#NovembroNegro

Durante o mês de novembro publiquei algumas histórias tristes no Facebook, todas marcadas com a hashtag #NovembroNegro.

A ideia por trás dessa hashtag foi fazê-la servir de lembrete de qua a vida também é dor, muito além dos sorrisos constantes nas fotos de rede social. Foi pra lembrar que além das fotos de trilha, dos recordes de quilômetros corridos, das noites em hamburguerias, as pessoas também carregam dores e cicatrizes e que a vida não é um mar de rosas.

Mas há um segundo lembrete, tão importante quanto: o de que apesar de todas as dores e de toda a lama mental que uma pessoa possa carregar, ainda assim a vida segue em frente. Que não é preciso se enterrar nessa lama para nunca mais sair.

Um choque de realidade pra quando se está nas nuvens e uma mão estendida pra quando se está no fundo do poço.

Experiência Alimentar - 30 Dias sem Carne

Nos últimos dias de outubro comecei a me questionar. Como meu organismo reagiria em situações alimentares diferentes das quais estou habituado? Resolvi experimentar. Fiz uma pequena lista de experiências e agora em novembro vou botar pra funcionar a primeira delas: ficar um mês sem comer carne.

Comentei sobre isso no Facebook e as respostas foram interessantes. Teve quem leu o que não estava escrito e achou que eu iria experimentar o veganismo. Nada disso. Vou continuar comendo ovos e derivados do leite. É só carne mesmo que vou não vou colocar no prato.

Teve quem elogiou a iniciativa, pela importância disso pra minha vida e pra vida em geral. Realmente, o consumo de carne é algo que venho questionando já há algum tempo, desde que assisti online um curso sobre filosofia. Um dos vídeos foi justamente sobre como tratamos os animais e desde então estou com uma pulga atrás da orelha. Tem legendas em português.

E teve a maioria que compartilhou suas histórias, como forma de encorajamento. Essa foi a parte mais legal, porque falar sobre um assunto sobre o qual pouca gente comenta faz as pessoas saírem da toca. Só tenho a agradecer a essa turma.

Minha intenção é ver como o meu organismo vai reagir se eu não comer carne durante todo esse tempo. Meu peso vai mudar? Minhas crises de enxaqueca vão diminuir? Meu sono vai melhorar? Não sei. É exatamente pra isso a experiência. Só assim vou aprender mais sobre meu próprio corpo.

Não quero me tornar vegetariano, muito menos veganista (se queijo se tornasse ilegal, eu contrabandearia). A não ser que a experiência revele resultados extraordinários, em dezembro eu volto a comer carne. Talvez em menor quantidade, mas volto. Porque, tipo, não dá pra abandonar aquele filé mignon ou aquela comida japonesa.

Atendendo a pedidos, durante o mês eu compartilho minhas impressões.

Filme: Parte de Mim

Hoje chegou à grande tela Parte de Mim, o primeiro curta metragem com a minha assinatura.

A ideia inicial do que se tornaria o curta nasceu como exercício da disciplina de Teoria e Prática das Narrativas, no curso de Cinema e Audiovisual da UFF. A proposta do professor Maurício era filmarmos um plano sequência - um filme de uma tomada só, sem cortes. Como simples exercício, a ideia ficou um pouco complexa e o grupo resolveu fazer outra coisa. Daí nasceu Fuga, que publiquei há umas semanas. Mas a vontade tirar o roteiro do papel permaneceu. Reunimos a equipe durante as férias e o resultado é este que está aí.

Como cinema não é uma coisa que se faz sozinho, e ele foi feito a doze mãos, nada mais justo dizer que Parte de Mim é nosso filme. E é a esse time especial que esteve comigo que eu gostaria de agradecer.

Obrigado ao João Pedro Benício por fazer tanto nos bastidores. Sem sua ajuda, tudo seria bem mais complicado. O cuidado em manter a mesa sempre arrumada, a atenção constante aos detalhes, o apoio na correria por trás da câmera... as coisas sairiam bem diferentes se você não estivesse lá. E graças a você temos imagens dos bastidores!

Obrigado ao Dudu Cabral por dar corpo e voz às ideias que estavam só na minha cabeça. Por dedicar seu tempo a um projeto trabalhoso, sem muito espaço pra erro, e fazer isso tão bem. Você foi demais! Só de ver o vídeo da passagem de texto já me fez ver que tínhamos tudo para fazer bonito.

Obrigado à Dayse Richffer também por dar corpo e voz às minhas ideias. Que trabalho lindo que você fez, você foi maravilhosa! Achar espaço na agenda para estar com a gente, entre ensaios de peças e dublagens, foi um carinho enorme. E obrigado também por abrir as portas da sua casa pra nós, uma generosidade sem tamanho.

Obrigado à Marianna Mendes que pensou em tudo que eu seria incapaz de pensar, e por colocar significado em detalhes que pra mim passariam batido. Assistir ao filme e ver o tanto de coisa que tem o seu dedo por trás dá uma satisfação enorme. Foi ótimo ter você comigo nessa aventura.

E por fim, mas não menos importante, muito obrigado ao João Victor Lopes, que comprou minha ideia e embarcou nessa viagem comigo. Cara, se não fosse por você, por seus contatos e por sua ação, eu acho que o projeto ainda estaria no papel. E obrigado por me ensinar o tanto de coisa que eu não sabia dar nome. Valeu mesmo!

