Programar Pode Atrapalhar Sua Vida

O artigo a seguir é uma tradução autorizada do original Programming Can Ruin Your Life, publicado há cerca de um mês no site Devizen.

Ao contrário do que foi comentado por muitos no texto original, este artigo não tem a intenção de generalizar, e dizer que a vida de quem programa está fadada a se destruir. Na verdade, ele tem apenas a intenção de alertar para um perigo que pode minar a sua vida se você tiver tendências obsessivas.

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O que não falta por aí são artigos exaltando as virtudes de se tornar uma boa programadora. Você terá uma mente afiada, habilidades de abstração e a chance de se tornar rica trabalhando poucas horas por dia. É isso que você sempre ouviu, não foi?

Infelizmente, ninguém fala sobre os malefícios que isso traz. Os efeitos físicos são óbvios: você fica a maior parte do tempo sentada, geralmente em uma cadeira desconfortável com uma postura péssima. Você se entope com comida vagabunda, geralmente cheia de açúcar ou gordura, e bebe litros de café ou refrigerantes para se manter atenta.

Mas não vou falar aqui dos riscos para a saúde, pois como já falei eles são óbvios. Então, do que estou realmente falando? Ser uma programadora muda não apenas seu corpo. Ser uma programadora muda sua maneira de pensar. Você pode ouvir uma programadora dizer: "eu gosto de Python porque é igual o meu jeito de pensar". Será que é isto mesmo ou será que ela aprendeu a pensar em Python? Não importa em qual linguagem você programa, seu jeito de pensar muda, e não há uma programadora decente que negue isso. É por isso que é tão difícil explicar para alguém como você faz alguma coisa, pois, por mais que sua explicação seja clara, você pensa de um jeito diferente. E é esta mudança de raciocínio que pode atrapalhar sua vida.

O perigo mora em aplicar ao dia-a-dia os hábitos e processos específicos da atividade de programar. As mesmas habilidades que fazem de você uma ótima programadora podem te transformar em uma sujeita chata e incompreendida.

Quando você programa, os problemas sempre são resolvidos, basta que você não desista. A solução está lá, em algum lugar, basta tentar e estudar o suficiente que você uma hora consegue. Computadores não são legais? Eles nos dão terreno aberto para descobrir soluções, e você pode tentar quantas vezes quiser. E isto te leva à crença de que uma falha nunca é o ponto final, e que qualquer obstáculo pode ser superado. Mas isso não é verdade na vida real. Você pode até ter uma segunda chance aqui e ali, mas o mundo nem sempre perdoa seus erros e o tempo segue em frente, sem parar.

Ao se deparar com um problema de programação, seu subconsciente vai ficar remoendo aquilo, mesmo quando você não está mais na frente do computador. Talvez seja um algoritmo que você precise criar, ou então dados que devem ser modelados, isso não nos importa agora, mas sua mente não vai deixar o problema de lado e a ficha vai cair durante o banho ou enquanto você vê novela. Só que esta prática pode lentamente se arrastar para o resto da sua vida: cada problema que você tiver vai ser remoído mais e mais em seu subconsciente até chegar o ponto em que você não se concentra em mais nada.

Um programa de computador é maleável: você pode fazer infinitas mudanças, começar de novo, melhorar, mudar e ver o resultado na hora. Mas a vida não é assim. As coisas que você faz geralmente não podem ser desfeitas. As mudanças que você faz podem não ter um resultado imediato. Ou seja, o que falta na vida é o retorno instantâneo dos computadores. Além disso, pode acontecer de suas mudanças serem ignoradas, você pode perder informações, pode ser que ninguém note as coisas que você melhorou.

Programadoras podem se tornar obcecadas pela perfeição. É por isso que elas estão constantemente falando em refazer as coisas, e por isso não resistem às soluções ótimas. E ser perfeita requer ignorar idéias pequenas. Uma programadora pode até mesmo deixar um problema sem solução ao invés de resolvê-lo de forma deselegante. Esta forma de pensar faz com que ela não escreva um programa de pouca utilidade e que tenha vida curta. Só que, mesmo que seja bom ser assim quando o assunto é programação, isso é um problema sério no dia-a-dia. Você não começa a agir enquanto não consegue pensar no melhor jeito de fazer as coisas. E fica paralisada.

A obsessão pela perfeição te leva a uma atitude de sempre pensar no amanhã. A habilidade de antecipar problemas te dá uma grande vantagem pois você não perde tempo programando coisas que mais cedo ou mais tarde se mostrarão falhas, tudo por causa da sua visão curta ou falta de imaginação. Graças a isso, você fica permanentemente imaginando soluções melhores. Se você trouxer isso para o seu dia-a-dia, você vai acabar tentando criar planos mirabolantes para matar todos os coelhos com uma cajadada só, o que será agonizante, pois nem sempre estes planos são possíveis.

Quando você começa a pensar assim, cada detalhe é importante e merece toda a atenção e análise. E vai ficar frustrada quando ver que nem todo mundo pensa assim. Sua maneira de tomar decisões vai, cada vez mais, deixar de ser parecida com a de suas amigas.

O ritmo frenético da informática vai colocar em você um senso de urgência, e você achará que tem que fazer tudo agora, pois amanhã será tarde demais. O fato de trabalhar o tempo todo não vai mais parecer estranho ou ridículo, e você se sentirá culpada em suas horas de folga, pois deveria estar trabalhando. Mas você estará trabalhando: suas mãos podem não estar no teclado, mas sua mente estará.

É linda a história das jovens que constróem uma grande empresa começando a trabalhar na garagem de casa. É muito fácil convencer a si mesma que o sonho está lá fora, basta se esforçar. Mas você deve entender que há muitos fatores que estão além do seu controle. Sorte e tempo são dois deles. Não deixe passar em brancas nuvens a vida que você tem enquanto você busca outra vida diferente. Pascal colocou isso muito bem: "Nunca estamos no presente. Nós antecipamos o futuro, nós achamos que ele demora pra chegar e tentamos acelerá-lo, ou então tentamos reviver o passado pois ele se foi rápido demais. Somos tão burros que pensamos no tempo que não temos e esquecemos do que temos, sonhamos com o que será e não vemos o que já é. Por isso nunca vivemos, apenas esperamos viver. E por sempre planejarmos como ser felizes, nunca o somos."

Programar é o caminho para a ruína? Ou será que apenas aquelas com tendência ao detalhismo e à perfeição se perdem no caminho?

Claro que existem outras características que as programadoras compartilham, mas eu foquei apenas as coisas negativas. Existe sim o lado positivo da coisa. Tudo que foi dito aqui como sendo ruim pode sim ser algo bom se mantido sob controle. Perigosa é a obsessão, não importa onde ela surja. E obsessão por programação não é exceção.

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3 comentários:

Walter Cruz disse...

Você conhece o seriado House M.D? Pra mim, ele é um exemplo (obviamente exagerado) de como seria uma pessoa se vivesse no mesmo espírito de quando está programando. Embora divertido na tela, não é nada agradável.

Mário Marinato disse...

Não conheço não, Walter. Passa em que canal?

Henrique disse...

Nossa! Eu fico praticamente assim o tempo todo!
Quando eu me foco em resolver uma coisa, nao saio daquilo até resolver... até quando não estou no PC!