Redação do ENEM 2016

Fiz o ENEM 2016 e o tema da redação foi Caminhos para combater a intolerância religiosa no Brasil. Há alguns meses eu publiquei aqui a versão que estava na minha folha de rascunho. Hoje trago a versão final, que recuperei depois que o espelho foi liberado pelo MEC. Fiquei com nota 800.

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Num país plural como o Brasil, é inadmissível haver tamanha intolerância religiosa, que se pode perceber pelos noticiários e que se pode confirmar com os dados expostos pelo texto IV. Reduzir a influência das bancadas religiosas e punir usando educação são duas ferramentas para se atingir uma maturidade social onde todos sejam respeitados.

Desde câmaras de vereadores que aprovam leis que tornam obrigatória a oração em salas de aula, passando por projetos que tentam impor a inclusão de dogmas religiosos no currículo escolar, indo até projetos federais que se justificam com base em textos bíblicos, é evidente o esforço das bancadas religiosas para impor suas crenças sobre toda a população, à revelia da laicidade do estado.

Uma segunda ferramenta para uma sociedade mais tolerante é a punição de comportamentos inadequados usando a educação e não somente a repressão. Atualmente, como exposto no texto III, a pena para a intolerância religiosa é o cerceamento da liberdade e o pagamento de multas. Entretanto, nenhum dos dois propicia uma melhor compreensão do intolerado por parte do intolerante. Dois exemplos de medidas neste sentido seriam a obrigação de participar de rodas de diálogo com praticantes da religião que foi vítima e também o comparecimento a ritos e cerimônias da mesma. Ao adotar penas sócio-educativas, que levem ao intolerante um entendimento mais claro daquele que é intolerado, é possível que ele passe a ter uma visão melhor do quanto o outro é tão humano, rico e valioso, tão digno de respeito quanto ele mesmo.

A disseminação do conhecimento acerca da realidade do outro e a redução de vozes que buscam tornar-se dominantes são, portanto, duas ferramentas na busca de uma sociedade mais livre e mais tolerante, cujas estatísticas mostrem a face de uma nação mais humana.

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Outros textos meus sobre religião:

Fé e Religião
Como Saber Se Sua Liberdade Religiosa Está Sendo Atacada
Da Religião
A Terra dos Esportes

Do Trabalho do Motorista de Ônibus

Uma grande fonte de conflitos da vida urbana.

Os passageiros acham que o trabalho do motorista de ônibus é levar pessoas de um lugar a outro.

O motorista de ônibus acha que seu trabalho é levar um ônibus de um lugar até o lugar onde está o fiscal, da forma mais rápida possível.

Sobre Querer que o Tempo Passe

Uma armadilha que aprendi a identificar e na qual cada vez caio menos.

No início do ano, ansioso pelo lançamento de um filme, um amigo disse que estava doido para que dezembro chegasse logo.

Em dezembro, ele reclamava que o ano tinha passado rápido demais.

Elton John: 70, 50 e 20 anos

Hoje Elton John faz 70 anos de vida. Começou na música ainda na infância, estudou na Academia Real Britânica, tocou em bandas de apoio de outros artistas até se lançar em carreira solo no final dos anos 60. Além do seu trabalho lançando discos de estúdio, sua vida sempre foi dedicada à música. Trabalhou na composição de diversas trilhas sonoras para filmes (O Rei Leão, O Caminho para o El Dorado, entre outros) e peças de teatro (Billy Elliot, Aida, Lestat). E também apoiou e ajudou a impulsionar diversos artistas. Leon Russell, Brandi Carlile, Lady Gaga, James Blunt, 2Cellos e Ed Sheeran são apenas alguns.

Mas ele não se envolveu apenas com música. No final dos anos setenta, financiou e tornou-se o presidente do time inglês de futebol Watford. Conseguiu levar a equipe à primeira divisão do campeonato inglês. No início dos anos noventa, fundou a EJAF, uma fundação para angariar fundos para auxílio dos portadores de AIDS. Até hoje já arrecadou mais de duzentos milhões de dólares.

Também neste ano, Elton John completa 50 anos de parceria com o letrista Bernie Taupin, uma das mais duradouras da história da música. Foram unidos por puro acaso, após ambos responderem ao anúncio de uma gravadora. Passaram alguns poucos anos escrevendo músicas para outros artistas até decidirem seguir seus instintos e Elton iniciar sua carreira solo.

Tiveram sua fase áurea na primeira metade dos anos setenta, lançando um sucesso atrás de outro. Se afastaram um pouco na virada pros anos oitenta, quando ambos trabalharam com outros parceiros. Mas desde Too Low for Zero, lançado em 1983, praticamente todos os discos de estúdio do Elton John são frutos dessa parceria.

Por fim, este ano marca também os 20 anos desde que conheci sua música. No início, tudo era apenas admiração pelas músicas do filme O Rei Leão. Mas bastaram poucos anos para que sua obra se tornasse uma constante na minha vida. É grande o saudosismo quando ouço os primeiros discos dele que comprei.

Para quem já pensou em viajar para os Estados Unidos para ver um show dele por conta de sua ausência dos palcos brasileiros, me sinto privilegiado por já ter tido a oportunidade de assisti-lo quatro vezes. E o quinto show está virando a esquina, já na semana que vem. Se há uma coisa da qual eu poderia reclamar, é da falta de variedade em seu setlist. Há algumas músicas que eu adoraria ver ao vivo, como Indian Sunset e Circle of Life, mas reconheço que minha cota já foi gasta e que tudo o que vier é lucro.