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O Dudu Cabral, a Dayse Richffer e o João Victor Lopes produzem conteúdo falando de cinema e séries, então fica o convite para que minhas leitoras conheçam o trabalho deles. A Dayse faz o Clube do Sofá, o Dudu faz o DUDUflicks e o João Victor faz o Portal Geração Z. Acompanhem, porque essa turma faz bonito.

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Taí, então, Parte de Mim. Que seja o primeiro de muitos.

Música: Valsa para Iris

Valsa para Iris é uma composição minha para a trilha sonora do meu primeiro curta-metragem, Parte de Mim. O curta estreia no final do mês, em 28/09, no PAM! - Panorama Artístico de Macacu.


Eu e a Religião - Parte VI

Este artigo é a sexta e última parte de um longo ensaio sobre minha relação com a religião. No anterior eu conto como a religião faz parte da minha vida. Pra concluir a série, aqui eu descrevo como levo minha vida.

Parte VI - Filosofia


Como estamos sempre tentando arranjar explicações pras coisas que não conseguimos entender, na falta de explicações simples, preenchemos as lacunas com coisas espetaculares sem pestanejar. E daí, como a gente tem uma forte tendência a ignorar novas evidências e abandonar crenças, a gente acaba se prendendo a ideias inválidas e ultrapassadas. Por fim, como terminamos amarrados a crenças das mais diversas, a gente acaba por deixar ver as coisas com clareza.

Acho que essa é, então, a minha religião. A tentativa eterna de ver com clareza. De perceber quando os instintos enganam, quando a ansiedade comanda, quando a visão é embaçada pelo desconhecimento. Como sei que tenho diversos pontos cegos, me preparo para antecipar os seus efeitos. Aprendi que o mundo que enxergamos é, em grande parte, fruto de nossas próprias interpretações. E que eu sou o maior responsável por aquilo que sinto, portanto evito sempre terceirizar a responsabilidade pelas minhas emoções.

Como não acredito em vida após a morte, me preocupo com a vida hoje. Busco levar uma vida leve e serena, sem remoer o passado nem ansiar pelo futuro. E viver cada vez mais no agora, sem esperar por dias perfeitos que caibam nos meus sonhos.

Aquela mescla de filosofias que citei lá no início, que em um momento achei ser um caminho que não levava a lugar nenhum, hoje vejo que nada mais é do que a construção diária do meu código moral pessoal. Aprendi que nossa moral e nossos valores são construídos com o passar do tempo. E não há nada errado com isso. Amadureço, tenho contato com outras culturas, outros pensamentos, questiono minhas certezas e devagarzinho vou melhorando minha visão de mundo.

Passei a ver que religiões não são uma jornada a ser percorrida. A vida é a jornada. Religiões são os veículos que podem nos ajudar a percorrer o caminho. Esses veículos podem trazer segurança, ajudar a seguir em frente, a superar obstáculos, facilitar em certos trechos mais difíceis.

Há quem prefira veículos grandes e espaçosos onde cabe todo mundo. Há quem prefira veículos simples que dão mais possibilidade de apreciar a paisagem.

E há quem prefira ir a pé.

Eu e a Religião - Parte V

Este artigo é a quinta parte de um longo ensaio sobre minha relação com a religião. No anterior eu conto como enxergo a fé. Aqui eu conto como a religião faz parte da minha vida.

Parte V - A Religião em Minha Vida


Pra quem acompanha as coisas que escrevo, é fácil perceber que religião é um assunto que me interessa muito. Acho as religiões interessantes pelos seus aspectos mitológicos, psicológicos e antropológicos. Gosto de aprender sobre elas e estou sempre lendo sobre o assunto. Um dos meus objetivos de vida é ler os livros sagrados das grandes religiões: o Alcorão, a Bíblia, a Torá, o Maabarata, os principais livros do Espiritismo, e por aí vai.

Só não acho que eles sejam algo além do que livros. Livros importantes, sim. Mas pra mim são livros na mesma medida que Harry Potter ou Ensaio Sobre a Cegueira. Não assumo que eles sejam portadores de verdades absolutas. Dá pra tirar boas lições deles, mas não é só neles que elas podem ser encontradas.

Além disso, busco sempre chamar a atenção para as formas de violência religiosa: seja na tentativa de impor uma religião na vida da sociedade, seja na forma de preconceito (em especial contra religiões com menor representatividade). Exatamente por isso, foi motivo de muita alegria pra mim o tema da redação do ENEM 2016. Quanto mais as pessoas pensarem sobre o assunto, melhor.

Acho estranho (mas carinhosamente entendo) o quanto as pessoas não conseguem falar sobre religiões diferentes sem tentar adequá-las às regras da religião que seguem. Como já escrevi em um artigo alegórico, é como se as pessoas alegassem que é um absurdo a Fórmula 1 não ter regras de escanteio.

Já passei por um breve período em que criticava as escolhas e crenças religiosas dos outros de forma debochada. Felizmente, descobri rápido o quanto este tipo de comportamento é feio e mal educado e o abandonei rápido. Continuo achando algumas crenças curiosas e até engraçadas, mas aprendi a não atingir ninguém por causa disso. Só continuo sem muita paciência para proselitismo.

A religião da qual eu estou mais próximo hoje em dia é o budismo. Como já falei, essa foi uma identificação que surgiu no começo dos meus vinte anos, mas que acabou sendo deixada de lado e agora tornou-se muito presente. Vi que o núcleo do que é o budismo bate muito com o que penso da vida, só que muitas vezes explicado de uma maneira que eu nunca tinha elaborado. Nada mais natural, afinal de contas esse pessoal teve alguns séculos para aprimorar as explicações.

