto os que eu tenha enviado.

Desde já agradeço.

Por fim, uma consideração carnavalesca importante: não tem pra Elton John, nem pra Djavan, nem pra Celine Dion, nem pro Chico Buarque, nem pra Beethovem, nem pra Arthur Moreira Lima: bom MESMO é uma bateria de escola de samba começando a tocar.

Copiando e Colando

É por causa dessas coisas assim que eu adoro o Confiteor da Teruska:

há uma coisa que sempre me incomodou: o verso do Soneto da Fidelidade que mais ou menos todo mundo usa para dizer que a paixão é efêmera. Já ouvi muita gente repetindo "que seja eterno enquanto dure". Ouvindo pela primeira vez, pensei cá com a minha velha arrogância: "esse negócio tá errado... Vinícius não diria uma coisa tão idiota...tem trem aí." E, é claro, tinha. Os versos são:

"...eu possa me dizer do amor (que tive)
Que não seja imortal, posto que é chama
Mas que seja infinito enquanto dure."

Infinito não tem relação com tempo. Tem relação com espaço. Eterno só tem relação como o tempo. Vinícius não quis o amor imortal, mas infinito. Enooorme! Grandioso. Imenso. Sem medidas. Sem limites. Mas mortal, mortal, mortal. Se assim não fosse como poderia amar infinitamente a tantas mulheres numa vida só?


Ai, ai...

Papéis de Parede do Sarcófago

Agora sim, você que ama o Sarcófago, não vive sem ele, agora tem a oportunidade de ter na tela do seu computador um papel de parede com a marca do blog do Mário. Lembram-se que há umas semanas eu falei que tinha comprado uma máquina digital e que iria começar a colocar umas fotos aqui? Pois bem, cá estão as primeiras delas.

São cinco papéis de parede com fotos que tirei nas minhas férias em Ilha Grande. Todas as cinco devidamente trabalhadas para ficarem ainda mais bonitas.

A primeira imagem é de uma flor que não sei o nome (alguém se habilita a identificar?). Tirei no jardim da pousada onde me instalei. É uma das minhas fotos favoritas.

A segunda é uma foto da praia de Lopes Mendes, num dia feio mas que rendeu uma foto muito legal.

A terceira, modéstia à parte, ficou uma jóia. São as Ilhas Botinas, no litoral de Angra dos Reis, numa montagem feita com águas da Ilha Grande. Lindo.

A quarta é uma orquídea magnífica que floresceu no meio da rua na Vila do Abraão.

Pra fechar, a quinta imagem é a Praia da Feiticeira, um dos recantos da Ilha Grande.

Só pra fazer festa, inauguro mais uma seção na coluna da direita do Sarcófago, para reunir todas os papéis de parede que virem por aí.

Gostaram? Querem mais?

[os links foram removidos porque as imagens foram perdidas]

Telemarketing Furado

Em outubro de 1997 era dada a primeira aula do curso de informática Info Planet. O professor dessa primeira aula era eu. Um dos autores da primeira apostila era eu. Um dos arrumadores da sala de aula era eu. Um dos "qualquer-coisa-relativa-ao-curso" era, inevitavelmente, eu. Até minha saída, dois anos depois, aquele lugar tinha meu nome impregnado em suas divisórias. Mesmo depois de sair de lá, volta e meia visitava minhas turmas mais queridas.

Hoje, cinco anos depois do pedido de demissão, recebo um telefonema:

"Sr. Mário, bom dia, eu sou Rosângela, operadora de telemarketing do Info Planet, e nós estamos realizando uma pesquisa para saber o nível de conhecimento de informática dos moradores de nossa cidade. Então, eu gostaria de saber se o senhor já lidou, ou já teve algum contato com computadores.

"Querida, eu dei aula no Info Planet durante dois anos."

"Ah, Mário, é você!".

Depois de, vergonhosamente, reconhecer pra quem tinha ligado, e reconhecer o tamanho do furo, Rosângela ainda veio me perguntar se eu conhecia alguém que teria interesse em fazer algum curso de informática.

É claro que eu vou lá sacanear aquele povo, né?

Andam Falando de Mim

Daí que o Ponto de Encontro fez dois anos e a Priscila resolveu falar das pessoas que ela conheceu neste tempo. Entre as personalidades, lá estou eu:

"Encontrei um comentário do Mário em um blog que nem está mais ativo e desde então nunca mais saí do Sarcófago. Mário é um pianista iniciante super talentoso, fã assumidíssimo de Elton John e escritor de textos que são pérolas de perfeição - mas, atenção garotas, o coração dele já tem dona: Sueli."

Pergunta: Priscila, que blog foi esse que está desativado?
Constatação: Meus arquivos MP3 conseguem enganar.
Constatação 2: Meus textos enganam ainda mais.

Pra fechar o post, parabéns e obrigado, menina!

A Oração do Pai Nosso

A oração, todos conhecem. Mas levantem o dedo os que já interpretaram o que dizem, frase por frase. Ensinada por Jesus durante o sermão da montanha, como descrito em Mateus 6,9-13 e Lucas 11,2-4, a oração do Pai Nosso é muitas vezes repetida sem que os orantes prestem atenção ao que dizem.

Já há um bom tempo eu parei para interpretar o que ela diz. A interpretação que fiz daquela vez mudou um pouco com o tempo. Reproduzo abaixo a oração e depois sigo com minhas observações.

