Livro: Harry Potter e o Cálice de Fogo

Há pouco tempo acabei de ler o quarto livro da série Harry Potter. E lá vai o aviso: se você nunca leu e não quer ter as surpresas estragadas, saiba que o livro é muito bom e saia já daqui.

No geral, achei o livro mais fraco que o anterior, que com suas viagens no tempo me agradou demais. Ainda assim é um bom livro, e na parte final fica ótimo. Seus últimos capítulos jogam a história como um todo para um outro patamar. Saem as cenas infantis e engraçadinhas e entram cenas pesadas, com sangue nos olhos e ranger de dentes.

Toda a cena do renascimento de Voldemort é tudo o que eu não esperava ver tão cedo na série. A morte de Cedrico, a ferida cruel em Harry e a auto-mutilação de Rabicho foram uma das coisas mais pesadas que li ultimamente, no nível da cena de estupro coletivo de Ensaio Sobre a Cegueira. E tudo de surpresa, sem aviso.

Achei interessante também o fato de todas as pontas soltas deixadas para trás nos capítulos iniciais, durante a copa mundial de quadribol, foram devidamente amarradas no final, sem soluções mirabolantes.

Tudo isso trabalha para que você não veja a hora de começar a ler o próximo. Muito bom mesmo.

Depois de ler fui ver o filme, que também é bacana. Assim como os outros, deixa muita coisa de fora e muda outras aqui e ali, mas como são duas linguagens diferentes não dá pra cobrar que seja tudo igual. O mais surpreendente nele é como os atores cresceram desde o terceiro.

Conto: Os Dois Filhos de Deus

Certa vez, há muito, muito tempo atrás, Deus estava no céu, sentado em seu trono, e então chamou o seu filho mais velho para uma conversa séria.

- Sente-se aí, meu filho.

- Diga, meu pai.

- Você sabe que lá embaixo a coisa já não está andando muito bem, não é?

- Sim, senhor.

- E que já está quase na hora de as profecias se realizarem.

- Claro, pai.

- Então eu resolvi que você, como meu filho mais velho, deveria descer até lá para representar o papel de salvador da humanidade. Sabe como é, meu rapaz, desde que Eva e Adão beliscaram a maçã, o pecado tem crescido bastante por aquelas bandas, tudo obra do Lúcifer.

- E o que eu tenho que fazer como o salvador daquele povo?

- Bom, você vai passar por uns maus bocados, sabe? Primeiro de tudo, você vai nascer em uma família pobre, e pior ainda, será filho de mãe solteira. Tudo bem que vai ter um rapaz que vai assumir a paternidade, mas isso vai ser um assunto que vai gerar discussão durante pelo menos uns três mil anos.

- Ah, tudo bem, Adão e Eva aprontaram das suas há muito mais tempo e ainda estão na boca do povo.

- Mas não é só isso. Quando atingir uma certa idade, você terá que ensinar ao povo a minha verdadeira mensagem. Você levará para todos eles uma palavra de fé, esperança e redenção.

- E isso não é bom?

- A princípio parece que sim, porque as pessoas vão gostar de ouvir o que você terá para dizer, e vão gostar ainda mais das curas milagrosas que você será capaz de realizar. Mas, claro, alguns não vão ver com bons olhos os seus feitos.

- Quem são essas pessoas?

- Infelizmente serão pessoas poderosas, que vão te perseguir. Aliás, perseguir-te-ão desde o nascimento! Você vai escapar por pouco. E esta perseguição vai te trazer muito sofrimento.

- Eu não vou ter como fugir deles?

- Não, filho, não terá como fugir deles. Primeiro porque a sua grande missão não será ensinar, mas sim morrer pelos que pecam, para que eles alcancem a vida eterna. Você até tentará driblar os que desejarão te matar, mas um de seus maiores amigos irá te trair, entregando-te aos inimigos.

- Puxa, um grande amigo fará isso? Mas que Judas, hein?

- Pois é, filho. E depois que este amigo te entregar, seu sofrimento será incomparável. Você será açoitado, socado, chutado, arrastado e, por fim, crucificado.

- Que barra, hein? Tá com jeito de que eu vou sofrer mais do que o tal de Jó.

- Sim, doerá. E muito! Ou você acha que o peso dos pecados de todos os homens é leve de ser carregado? Mas não se preocupe muito com isso. Três dias depois de morrer crucificado você voltará à vida.

- Você tá dizendo que eu vou reencarnar?!

- Psss, filho, não fale essa palavra! Você não faz idéia de como ela pode gerar controvérsias entre eles lá de baixo! Basta dizer que você voltará à vida. E é aí que reside a sua verdadeira missão: só com o seu retorno à vida é que as pessoas crerão que você é meu filho, e que através de você podem chegar à salvação e à vida eterna.