Nos últimos anos tenho lido muitos artigos escritos por pessoas budistas. São artigos que falam de como enxergar a vida sob uma ótica que me atrai muito, sobre a necessidade da serenidade, sobre como somos nós os principais responsáveis pelas nossas vidas e, principalmente, sobre a importância de reconhecer que nada dura pra sempre. Ideias que batem com o que eu já pensava ou que me fizeram ver que eu estava pensando errado e focando nas coisas erradas, me levando então para caminhos e hábitos melhores.

Há também mais duas características do budismo que me atraem bastante. A primeira é que o budismo não tem divindades a serem seguidas e idolatradas nem dogmas a serem seguidos simplesmente porque estão escritos em um livro sagrado (não, Buda não é uma divindade com poderes especiais). Mudar meu pensamento por conta do que leio não é uma questão de aceitar novas práticas mesmo que contra minhas próprias conclusões, mas sim de adotá-las depois de refletir sobre elas.

O outro ponto é que a maioria dos textos budistas não têm o tom de autoajuda de outros discursos que vejo por aí, que falam para você que está no hospital, para você que está sofrendo, para você que está passando por uma situação difícil. São discursos voltados a quem quer ter uma visão de vida mais clara, não uma tentativa de seduzir e catequizar alguém.

Mas não me declaro budista, já que não frequento um templo nem faço parte de nenhum grupo religioso. No final das contas, não é que eu tenha me convertido. Eu na verdade aprendi que o budismo é uma filosofia que se aproxima do meu jeito de ser. Não sou eu que sou budista. É o budismo que é a mim.

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A seguir, Filosofia

Eu e a Religião - Parte IV

Este artigo é a quarta parte de um longo ensaio sobre minha relação com a religião. No anterior eu conto como me afastei do cristianismo, aqui eu explico como enxergo a fé.

Parte IV - Uma Outra Perspectiva


Sei que há muitas coisas fantásticas que acontecem, e para as quais não temos ainda explicações, a não ser aquelas dadas pelas religiões - santos que curam, apoio de desencarnados, má influência de demônios, a posição dos astros. Mas estas explicações não me satisfazem. Se para os fiéis uma cura improvável é a prova de que há alguém velando por nós, pra mim todos os outros que morrem são uma forte indicação de que não tem ninguém olhando. Onde alguns veem sinais e evidências, eu vejo apenas coincidências.

Quando passo por um problema, pensar que uma divindade vai zelar por mim se eu pedir com muita convicção me soa como desperdício de tempo. A esposa já perguntou se eu não gostaria que as pessoas fizessem orações caso eu caísse doente. Eu já deixei avisado: prefiro que façam coisas mais práticas, como me manter limpo, me dar os remédios na hora e botar música pra tocar.

Sei que tem gente que precisa de uma âncora, um amuleto, para poder se sentir motivada. E nisso reconheço o grande poder da fé. As pessoas são capazes de coisas incríveis quando estão amparadas numa crença sólida. Algo do tipo "agora que eu fiz o meu trabalho, Ogum vai me ajudar a passar no vestibular" e então se lasca de tanto estudar porque sabe que vai ter uma divindade ajudando. E aí vai lá e passa na prova.

Também reconheço que a fé, seja lá no que for, tem um papel ainda bem misterioso em processos de cura, e isso me intriga muito. De tudo o que já li e estudei, o que parece é que a fé é um placebo com anabolizantes. Quando entendermos como isso acontece, vamos ver que essas curas se dão por processos tão naturais quanto quaisquer outros. Da mesma maneira que aprendemos que Tupã não era uma voz divina, mas apenas o som gerado pelos raios.

Cada vez mais eu percebo e aprendo como nossa mente funciona. Por isso penso que os fenômenos que as pessoas experimentam em templos são frutos de suas próprias cabeças. Eu já entrei em um estado de transe durante um culto, uma experiência muito prazerosa e incrível. Mas já tive uma experiência semelhante durante um show, e vejo que a minha entrega ao ambiente em que estava foi fundamental para o que senti.

Reconheço a força disso tudo, acho lindas e emocionantes certas manifestações de fé. Só que pra mim estas experiências são fruto da nossa capacidade de autossugestão, não da intervenção direta de alguma força sobrenatural.

Eu não consigo mais pensar que as coisas boas que me acontecem se dão porque os astros estão alinhados do jeito certo. Se fosse assim, eu me pergunto sempre, então as pessoas sofrem porque são ignoradas por Vishna? Minha cirurgia deu certo porque Shiva guiou a mão da cirurgiã, e outras pessoas morrem na mesa porque seus anjos da guarda têm outros assuntos a tratar?

Para cada afirmação categórica me vêm à mente exemplos desconcertantes. Um amigo perdeu o pai e uma pessoa disse a ele que Deus tinha sido bom com o pai dele, por conta das circunstâncias da sua morte. Então com os outros ele tinha sido o que? Estúpido? Escroto? Espírito de porco?

Uma amiga teve a casa invadida por assaltantes. Eles a amarraram junto com a empregada e torturaram o seu marido. Queimaram os dedos dele, cortaram ele com facas. Levaram tudo o que tinham dentro de casa: eletrodomésticos, comida, os produtos que ele vendia na loja. Um suplício que durou sete horas. Enquanto isso tudo acontecia, seu filho de um ano e meio dormiu placidamente. Uma pessoa ouviu a história e disse, "Deus protegeu." Não tenho palavras para expressar meu desconcerto com essa afirmação.

Os exemplos são, enfim, inúmeros.