Pai nosso, que estás no céu,
Santificado seja o vosso nome
Venha a nós o vosso reino
Seja feita a vossa vontade
Assim na terra como no céu
O pão nosso de cada dia nos dai hoje
Perdoai as nossas ofensas,
Assim como nós perdoamos a quem nos tem ofendido
E não nos deixeis cair em tentação,
Mas livrai-nos do mal,
Amém.

Pai nosso (...). Sendo a oração dirigida para alguém, começa-se com uma saudação ou uma invocação, coisa que o valha. No caso, vamos pedir alguma coisa para Deus, o Pai. E ele não é só o meu pai, o teu pai ou o pai do pastor da igreja ali da esquina. É o pai de todos, o nosso pai. Até aqui ótimo, tudo certo. Agora, perdoem-me se estou errado, pois ainda não tenho tanto conhecimento bíblico assim, mas para ser chamado de filho de Deus não é preciso aceitar Jesus como o messias e ser batizado? Se for, então quem não passou por isso ainda não é filho de Deus, logo, não é todo mundo que poderia rezar o Pai Nosso.

(...) que estás no céu (...). Temos aí um sério problema teológico e, principalmente, geográfico. Onde está Deus? "Ele está no meio de nós"? Ou estaria ele em todos os lugares ao mesmo tempo? Na oração, afirmamos que Ele está no céu. Bem, se Deus é onipresente, então está em todos os lugares, estando, também, no céu. Aqui a coisa funciona.

(...) santificado seja o vosso nome (...). Dizer que Deus seja santo seria esquisito, porque o Todo Poderoso está acima disso, mas fala-se que Seu nome seja santo, o que é ainda mais esquisito. Pode um nome ser santo? Podendo, qual seria o nome a ser santificado? Deus, Javé, Jeová? Hm... complicado. Podemos deixar interpretado que isso indica uma boa dose de respeito para com Ele.

(...) venha a nós o vosso reino (...). Antes de pedir que o reino venha a nós, é preciso pensar em como seria o reino. Mas como ninguém voltou pra contar como é, pode-se acreditar no que está escrito na Bíblia. Tá, os espíritas dizem que tem gente que voltou, e contou como é, mas ainda assim são histórias e descrições muito inverossímeis. Se tomarmos que o reino de Deus é um lugar porreta, pra lá de bom, então, claro, que ele venha a nós! Deve ser melhor do que aqui.

(...) seja feita a vossa vontade, assim na terra como no céu (...)
. Aqui a coisa pega. Qual vontade deve ser feita? A nossa ou a Dele? A primeira coisa que me vem à mente é de dizer que seja feita a minha, afinal, a vida é minha e eu tenho o livre arbítrio. Depois paro para pensar e vejo que, sendo Deus safo como é, Ele sabe bem melhor do que eu o que é bom e o que é ruim. Então, na terra, que seja feita a vossa vontade, mas que deixe a gente escolher de vez em quando. Já no céu, é Ele que sabe como funciona, então que, indiscutivelmente, a última palavra seja Dele.

(...) O pão nosso de cada dia nos dai hoje (...). Ensinar a pescar é melhor do que dar o peixe, porque assim se alimenta alguém para o resto da vida. Logo, essa história de nos dar o pão todo dia não soa muito bem. Seria melhor algo do tipo "nos dê a cada dia a força para conseguir o pão nosso". Ou então pão está aqui no sentido figurado, e trata do corpo de Jesus. Aí sim a frase faz sentido. Que Ele nunca se afaste de nós, nenhum dia, é uma coisa pra lá de desejável. Mas ainda assim, teríamos que pedir também o vinho. Parece que a metáfora aqui não serve, inclusive porque, quando ensinou a oração do Pai Nosso, Jesus ainda não tinha falado a seus discípulos sobre a questão do pão e o vinho serem seu corpo e sangue.

(...) Perdoai as nossas ofensas, assim como nós perdoamos a quem nos tem ofendido (...). Há muito tempo, muito tempo mesmo, eu rezava dizendo "perdoai as nossas ofensas, mesmo que eu não perdoe a quem me tem ofendido", alguém me ensinara assim, mas vi que estava errado. Rezando desse jeito eu mudava o sentido da frase, pedindo que Deus passasse a mão na minha cabeça. Afinal, não importava se eu tivesse perdoado alguém ou não, o interesse era ser perdoado pelo Pai. Mas não é assim que a banda toca.

A frase pode ser interpretada como "lide com meus erros assim como eu lido com os erros dos outros". Dita desse jeito, o bicho pega, não? É praticamente "Pai, me trate como eu trato os outros". Se não perdoamos ninguém, Ele não nos perdoa, simples assim. É "amai o próximo" na veia. Jesus não era bobo.

(...) Não nos deixeis cair em tentação (...). Ou seja, não nos deixe pecar, fazer o que não presta. É compreensível pedir isso, porque tentações são coisas que nos fazem sentir arrependidos quando cedemos a elas. Mas, pô, confessem, ceder a uma tentação de vez em quando é muito bom. Mas ainda assim a gente pede pra não cair nelas.

(...) Mas livrai-nos do mal (...). Isso todo mundo quer. Que o mal vá pra longe, pro diabo que o carregue.

E que assim seja.