- Ah, então tá bom pai. Se é pra sofrer um pouco mas para ajudar a todos eles...

- Todos eles não!! Todos eles não!!

- Como todos eles não?

- Muitos não crerão! Rios de tinta serão derramados sobre os papiros para contar a sua história, para contar a sua missão, e muitos darão testemunho de terem visto tudo o que você fizer e disser, mas ainda assim muitos deles não vão acreditar. Poderão passar dois mil anos, mas nem assim todos vão seguir as suas palavras. Muitos zombarão dos que crerem em você, e, horror dos horrores, zombarão de você! Eles vão esquecer de você e passarão a inventar outros deuses, e se curvarão diante deles!

- O senhor tá dizendo que apesar de eu me estropiar todo pra ajudá-los eles vão cagar e andar pra mim?

- Mal-falando, é isso aí.

- Ah, pai, peraí, sofrer eu até sofro, mas não agüento gente mal-agradecida.

- Mas, filho...

- Mas nada pai! Gente mal-agradecida não, eu tô fora. Pode riscar meu nome do papel de cordeiro de Deus. Vazei, ralei peito, fui.

Virou as costas e saiu. Só não bateu a porta que não havia nenhuma. Deus, sem muita opção, chamou o caçula.

- Jesus! Venha cá, meu filho...

Livro: Love is the Cure, por Elton John

Recentemente, acabei de ler Love is the Cure, primeiro livro escrito por Elton John, no qual ele narra sua trajetória na luta em defesa das pessoas com AIDS. É um excelente livro, disponível por enquanto apenas em inglês, sem previsão de chegar às prateleiras tupiniquins. Ele, para quem não sabe, trabalha na luta contra a AIDS há muitos anos, e volta e meia participa como palestrante em eventos sobre o assunto.

Desde que comecei a me interessar mais por sua música, lá pelos idos de 1999, eu sempre lia alguma coisa sobre a EJAF, a Fundação criada por ele para angariar e distribuir fundos, mas nunca tinha ido mais fundo na sua história. E o livro vai fundo, mostrando que o buraco é bem mais embaixo do que a gente pensa.

Além de contar a história da EJAF, o livro traz dezenas de relatos sobre como o preconceito e o estigma só jogam contra a erradicação da doença. Porque enquanto estas pessoas forem vistas como culpadas, e não como vítimas, a cura será inalcançável.

Elton John critica duramente várias lideranças governamentais, como um presidente africano que afirmou que a AIDS não era causada por um vírus e, portanto, não havia a necessidade de se usar remédios; e a igreja católica, que recomenda aos seus fieis que não usem camisinha.

Mas não é apenas de histórias tristes que é feito o livro. Love is the Cure tem também muitos exemplos de ações e empreendimentos que mudaram e estão mudando a vida de pessoas em todo o mundo, desde casas que acolhem travestis e usuários de drogas na África do Sul até a emocionante época em que o próprio Elton, antes de criar a EJAF, saía com amigos pelas ruas de Atlanta distribuindo quentinhas para aidéticos que não tinham forças ou coragem de sair de suas casas, largados à própria sorte.

Se de um lado Elton John escancara o quanto há de mal, de preconceito e de ignorância no mundo, do outro ele nos brinca com tocantes exemplos de bem, de compaixão e de amor ao próximo.

E a mensagem que permeia todo o livro, como o próprio título entrega, é que a cura para a AIDS é a compaixão. Elton deixa claro que não está sugerindo que os tratamentos sejam abandonados e que a AIDS vá sumir do mapa com base apenas em boas ações, mas sim que, enquanto as pessoas aidéticas forem estigmatizadas - principalmente suas vítimas que sofrem mais preconceito, os homens gays, os usuários de drogas injetáveis e os profissionais do sexo - de nada adiantarão todas as políticas de combate à AIDS.

Ele mostra que, embora não haja uma cura definitiva para a AIDS, é possível erradica-la do nosso meio simplesmente acolhendo e educando todos aqueles portadores dela ou aqueles mais vulneráveis a ela. Com uma forte dose de educação, as pessoas deixarão de transmitir o vírus da AIDS na velocidade com que é transmitido hoje; os portadores atuais vão, mais cedo ou mais tarde, morrer, como todos morremos, e o vírus deixará de se espalhar.

Mas enquanto houverem países onde a homossexualidade for crime, enquanto houverem líderes religiosos que condenam o uso da camisinha, enquanto houverem corporações que só visam o lucro máximo, mesmo que às custas da dor alheia, a cura da AIDS estará distante.