Além do que, pra fechar este raciocínio, me soa quase como deboche eu dizer que fui abençoado de alguma forma por alguma divindade quando uma pessoa crente nesta mesma divindade não foi. "Lero lero! Nossa Senhora do Livramento gosta mais de mim do que do teu irmã-ão, eu não me feri e ele está paraplégi-côô!"

Um dia, conversando com um amigo, ele disse que estava fazendo uma trilha quando chegou a um lugar lindo. Disse que se encheu de paz, ficou assombrado e extremamente grato à vida por estar cercado de tanta beleza e, enfim, encontrou Deus.

É uma maneira bacana de pensar. Deus (ou qualquer outra divindade) deixa de ser uma entidade sobrenatural, um ser superior, um pai bondoso, uma divindade a ser temida / adorada / idolatrada / respeitada, criadora de tudo e todos, que tudo sabe e tudo vê, que julga e absolve ou condena, que intervém (ou não) na vida das pessoas, seja em resposta a orações, vontade própria ou de acordo com nossa adequação às suas regras.

Ao invés disso, passa a ser o conjunto de caraterísticas de um momento que faz com que ele seja tido como bom ou ideal. Deus é quando as circunstâncias são boas, harmônicas, serenas, sem violência e sem tensão. Se pego um avião e na viagem há raios e trovões, turbulência, crianças chorando, com alguém roncando do meu lado, então a viagem foi com problemas. Mas se a viagem foi com céu limpo, sem choro e sem ronco, então viajei com deus.

Por isso me soa tão inútil rezar pros santos, como se as circunstâncias fossem nos dar ouvidos e se adaptar à nossa vontade. Seria como rezar para a gravidade não puxar a porcelana em direção ao chão quando ela escorrega da nossa mão.

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A seguir, A Religião em Minha Vida

Eu e a Religião - Parte III

Este artigo é a terceira parte de um longo ensaio sobre minha relação com a religião. No anterior eu conto como abracei o cristianismo. Aqui eu conto como lidei com as dúvidas.

Parte III - Verdade


As dúvidas cresceram e eu me sentia cada vez mais desconfortável. Nunca consegui tomar a Bíblia como um registro histórico literal: a criação do mundo em sete dias, Jonas na barriga do peixe, o Mar Vermelho abrindo ao meio. Nada disso pra mim fazia sentido. Havia também o problema do questionamento ser mal visto. A simples sugestão de uma dúvida era suficiente para despertar olhares de repreensão.

E não era só isso: eu não me sentia satisfeito com as explicações de que Deus estava cuidando de tudo, que bastava orar para resolver problemas. Fazer isso me dava a sensação de que eu não tinha coragem de encarar os problemas da vida e assumir a responsabilidade por meus atos e as consequências deles.

Duas coisas aconteceram então, e elas me puseram no caminho da desconversão. Primeiro, uma piada que li numa página qualquer da internet: para muitos crentes, a Bíblia é como um contrato de software que você rola até o final sem ler e clica em concordar. Eu vi que isso tinha acontecido comigo e achava muito incoerente continuar agindo assim.

Depois, em uma conversa com a namorada, já então esposa, questionei o fato de sermos condenados a uma punição eterna por conta dos erros cometidos durante uma vida tão curta quanto a nossa. Ela falou que se eu tinha aceitado Jesus como meu salvador, eu tinha que acreditar também na punição. Não faz sentido achar que o inferno não existe e acreditar que foi salvo dele, disse ela. Realmente, não fazia sentido, só que essa frase chegou aos meus ouvidos de outra maneira: não fazia sentido acreditar que Jesus podia me salvar do inferno se eu não acreditava que o inferno existisse.

A partir daí eu fui, aos poucos, deixando de acreditar (ou de tentar acreditar) em uma série de verdades e conceitos que são a base de sustentação da fé cristã (e, numa visão mais ampla, de qualquer fé em coisas sobrenaturais). A cada conceito e certeza que eu abandonava, tentava me apegar ainda mais aos que restavam. Mas chegou um ponto que não deu mais: a estrutura já estava frágil demais. Sem essas bases, o castelo de cartas da minha fé ruiu. Minha conversão, mesmo que sincera, tinha sido vã.

Foi aí, já na casa dos trinta, que vi que na verdade eu não acreditava em nada sobrenatural.

Eu até reconheço e não descarto a possibilidade de que existam seres descomunais, responsáveis pela criação do universo. Ou então que todo o universo seja parte de algo ainda maior (algo meio Homens de Preto, sabe como é?). Mas penso assim não porque ache que as coisas são maravilhosas e perfeitas e que, portanto, só podem ter sido criadas por alguém. Não! É só porque simplesmente não dá pra provar que não. São apenas possibilidades e hipóteses, muitas vezes bem divertidas de ficar imaginando. Nas divindades descritas pelas religiões, nessas eu não acredito.

Cheguei à conclusão que para mim a crença em entidades e poderes sobrenaturais é incoerente com o que eu vejo da vida e percebo do mundo. Não consigo aceitar explicações místicas para o que está diante dos meus olhos. Já me disseram que é revolta com Deus, mas eu não consigo acreditar que existem divindades bondosas e caridosas velando por nós enquanto há crianças sofrendo nas mãos de pedófilos e pais violentos. Não consigo acreditar que orações resolvam alguma coisa se pessoas morrem de câncer enquanto outras estão rezando por elas.

Admitir minha descrença não foi fácil. Primeiro porque a não-religiosidade é um terreno inóspito, muito malvisto pela maioria das pessoas. Além disso, é muito especial a sensação de acolhimento e pertencimento por estar em um grupo religioso, e isso é algo que eu acabei perdendo. O EJC que fiz em 2006 continua sendo um dos eventos mais emocionantes da minha vida. E ter a certeza de que pra tudo se tem alguém disposto a intervir a seu favor dá uma segurança e um conforto muito grandes.

