Conto: O Melhor Primeiro Beijo

Pra mim, não existe apenas um primeiro beijo. Cada parceira que já tive me deu o prazer de um primeiro beijo, que veio depois de algum tempo de paquera ou então num roubo inesperado. Lembro com detalhes de cada um dos meus primeiros beijos: onde foram, em que circunstâncias, o que foi dito antes, o que foi dito depois. Mas, por incrível que pareça, o meu melhor primeiro beijo foi com um homem.

Sim, eu sei que esta é uma declaração chocante para uma lésbica fazer, mas admitir que beijei um homem é mais fácil do que foi admitir publicamente minha opção sexual.

A gente se conheceu em um trabalho voluntário, ajudando famílias que tinham perdido suas casas com as chuvas de verão. Isto foi há muito tempo e lembro que no almoço a gente conversou bastante. Claro que eu não estava procurando um possível namorado, longe disso. Pra mim ali estava apenas uma pessoa legal para conversar. Passamos um bom tempo conversando sobre música, sobre livros, sobre televisão, até o dia terminar. Ficamos assim durante várias semanas, o tempo em que durou a ajuda às famílias.

No início eu desconfiava que ele estava querendo alguma coisa comigo, mas não queria admitir, ou não dava importância. Mas com o tempo foi inevitável saber, mesmo que nenhum dos dois o dissesse. Sempre que tinha folga ele passava no meu serviço e ficava por lá, conversando comigo, às vezes durante horas. Eu sabia que ele estava lá tentando me conquistar, tentando me fazer ceder, mas não tocava diretamente no assunto. Eu não dava um fora porque, puts, o cara tem um papo maravilhoso.

Mas o tempo passou, as distâncias entre nós foram surgindo e às vezes ficávamos meses sem nos ver, mesmo morando em uma cidade relativamente pequena. Apenas um dia ou outro, sempre na pressa, é que nos víamos. Ele em direção ao seu trabalho de arquiteto, eu rumo ao balcão da gráfica. De vez em quando até parávamos para conversar um pouco, mas a vida atabalhoada de ambos não nos deixava botar os papos em dia. A única coisa que não mudava era o desejo em seu olhar.

Se ele sabia que eu era lésbica? Sim, sabia. Ele soube logo depois que a gente começou a trabalhar juntos, porque a minha namorada da época apareceu por lá. Mas não se importava.

Um dia calhou de viajarmos juntos para Petrópolis. Não só nós dois, mas uma excursão, uma quinze pessoas. A turma alugou uma casa e ficamos por lá quinze dias, todos de férias, curtindo a vida. E foi lá, depois de muitos anos de gato e rato, de finge-não-finge, que tivemos A Grande Conversa em um banco isolado de uma praça isolada.

Sentados ali, com o vento frio da serra maltratando nossos casacos, ele contou tudo o que eu já sabia mas que nunca tinha ouvido de sua boca, apenas lido em seus olhos. Disse que desde o primeiro dia em que estivemos juntos ele teve vontade de estar comigo. Disse que mordia-se de ciúmes ao me ver com alguma namorada.

Aí, meu filho, haja tato para falar pro cara que, amigo, você é gente boa, mas o que eu gosto mesmo é de mulher. Sei que não deve ter sido muito agradável para ele me ouvir dizer que eu sentia tanto asco de beijar homens quanto ele, mas foi preciso. Para o bem de ambos eu não podia deixá-lo seguir com seus desejos impossíveis.

Conversa terminada voltamos para a casa, e a partir daí eu nunca o vi tão mudo, assim ficando até o fim da excursão. Sorte que ninguém nos viu juntos aquele dia, senão iam desconfiar, o que não seria nada bom.

Passada a etapa ruim, a coisa entre nós mudou um pouco, mas não tanto quanto eu queria. Ainda nos encontrávamos nas calçadas, e às vezes eu ainda notava um olhar de desejo nele quando estávamos juntos, mas este olhar não trazia mais a sua carga habitual de esperança, mas sim uma sombra de tristeza, que por várias vezes me deixou arrependida de ter sido tão franca. Deixamos, por fim, de conversar como antes.

Mas, como dizia o poeta, o tempo não pára, e por necessidade do acaso, anos mais tarde tive que passar na firma em que ele trabalhava, e ele, tendo acabado de ganhar dois convites para o show do Quarteto em Cy, me convidou para acompanhá-lo, pois sabia que as adoro. Aceitei, mais pela euforia do show do que para agradá-lo. Mais tarde vi que talvez isso tenha sido uma chance que Deus me deu para me redimir.

Nos encontramos na frente da casa de shows, entramos, bebericamos alguns refrigerantes e nos deliciamos com aquelas quatro vozes maravilhosas. Ao final, depois de uma breve tietagem, ele se ofereceu para me acompanhar até minha casa, pois já era tarde. Lá fomos nós, caminhando lentamente durante uma arrastada meia hora, colocando toda a conversa em dia.

A conversa no portão durou então, sei lá, umas duas horas. Parecíamos aqueles dois amigos que se conheceram no trabalho voluntário, falando sobre tudo o que tinha acontecido nos últimos seis anos, desde aquela excursão. Vendo o adiantado da hora ele falou que ia embora, e então aconteceu.

Depois dos tradicionais dois beijinhos, veio um longo beijo na boca. Não foi um beijo roubado, forçado. Foi natural, como o beijo de um casal que não se encontra há tempos e tem o seu momento de privacidade. Eu me deixei beijar, ele se deixou beijar, eu quis beijá-lo e ele a mim. Nos enroscamos em um abraço confortável, quase um ninho. Parece que, desde o início de tudo, inconscientemente eu tinha alimentado o desejo de fazer aquilo também, e finalmente, a sós, completamente a sós, pudemos extravasar e expressar, em um beijo quase-eterno, todo o carinho que tínhamos um pelo outro.

Quando nossas bocas se separaram e nossos olhares se encontraram, houve um longo e solene silêncio. Não eram necessárias palavras para sabermos o que se passava no coração um do outro. Trocamos apenas um adeus leve, quase aliviado, que selou nossa história.

Continuamos nos encontrando pelas calçadas e voltamos a ser bons amigos, mas sem nenhum resquício daquele romance. Ele seguiu sua vida e hoje está casado, com filhos. Eu segui a minha, estou casada e lutando ao lado de minha companheira para obter a adoção de um bebê.

Antes de chegar onde cheguei hoje, beijei muitas outras bocas, mas nenhum dos outros primeiros beijos, nem antes nem depois, chegou aos pés daquele.

Um comentário:

Maria Levy disse...

As mulheres sempre lembramos do nosso primeiro beijo.
As vezes, uma confunde a amizade com o amor, e nao da certo.
Eu beijei de grande porque tinha vergonha de usar lentes miopia mas agora nao tenho nenhum problema.