Comecei a conhecer o seu trabalho quando seu sucesso de público chegava ao fim. Ele continua enchendo plateias onde quer que vá, mas o que ele faz não é mais parte do panorama musical há muito tempo. Seus discos recentes até conseguiram chegar perto do topo nas listas dos mais vendidos na semana de lançamento, mas vejo que isso acontece muito mais por excesso de propaganda do que por expectativa de público.

Hoje acumulo na minha prateleira mais de 60 discos com seu nome na capa. São discos de estúdio, trilhas sonoras, coletâneas, registros de shows. Tenho também muitos livros, vinis e dvds. É uma obra tão grande, da qual gosto tanto, que faz dele o único artista que consigo ouvir sempre sem precisar dar um tempo de vez em quando.

Sei que sua carreira está chegando ao fim, ele mesmo já vem falando isso há alguns anos. Por isso, torço para que ele ainda lance alguns outros discos antes de parar de vez. Entendo que não vamos ter um novo Goodbye Yellow Brick Road ou um novo Honky Chateau, mas já fico bem satisfeito se ele seguir na linha do que fez no último. Se pudesse ter um pedido atendido, gostaria que ele e a banda registrassem em estúdio músicas no estilo do que eles têm feito ao vivo em Levon.

Muita gente me pergunta porque eu gosto tanto de suas músicas. Eu não sei responder. Não escolhi isso. Parece que fui escolhido por elas. Já aconteceu de eu me perguntar se estava exagerando no gosto, tentando representar o papel de fã mesmo sem gostar tanto assim. Aí botava o Tumbleweed Connection ou o Sleeping With the Past pra tocar e via que não. Gosto muito mesmo, e pronto. Mesmo que me aconselhem a não gostar tanto.

Como sempre, fica o desejo de que ele ainda tenha uma vida longa e produtiva pela frente.

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Para celebrar os 70 anos do velho, uma playlist com 70 músicas dele.

Alguns outros artigos que já escrevi sobre o Elton John:

Sobre o disco The Union, com Leon Russell
O 3000-ésimo show do Elton John
A Música que Elton John fez para a Princesa Diana
Como me tornei fã de Elton John
10 Músicas de Elton John que você precisa conhecer
Tradução da Entrevista que dei ao Elton John All Song List
Tradução de Entrevista que Elton John deu a um jornal

Das Explicações

"E se eu estiver num restaurante com minha esposa e meus filhos e na mesa ao lado estiverem dois homens e eles se beijarem? Como eu explico isso pros meus filhos?"

Primeiro, você não precisa explicar nada. A vida é deles e você não tem nada com isso. Mas se os filhos perguntarem, que tal essa explicação?

"Assim como eu e sua mãe gostamos um do outro e nos beijamos, aqueles caras ali também se gostam e por isso se beijam."

Porque Não Acompanho o Noticiário

Porque, sinceramente, qual é a importância de saber que uma casa caiu em Nova Iguaçu? Ou que uma professora foi assassinada durante um protesto na França? Ou que uma criança foi abandonada num carro no centro de Maceió?

Diversas casas caem todos os dias, diversas pessoas são assassinadas todos os dias, diversas crianças são abandonadas todos os dias. Aí os jornais pinçam um caso e ficam martelando em cima dele durante dias, alimentando um espírito de indignação e revolta só pra atrair audiência e dinheiro de anunciantes. É explorar a dor dos outros como forma de entretenimento.

Não estou desmerecendo a dor dos outros, que é sim grande e verdadeira, mas ficar acompanhando as notícias pra descobrir quem foi o assassino, que o engenheiro não tinha diploma, que o posto de gasolina não tinha alvará, como foi que o avião caiu, tudo isso é muito mórbido pra mim.

Dos Absurdos que as Pessoas Falam

Gosto muito quando vejo as pessoas falando absurdos sobre coisas que conheço bem.

Quando acham que analistas de sistemas consertam computadores, quando acham que todo budista pensa que pode reencarnar como um leopardo, quando falam que a propriedade dos cartórios é hereditária, quando falam que nunca viram macaco virando homem.

Nessas horas, quando vejo o quanto essas pessoas ignoram como são totalmente furadas as suas pretensas certezas, eu olho pra dentro. Humano e falho como sou, reconheço que estou no mesmo barco e me pergunto: quais das minhas certezas são furadas?

Descreva seu Filme Favorito de Forma Tosca

Um moleque ganancioso fica doido que o pai morra para poder mandar no reino. Seu tio mais interesseiro ainda mata o irmão e faz o moleque se sentir culpado e meter o pé dali. Enquanto o tio destrói o reino, o garoto é criado por um casal homossexual. Sua irmã foge do reino depois do tio tentar agarrá-la e eles acabam se encontrando. Ele volta, dá um couro no tio, torna-se rei, casa com a irmã e tem uma filha com ela.

De Planejar pro Ano Novo

Essa coisa de planejar o que quer fazer num ano, para só no seu final alcançar os objetivos, é uma furada. Não quero viver uma vida em que eu alcance objetivos só no fim do ano.

Afinal de contas, a separação exata de quando os anos começam e terminam é só uma decisão burocrática e arbitrária que serve pra falarmos a mesma língua.

Quando o assunto é minha vida, quero começar projetos e terminar projetos.

Aprendi a abandonar a ideia falsa de que março e abril não são meses de formatura e que novembro e dezembro não são meses de começar grandes planos.

Não quero mais ficar nessa de achar que chegar em outubro e pensar oh, o ano já está acabando, deixa eu começar esse projeto em janeiro. Isso é uma armadilha que desperdiça vida.

Todo dia é dia de começar.