Mas não consigo mais pensar assim. É como se eu tivesse aprendido o segredo de uma mágica e nunca mais conseguisse deixar de ver as cordinhas sendo puxadas pela equipe de produção.

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A seguir, Uma Outra Perspectiva.

Eu e a Religião - Parte II

Este artigo é a segunda parte de um longo ensaio sobre minha relação com a religião. No primeiro eu conto como foram minha infância e minha adolescência. Aqui eu conto como abracei o cristianismo.

Parte II - Conversão


Comecei a ler sobre religiões, vi uma identificação com o budismo, mas fui me ligando cada vez mais ao cristianismo, que era a religião mais próxima de mim. Justamente nessa época comecei a namorar uma evangélica. A princípio me recusava a ir aos cultos com ela, por conta daquele preconceito que falei antes, mas com o tempo cedi. Nestes cultos, mesmo com toda minha carga de má vontade, normalmente me emocionava e não conseguia conter as lágrimas. Não me pergunte o motivo: eis o mistério da fé.

Comprei a Bíblia e li o Novo Testamento. Por indicação de um padre durante uma missa, dei atenção maior às epístolas de João e parece que ali todas as explicações se encaixaram. Lembro claramente da satisfação de entender o significado da expressão "em nome de Jesus." Só que faltava ainda uma etapa essencial: acreditar que Jesus tinha existido e que sua história era real.

Algum tempo depois, perto de completar 25 anos, perdi meu pai e busquei consolo na religião. Como a namorada evangélica morava em outra cidade e não nos víamos nos domingos à noite, passei a frequentar a missa. Entendia cada vez mais, me fascinava e me acalmava com o ritual católico. Depois que entendi a razão de ser de cada etapa, uma missa deixou de ser um senta-e-levanta sem fim e passou a ser um ritual tocante e importante. Sempre me emocionava e desejava cada vez mais crer naquilo tudo. Ajoelhava e pedia que Deus abrisse meu coração e me fizesse entender e aceitar. Ao mesmo tempo, sempre que podia ia aos cultos na igreja da namorada. Apesar de achar estranho tanta euforia na igreja dela, tinha passado a gostar.

Foi um processo gradual, mas quando dei por mim já tinha aceitado Jesus como meu senhor e salvador, numa entrega sincera, mesmo que, no fundo, não convicta. No final das contas, foi uma questão de realmente aceitar um raciocínio na confiança de que mais tarde eu iria terminar de entender o que faltava. As incoerências que eu via nos dogmas da igreja católica eram muitas pra mim e me declarei cristão evangélico, em vez de cristão católico.

Mesmo não fazendo parte da igreja católica, participei do Encontro de Jovens com Cristo em 2006. Foi uma das experiências mais incríveis pelas quais já passei, uma montanha russa emocional que no final me deixou em frangalhos. Quando terminou, eu estava muito feliz mas emocionalmente cansado.

Um dos melhores frutos dessa decisão foi eu ter me aberto, finalmente, à música gospel. Até então, o preconceito me fazia torcer o nariz para qualquer temática religiosa. Após a conversão eu finalmente comecei a ouvir artistas como Kleber Lucas, Fernanda Brum e Diante do Trono. Um mundo de música de qualidade, o qual eu rejeitava por conta do rótulo de ser música de crente.

Com o passar do tempo comecei a duvidar da minha conversão. Quando citava a Bíblia ou falava de Jesus, sentia que estava representando um papel, fazendo algo forçado, assumindo valores que não eram os meus. Via as pessoas dando testemunhos de como Jesus tinha mudado suas vidas de uma hora pra outra e eu não sentia isso. Ainda assim, segui em frente depois que uma amiga evangélica me disse que tinha tido as mesmas dúvidas que eu e que só depois de alguns anos ela foi meio que terminando de se converter. Se tinha acontecido com ela, poderia acontecer comigo. Além do quê, como eu não tinha falado das minhas dúvidas pra ela, não tinha como ela estar tentando me convencer de nada.

Continuei na minha caminhada, esperando pelo estalo que me faria abraçar o cristianismo com a mesma paixão que abracei outras coisas que gosto.

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A seguir, Verdade.

Eu e a Religião - Parte I

Este artigo é a primeira parte de um longo ensaio sobre minha relação com a religião. Aqui eu conto como foi a minha infância e adolescência.


Parte I - No Princípio


Minha lembrança mais antiga em relação à religião é a de minha mãe me levando a uma rezadeira, onde a velha balançava um ramo com folhas em volta da minha cabeça. Eu devia ter uns quatro anos. Da infância, lembro também de meu pai desejando que eu dormisse com Deus, Nossa Senhora e o Anjinho Andy. E também de minha mãe indo a um templo do Racionalismo Cristão. Cresci ouvindo os afro sambas de Clara Nunes e fui batizado na igreja católica com cinco anos. Fica claro que cresci num ambiente bem sincrético.

Esta é a história da minha relação com a religião.

Nascido numa família católica não-praticante, só fui começar a frequentar a igreja com dez anos de idade, após a morte da minha mãe. Alguém da família achou que ser catequizado seria bom pra mim, então comecei a ir à igreja nas manhãs de domingo. Participei das aulas de catequese durante uns meses mas não cheguei a concluir, já não lembro mais porque. Desconfio que seja porque achava muito chato.

Na escola, depois desse período, participava das aulas de religião na turma das católicas. Foi nessa época que eu me dei conta de que haviam pessoas que não eram católicas, porque havia também a turma das evangélicas. Até este ponto, eu achava que todo mundo era católico e pronto. Lembro claramente de quando eu e um amigo fomos preencher uma ficha que perguntava nossa religião. Quando ele ficou na dúvida, minha resposta foi católico, ué! Acho que até então eu pensava que as pessoas evangélicas que eu conhecia eram católicas mais fervorosas e linha dura.

Foi por aí também que conheci o termo protestante, quando o professor de ciências meio que se desculpou ao nos ensinar sobre a evolução das espécies. Eu sei que tem gente que é protestante e discorda disso, não sei se alguém aqui é, mas estou aqui pra ensinar ciência, ok?

No fim da adolescência comecei a desenvolver um forte preconceito contra os crentes. A influência de pessoas próximas e a convivência com alguns religiosos mais fundamentalistas contribuiu para isso. Um exemplo foi uma aluna de um curso de informática que se recusou a criar pastas com nomes de estilos musicais como pagode e rock. Outro foi um camarada que ficou acusando desenhos animados e músicas de conterem mensagens subliminares demoníacas. A explosão da quantidade de igrejas evangélicas e seu forte proselitismo durante os anos 90 também contribuíram.

Cresci crendo na existência de um deus, o Deus cristão, mas não acreditava nem me preocupava em seguir os dogmas de nenhuma igreja. Sobre a criação, me firmava numa hipótese mista de religião e ciência. Eu acreditava que a evolução tinha acontecido exatamente como a teoria descrevia, mas que tudo tinha o comando de Deus por trás dos panos. Se Deus era tão poderoso, porque era tão difícil pras pessoas acreditarem que Ele tinha sido capaz de mexer os pauzinhos pra que a evolução fosse algo que pudesse acontecer como aconteceu? Sobre a Bíblia, achava que ela era na verdade uma grande parábola, não um livro de história que narrasse fatos concretos.

Eu via as religiões mais como um fato cultural e muitas vezes folclórico. Pensava que as pessoas simplesmente cresciam num contexto em que uma religião era tão presente em seu círculo social ou familiar que elas, por padrão, eram adeptas dela. Um exemplo disso são as pessoas brasileiras que dizem não seguir nenhuma religião mas que acreditam em Deus. Se nascessem na Índia, essas pessoas provavelmente diriam não serem hindus mas acreditarem em Shiva.

Entrei na casa dos vinte anos acreditando também ter um anjo da guarda que me acompanhava o tempo todo e uma filosofia de vida que bebia de diversas fontes, mesclando ideias de várias religiões. Gostava da ideia da existência de um plano místico, espiritual, e construía meu entendimento sobre ele, povoando-o com Deus, espíritos e anjos da guarda.

Eu costumava dizer que essa minha mescla filosófica de ideias era como conhecer um pouco de cada caminho possível. Com o tempo passei a pensar que nunca chegaria a lugar nenhum se não seguisse um caminho até o final. E isso me fez desejar abraçar uma religião.

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A seguir, Conversão.

Analisando Maya Deren

Em uma das aulas de Teoria da Linguagem Cinematográfica, na faculdade Cinema, assistimos ao curta Meshes of the Afternoon, de 1943, dirigido por Maya Deren. Ao fim de duas exibições seguidas, o professor pediu para escrevêssemos nossas impressões sobre o filme. Ele achou minha redação tão curiosa que pediu para que eu lesse para a turma.

Aproveitei e trouxe o texto pra cá. Ele está depois do vídeo.


Um filme assim chama a atenção pelo inteiro, pelo que é, não pelos detalhes. Um filme que não explica nada, a não ser aquilo que você quer que ele explique.

Fiz o ENEM querendo fazer turismo. Mas turismo é só integral. Das opções que tinha, o cinema chamou a atenção.

Sempre achei que entendia o cinema errado. Não sabia porque as pessoas achavam ótimos filmes que eu achava horríveis. Me matriculei por causa disso. Me chama a atenção gente que vira tudo de pernas pro ar e descarta as três primeiras impressões.

Me matriculei porque tenho começado a me interessar em editar vídeos sobre natureza. Já fiz um. Achei que seria útil.

E vim. Aí vem esse filme. Chama a atenção porque mostra que não sei por onde ir. É rasteiro porque me dá uma rasteira. Mostra que não sei andar com as proprias pernas. Faz parecer que nem tenho pernas.

Mas a dúvida não é uma parede intransponível. É uma sala escura onde tateio para achar o interruptor.

Escrever algo assim é a razão da minha matrícula. Ser capaz de explicar, de tentar explicar, o que ainda não sei o que é.

Achei uma porcaria, porque estou acostumado com filmes que me dão explicações de mão beijada.

Mas é como os filmes de natureza, que quero fazer. Não é pra explicar. É pra contemplar.

Fuga

Produzi junto com dois companheiros de turma meu primeiro curta metragem para o curso de Cinema na UFF. É um plano sequência para a disciplina de Teoria e Prática das Narrativas, ministrada pelo professor Maurício Bragança.

Manual de Vida, Lição 1

Como agir quando alguém diz que não gosta de algo que eu gosto muito.

Aceitar.

Ela é outra pessoa e tem uma visão diferente da minha. E tá tudo bem.

Eu não preciso convencê-la de nada. Ela não precisa se justificar pra mim.

Pronto, é só isso. Agora é só praticar.

Redação do ENEM 2016

Fiz o ENEM 2016 e o tema da redação foi Caminhos para combater a intolerância religiosa no Brasil. Há alguns meses eu publiquei aqui a versão que estava na minha folha de rascunho. Hoje trago a versão final, que recuperei depois que o espelho foi liberado pelo MEC. Fiquei com nota 800.

***

Num país plural como o Brasil, é inadmissível haver tamanha intolerância religiosa, que se pode perceber pelos noticiários e que se pode confirmar com os dados expostos pelo texto IV. Reduzir a influência das bancadas religiosas e punir usando educação são duas ferramentas para se atingir uma maturidade social onde todos sejam respeitados.

Desde câmaras de vereadores que aprovam leis que tornam obrigatória a oração em salas de aula, passando por projetos que tentam impor a inclusão de dogmas religiosos no currículo escolar, indo até projetos federais que se justificam com base em textos bíblicos, é evidente o esforço das bancadas religiosas para impor suas crenças sobre toda a população, à revelia da laicidade do estado.

Uma segunda ferramenta para uma sociedade mais tolerante é a punição de comportamentos inadequados usando a educação e não somente a repressão. Atualmente, como exposto no texto III, a pena para a intolerância religiosa é o cerceamento da liberdade e o pagamento de multas. Entretanto, nenhum dos dois propicia uma melhor compreensão do intolerado por parte do intolerante. Dois exemplos de medidas neste sentido seriam a obrigação de participar de rodas de diálogo com praticantes da religião que foi vítima e também o comparecimento a ritos e cerimônias da mesma. Ao adotar penas sócio-educativas, que levem ao intolerante um entendimento mais claro daquele que é intolerado, é possível que ele passe a ter uma visão melhor do quanto o outro é tão humano, rico e valioso, tão digno de respeito quanto ele mesmo.

A disseminação do conhecimento acerca da realidade do outro e a redução de vozes que buscam tornar-se dominantes são, portanto, duas ferramentas na busca de uma sociedade mais livre e mais tolerante, cujas estatísticas mostrem a face de uma nação mais humana.

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Outros textos meus sobre religião:

Fé e Religião
Como Saber Se Sua Liberdade Religiosa Está Sendo Atacada
Da Religião
A Terra dos Esportes

Do Trabalho do Motorista de Ônibus

Uma grande fonte de conflitos da vida urbana.

Os passageiros acham que o trabalho do motorista de ônibus é levar pessoas de um lugar a outro.

O motorista de ônibus acha que seu trabalho é levar um ônibus de um lugar até o lugar onde está o fiscal, da forma mais rápida possível.

Sobre Querer que o Tempo Passe

Uma armadilha que aprendi a identificar e na qual cada vez caio menos.

No início do ano, ansioso pelo lançamento de um filme, um amigo disse que estava doido para que dezembro chegasse logo.

Em dezembro, ele reclamava que o ano tinha passado rápido demais.

Elton John: 70, 50 e 20 anos

Hoje Elton John faz 70 anos de vida. Começou na música ainda na infância, estudou na Academia Real Britânica, tocou em bandas de apoio de outros artistas até se lançar em carreira solo no final dos anos 60. Além do seu trabalho lançando discos de estúdio, sua vida sempre foi dedicada à música. Trabalhou na composição de diversas trilhas sonoras para filmes (O Rei Leão, O Caminho para o El Dorado, entre outros) e peças de teatro (Billy Elliot, Aida, Lestat). E também apoiou e ajudou a impulsionar diversos artistas. Leon Russell, Brandi Carlile, Lady Gaga, James Blunt, 2Cellos e Ed Sheeran são apenas alguns.

Mas ele não se envolveu apenas com música. No final dos anos setenta, financiou e tornou-se o presidente do time inglês de futebol Watford. Conseguiu levar a equipe à primeira divisão do campeonato inglês. No início dos anos noventa, fundou a EJAF, uma fundação para angariar fundos para auxílio dos portadores de AIDS. Até hoje já arrecadou mais de duzentos milhões de dólares.

Também neste ano, Elton John completa 50 anos de parceria com o letrista Bernie Taupin, uma das mais duradouras da história da música. Foram unidos por puro acaso, após ambos responderem ao anúncio de uma gravadora. Passaram alguns poucos anos escrevendo músicas para outros artistas até decidirem seguir seus instintos e Elton iniciar sua carreira solo.

Tiveram sua fase áurea na primeira metade dos anos setenta, lançando um sucesso atrás de outro. Se afastaram um pouco na virada pros anos oitenta, quando ambos trabalharam com outros parceiros. Mas desde Too Low for Zero, lançado em 1983, praticamente todos os discos de estúdio do Elton John são frutos dessa parceria.

Por fim, este ano marca também os 20 anos desde que conheci sua música. No início, tudo era apenas admiração pelas músicas do filme O Rei Leão. Mas bastaram poucos anos para que sua obra se tornasse uma constante na minha vida. É grande o saudosismo quando ouço os primeiros discos dele que comprei.

Para quem já pensou em viajar para os Estados Unidos para ver um show dele por conta de sua ausência dos palcos brasileiros, me sinto privilegiado por já ter tido a oportunidade de assisti-lo quatro vezes. E o quinto show está virando a esquina, já na semana que vem. Se há uma coisa da qual eu poderia reclamar, é da falta de variedade em seu setlist. Há algumas músicas que eu adoraria ver ao vivo, como Indian Sunset e Circle of Life, mas reconheço que minha cota já foi gasta e que tudo o que vier é lucro.

Comecei a conhecer o seu trabalho quando seu sucesso de público chegava ao fim. Ele continua enchendo plateias onde quer que vá, mas o que ele faz não é mais parte do panorama musical há muito tempo. Seus discos recentes até conseguiram chegar perto do topo nas listas dos mais vendidos na semana de lançamento, mas vejo que isso acontece muito mais por excesso de propaganda do que por expectativa de público.

Hoje acumulo na minha prateleira mais de 60 discos com seu nome na capa. São discos de estúdio, trilhas sonoras, coletâneas, registros de shows. Tenho também muitos livros, vinis e dvds. É uma obra tão grande, da qual gosto tanto, que faz dele o único artista que consigo ouvir sempre sem precisar dar um tempo de vez em quando.

Sei que sua carreira está chegando ao fim, ele mesmo já vem falando isso há alguns anos. Por isso, torço para que ele ainda lance alguns outros discos antes de parar de vez. Entendo que não vamos ter um novo Goodbye Yellow Brick Road ou um novo Honky Chateau, mas já fico bem satisfeito se ele seguir na linha do que fez no último. Se pudesse ter um pedido atendido, gostaria que ele e a banda registrassem em estúdio músicas no estilo do que eles têm feito ao vivo em Levon.

Muita gente me pergunta porque eu gosto tanto de suas músicas. Eu não sei responder. Não escolhi isso. Parece que fui escolhido por elas. Já aconteceu de eu me perguntar se estava exagerando no gosto, tentando representar o papel de fã mesmo sem gostar tanto assim. Aí botava o Tumbleweed Connection ou o Sleeping With the Past pra tocar e via que não. Gosto muito mesmo, e pronto. Mesmo que me aconselhem a não gostar tanto.

Como sempre, fica o desejo de que ele ainda tenha uma vida longa e produtiva pela frente.

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Para celebrar os 70 anos do velho, uma playlist com 70 músicas dele.

Alguns outros artigos que já escrevi sobre o Elton John:

Sobre o disco The Union, com Leon Russell
O 3000-ésimo show do Elton John
A Música que Elton John fez para a Princesa Diana
Como me tornei fã de Elton John
10 Músicas de Elton John que você precisa conhecer
Tradução da Entrevista que dei ao Elton John All Song List
Tradução de Entrevista que Elton John deu a um jornal

Das Explicações

"E se eu estiver num restaurante com minha esposa e meus filhos e na mesa ao lado estiverem dois homens e eles se beijarem? Como eu explico isso pros meus filhos?"

Primeiro, você não precisa explicar nada. A vida é deles e você não tem nada com isso. Mas se os filhos perguntarem, que tal essa explicação?

"Assim como eu e sua mãe gostamos um do outro e nos beijamos, aqueles caras ali também se gostam e por isso se beijam."

Porque Não Acompanho o Noticiário

Porque, sinceramente, qual é a importância de saber que uma casa caiu em Nova Iguaçu? Ou que uma professora foi assassinada durante um protesto na França? Ou que uma criança foi abandonada num carro no centro de Maceió?

Diversas casas caem todos os dias, diversas pessoas são assassinadas todos os dias, diversas crianças são abandonadas todos os dias. Aí os jornais pinçam um caso e ficam martelando em cima dele durante dias, alimentando um espírito de indignação e revolta só pra atrair audiência e dinheiro de anunciantes. É explorar a dor dos outros como forma de entretenimento.

Não estou desmerecendo a dor dos outros, que é sim grande e verdadeira, mas ficar acompanhando as notícias pra descobrir quem foi o assassino, que o engenheiro não tinha diploma, que o posto de gasolina não tinha alvará, como foi que o avião caiu, tudo isso é muito mórbido pra mim.

Dos Absurdos que as Pessoas Falam

Gosto muito quando vejo as pessoas falando absurdos sobre coisas que conheço bem.

Quando acham que analistas de sistemas consertam computadores, quando acham que todo budista pensa que pode reencarnar como um leopardo, quando falam que a propriedade dos cartórios é hereditária, quando falam que nunca viram macaco virando homem.

Nessas horas, quando vejo o quanto essas pessoas ignoram como são totalmente furadas as suas pretensas certezas, eu olho pra dentro. Humano e falho como sou, reconheço que estou no mesmo barco e me pergunto: quais das minhas certezas são furadas?

Descreva seu Filme Favorito de Forma Tosca

Um moleque ganancioso fica doido que o pai morra para poder mandar no reino. Seu tio mais interesseiro ainda mata o irmão e faz o moleque se sentir culpado e meter o pé dali. Enquanto o tio destrói o reino, o garoto é criado por um casal homossexual. Sua irmã foge do reino depois do tio tentar agarrá-la e eles acabam se encontrando. Ele volta, dá um couro no tio, torna-se rei, casa com a irmã e tem uma filha com ela.

De Planejar pro Ano Novo

Essa coisa de planejar o que quer fazer num ano, para só no seu final alcançar os objetivos, é uma furada. Não quero viver uma vida em que eu alcance objetivos só no fim do ano.

Afinal de contas, a separação exata de quando os anos começam e terminam é só uma decisão burocrática e arbitrária que serve pra falarmos a mesma língua.

Quando o assunto é minha vida, quero começar projetos e terminar projetos.

Aprendi a abandonar a ideia falsa de que março e abril não são meses de formatura e que novembro e dezembro não são meses de começar grandes planos.

Não quero mais ficar nessa de achar que chegar em outubro e pensar oh, o ano já está acabando, deixa eu começar esse projeto em janeiro. Isso é uma armadilha que desperdiça vida.

Todo dia é dia de começar.